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“A Gravura na Casa” • Fazendeiros e c@nibalismo? Jesus Cristo! • LOVECRAFT

A Gravura na Casa: Análise do Conto de H.P. Lovecraft

Neste vídeo da série dedicada à análise da obra de H.P. Lovecraft, examinamos "A Gravura na Casa" ("The Picture in the House"), um conto escrito em dezembro de 1920 e publicado na edição de julho de 1921 da revista *The National Amateur*. A história mergulha no terror psicológico e atmosférico, explorando o medo sutil e o suspense muito antes de revelar qualquer elemento chocante.

E aí, pessoal do Universo Antares! Sejam bem-vindos a mais um vídeo aqui no canal e bem-vindos de volta à nossa playlist onde eu analiso todo o material de ficção de H.P. Lovecraft. No vídeo de hoje, vamos analisar um conto extremamente interessante com o título de "A Gravura na Casa", no original em inglês *The Picture in the House*. Ele foi escrito em dezembro de 1920 e publicado na edição de julho de 1921 da revista *The National Amateur*, volume 41, número 6. Então, para quem tiver curiosidade, você pode achar o original, mas enfim.

Este é um conto muito interessante porque aqui a gente tem de volta o Lovecraft trabalhando no terror psicológico. Esse é um dos contos mais atmosféricos do autor. A fonte do terror a gente não está vendo; o horror… Eu não sei se vocês sabem até a diferença entre isso, mas o terror e o horror não são a mesma coisa. O horror é quando há uma criatura sobrenatural, quando a fonte do tormento acaba sendo sobrenatural e real — então, sei lá, um alienígena, um monstro, um fantasma. O terror é um estilo, então ele pode servir para qualquer coisa; você pode falar de uma história de ação, mas que tem terror, por exemplo. Então o terror é muito mais um estilo. Aqui ele mistura esses dois elementos, mas vai muito mais para o lado do terror.

Qual que é a história? Basicamente, tem um cara que está na Nova Inglaterra, sempre a Nova Inglaterra. Um pesquisador está rondando os arredores da Nova Inglaterra, mas basicamente ele quer chegar a Arkham, que é a grande cidade fictícia de H.P. Lovecraft. Ele está nos arredores agora e pegou uma bicicleta para poder chegar à cidade mais rápida, só que desaba uma chuvarada. O cara não consegue prosseguir a viagem, fica completamente encharcado e acha uma cabana um tanto quanto afastada de um povo que é igualmente afastado da população, da civilização.

Ele chega nessa casa, deixa a bicicleta do lado de fora, dá um toque, toque, toque para ver se tem alguém. Ninguém responde e ele entra na casa. E aí o terror começa, porque a gente tem três opções de caminho que o protagonista encontra. Tem uma escadinha que vai até o segundo andar da casa — o segundo andar da casa é o dos outros quartos, enfim —, e tem uma porta ao lado da escadaria e duas portas assim, uma contra a outra, logo que ele entra no hall de entrada. Ele decide pegar a porta da esquerda e, a partir desse momento, ele começa a ficar vislumbrado com o quão antiga é a mobília da casa, datando do século XVI ou século XVII. Ele fica fascinado, com aquela sensação que mistura fascínio com terror. Então ele vai até uma das estantes próximas dali e começa a vasculhar os livros, até que ele acha um livro específico que chama muito a atenção dele, que é o *Regnum Congo* ou algo assim — é um livro que existe na vida real mesmo, e ele fala muito sobre canibalismo.

Ele vê outros livros e fica impressionado com o fato de que uma propriedade tão simples poderia ter livros tão antigos e raros, que seriam o deleite de um colecionador. Tudo muda quando ele ouve passos — o barulho de passos tão pesados que vão descendo as escadas. E aí ele fica aterrorizado por um breve momento, até que ele consiga enxergar a figura de um velho senhor, alto, com a tez da pele muito clara, rosada, tem uma barbona, bem um fazendeiro inglês mesmo, um *yankee*. O velho abre a porta, vê a bicicleta e o cara pensa: "Ferrou, esse cara vai começar a me xingar aqui porque eu entrei na casa dele desavisado, porque eu achei que não tinha ninguém aqui".

