Gregor Samsa de fato é uma vítima: ele foi transformado num inseto gigante e a culpa não é dele. Só que ele não é oprimido de graça. Justamente a opressão e a crueldade de que a gente estava falando antes são gratuitas. Quando você vê um anime — um exemplo ótimo aqui que talvez muita gente não lembre, mas é fácil —, tem um personagem que é um tritão, um homem-peixe em One Piece, que aparece numa temporada em que os Piratas do Chapéu de Palha estão num mundo subaquático, tipo uma Atlântida. Só que todo mundo ali é meio peixe, a maior parte das pessoas é de peixes humanos, e eles se chamam tritões. Aí tem uns tritões lá que são tipo uns nazistas, sabe? Eles odeiam humanos, tentam matar humanos, querem exterminar os humanos, querem fazer com que os tritões cheguem ao topo. É super sinistro.
Quando o capitão desses piratas aventureiros está lutando com esse tritão, ele vira e pergunta: "Mas por que você odeia os humanos?". E a gente não sabia o porquê; a gente sabia que ele odiava, que ele fazia de tudo para acabar com eles, mas nunca soube o motivo. E aí o tritão responde: "Nada". O que os humanos fizeram para você? "Nada." Ele não tem um trauma, ele não tem uma vingança que quer completar, não é um ódio direto, não é gratuito no sentido de vir de um sofrimento prévio. Ele é como um vândalo, como um valentão que quer uma desculpa para dar vazão ao seu gosto por violência. Não é nem o caso de dizer: "Ah, eu sofri, meus pais me bateram, me abusaram, quero descontar a raiva nos outros". É simplesmente: "Eu gosto de fazer as pessoas sofrerem. Quem eu posso fazer sofrer? Poxa, tem uma treta entre humanos e tritões, eu sou tritão, beleza, vou alimentar um ódio generalizado pelos humanos e vou conseguir um pretexto para enfiar a porrada".
Isso é crueldade. Crueldade é o Michael Myers na franquia Halloween: desde o primeiro filme, desde a primeira cena, ele tem sete anos de idade e esfaqueia e mata a irmã. Tudo o que o Michael Myers faz para matar os outros não tem um sentido exato, ele só é um psicopata que gosta de matar as pessoas naquela vizinhança, mais especificamente em torno de uma família e dos vizinhos. E ele faz porque sim. Por isso ele é o mal encarnado: porque é gratuito, não é dependente de nada, é uma crueldade inteiramente gratuita, de graça, sem uma razão de ser.
Só que a gente já falou aqui mais cedo nessa live, e o Lucas foi concordando, enfim, embora a gente tenha uma reação diferente a essas coisas, como vocês viram, é bem mais superficial. Não é isso que acontece em A Metamorfose. A cena da irmã e da mãe no quarto — não vou repetir aqui para vocês, não vou ficar sendo prolixo como eu sempre sou —, a cena é de um narrador contando para gente, o narrador falando: "Ó, elas fizeram por causa disso". Às vezes é a própria mãe falando: "Não, vamos tirar as coisas daqui porque, né, ele vai se sentir abandonado, vai se sentir abandonado, e para quando ele voltar para nós" — ela tem esperança de que ele volte para nós — "ele vai poder se reacostumar mais fácil. Vamos deixar as coisas dele aqui". E ela acerta! Ela acerta, porque exatamente o que ele pensa é: "Estão tirando as minhas coisas, preciso conservar alguma coisa". Ela acertou.
Eu pergunto a vocês: uma mãe que é tão desconectada emocionalmente do filho, que é uma mãe opressora — como Nabokov diz, como a Débora concorda e como muita gente concorda —, ela ia pensar nisso? Ela ia olhar e se preocupar com isso? Ora, se ela é tão egoísta assim, por que ela quis entrar no quarto do irmão? Outra coisa: por que eles estão conservando-o durante dois meses? Eles estão alimentando-o durante dois meses. Sabe o que eles podiam fazer? Podiam botar ele numa gaiola e chamar gente para fazer dinheiro: "Olha o inseto gigante, uma besta maravilhosa que a gente controla! Tá na África, nós somos uma família de aventureiros", faz todo um marketing mentiroso sobre um inseto que ninguém tem no mundo, só eles. Têm aquele inseto ali, faz uma grana enorme, né? Por que não?
Ou, se eles fossem desleixados, matavam ele logo. O pai deu um chutinho nele, ele saiu voando, ficou manco e sangrando, bem fácil. Tem outra cena ali que o Gadara destacou aqui, que ele queria que a gente falasse, mas não era a hora: o pai dele arremessa maçãs no Gregor porque não está conseguindo pisotear, não está conseguindo esmagá-lo com o pé, não está conseguindo bater nele. E ele começa a tacar maçãs, e uma maçã se crava nas costas de Gregor e fica ali, fica até apodrecendo. Quando ele morre, a maçã ainda está lá, não está mais machucando tanto, mas ainda está agarrada porque ninguém tem coragem de tirar, de tão nojento e asqueroso que é tirar a maçã dali. Enfim, ela ainda fica podre lá. O pai podia tê-lo matado com, sei lá, três maçãs. Imagina, pega três maçãs e imagina poder matar alguém que você não gosta com três maçadas: pega a maçã, joga na cabeça, *tuf, tuf, tuf*, acabou, morreu, entendeu?
Então, se eles quisessem se livrar rapidamente, bastava dar uns pisões, dar uma maçã… Caramba, dá comida envenenada, ou simplesmente não dá comida! Não dá comida para ele, pronto, vai morrer, joga ele fora, esfaqueia ele, sei lá. É um bicho, né? Pô, esmaga ele com o pé — com o pé é bem difícil, mas enfim, as maçãs funcionaram. E se quiserem fazer dinheiro, se aproveitar dele, serem parasitas mesmo, como dizem? Ora, faz dinheiro, pô! Caraca, tem toda essa economia do moleque lá, compra uma cela, põe ali, faz da casa um teatro dos horrores com esse bicho. Naquela época, as pessoas iam pagar para ver. Hoje em dia as pessoas pagariam para ver um inseto gigante, isso que hoje em dia tem internet e o cara tem que filmar. Mas naquela época não tinha filmadora, não era todo mundo que tinha uma câmera, sacou?
Então, beleza, ok. Com os exemplos que eu trouxe antes para vocês, faz algum sentido? Vocês estão conseguindo conectar? Não confie em mim: vá lá ler a obra. A obra tem menos de 80 páginas. Em menos de 80 páginas vocês vão saber se eu tô mentindo ou não, se sou eu que tô enganado ou se é a Débora. Vão ver lá, leiam o texto, vejam se o que eu estou falando não está escrito lá.
Enfim, vamos voltar aqui para o vídeo. Kafka não gosta de história em que o personagem é só uma vítima oprimida pelos outros. Que história é essa? Não sei que história é essa.