Mas, pelo contrário, o fazendeiro tem aquele sotaque de fazendeiro, sabe? O fazendeiro se demonstra muito gentil com ele e começa a conversar, a falar sobre as curiosidades, sobre como ele veio parar ali. Eles começam a dialogar: "De onde você veio? De Boston? Seu sotaque é de Boston, eu conheço um homem da cidade quando eu vejo um". Vão conversando, conversando, até que o interesse do velho volta para os livros, e o velho começa a ficar estranhamente interessado, extremamente apaixonado por esses tópicos mais polêmicos. E aí ele vai falando sobre como ele conseguiu cada um dos livros quando ele estava servindo no exército.

E aí ele se depara finalmente com o *Regnum Congo*, essa livraria… não sei se é esse o título, não lembro agora, mas ele mostra e fala assim: "Então, você já viu este livro aqui? Olha só que legal". E ele começa a mostrar as gravuras de uma espécie de um açougue, e ele está numa loja que tem carne humana à amostra. O protagonista fica assim: "Já tinha visto aquela imagem". Mas o interesse e a dialética quase apaixonada com a qual esse velho senhor fala com ele… ele fica meio aterrorizado, porque o cara parece realmente interessado naquilo.

E aí ele vai falando: "Olha só essa gravura, e sabia que depois de ver este livro…" — e o livro é em latim antigo — "…você pode traduzir algumas partes? Porque eu só me baseio nas imagens". O protagonista vai lá e traduz algumas partes, e ele fica fascinado. O fazendeiro diz: "É tão interessante! Sabia que, depois de adquirir este livro, eu criei um estranho fascínio por essas atividades? Sabe, dá uma vontade de você matar, de comer carne humana… Não, não precisa se apavorar, mas assim…" E ele começa a falar essas coisas, e o cara fica tipo assim: "Que quê?".

E aí ele vê que uma dessas imagens, inclusive, que aparece dessas gravuras dessas tribos de africanos, é de negros, só que alguns deles parecem ter a tez da pele muito clara. Ele começa a olhar para a gravura, olhar para o cara, tipo assim: "Hum, tem coisa estranha aqui", e começa a ficar meio aterrorizado. E o velho fala assim: "Ah, no começo eu tentei com algumas ovelhas, sabe, porque eu queria saber se funcionava". O cara fica aterrorizado. "Mas é estranho, não é? Mesmo assim, no futuro…" — e aqui eu tô imitando voz de velho, mas é uma voz de velho com sotaque de fazendeiro — "…mas é estranho, porque dá realmente uma vontade de você comer carne humana, sabe? Mas eu só tô falando por curiosidade, porque eu nunca tentei isso."

E é aí que uma gotícula cai. Um trovão ressoa lá fora, o personagem dá uma olhada assim para a janela com medo, pelo susto, e aí ele vê — e o cara é muito bem escrito, porque, enquanto o relâmpago, o flash do relâmpago ilumina a sala, ele consegue ver uma gota escura caindo em direção ao livro. O velho abre os olhos, arregala os olhos assim, e ele também fica apavorado, porque ele vê que é uma gota vermelha. E aí ele olha para o teto e vê uma mancha avermelhada surgindo assim no teto. E ele pensa: "Não é possível, goteira aqui não seria possível, porque ele está no primeiro andar da casa e o segundo andar, pelo que ele tinha visto do lado de fora, era bem protegido. E outra: que tipo de chuva é vermelha desse jeito?".

E aí ele fica tão apavorado que, quando termina, ele fala assim: "Não sei como eu saí de lá; eu só sei que o esquecimento é assolutum", digamos assim. Ele ficou quase como uma amnésia seletiva de tão traumatizado. E a gente fica: "Caraca, o que é que aconteceu? Como é que ele fugiu de lá? Será que ele fugiu de lá? Será que ele participou de alguma coisa com o velho? E o que era aquele sangue? Será que era humano? Será que era um outro animal?".

É um conto muito bem feito, muito bem escrito. Vale a pena conferir *A Gravura na Casa*. Eu resolvi traduzir dessa forma porque, enfim, tem a ver com a imagem aterrorizante que ele vê lá do açougue, desse velho estranho. A gente percebe que o Lovecraft gosta muito de escrever pessoas estranhas, e esse é certamente um desses contos. Mas enfim, é isso, espero que vocês tenham gostado e eu vejo vocês no próximo vídeo. Até mais!