Ficou muito bom. Mas é um epíteto aí que não faz sentido com o personagem, a não ser que a gente faça uma análise moral dele. A gente pode fazer isso porque a hospitalidade grega é um fator determinante para a moral dos personagens, inclusive na própria *Odisseia*. E o porqueiro é quase o ápice do bom anfitrião. Ele até chega a esboçar isso, porque ele não vai com a cara de Ulisses quando ele está disfarçado de mendigo. O mendigo meio que fala uns negócios que ele não gosta muito do próprio Ulisses, se eu não me engano, e o porqueiro diz: "Mesmo você falando isso aí, não tem problema, vou te hospedar". Então, talvez pelo viés moral, a gente possa dizer que faz sentido esse epíteto de "divino", ainda que a hospitalidade grega não possa ser aplicada aos deuses, como a gente vai ver mais para frente.
Um outro epíteto que aparece, e é curioso, é o fato de Ulisses toda hora se referir à sua tripulação como "fiéis companheiros". Não sei se você lembra disso, mas por que eu acho curioso? Porque esses caras não eram tão fiéis assim, e o maior problema que acontece com eles é justamente quando traem a confiança de Odisseu.
Primeiro, eles desconfiam de Odisseu por causa do episódio com Éolo, o deus dos ventos. Ele consegue um saco de vento para ajudá-los a sair dali e voltar para casa, mas não fala o que tem dentro. Como o Odisseu fica tão apegado àquilo e não pode abrir o saco, a tripulação começa a desconfiar que ele teve acesso a algum tesouro que não quer revelar. Até que, em algum momento, um deles abre o saco e ferra todo mundo. Eles estavam quase chegando a Ítaca e são empurrados para longe de novo.
Mas não é só isso. O que acaba de vez com eles no final, levando à morte de toda a tripulação, é quando eles traem a confiança de Odisseu pela última vez, em relação ao rebanho de Hélio, o deus sol. Odisseu havia recebido o aviso de que tudo daria errado se desrespeitassem o rebanho do sol, pois não podiam comer aqueles animais. Ele insiste, explica tudo para os caras, mas eles, com fome, vão desconfiando cada vez mais. Quando de repente Odisseu sente um cheiro de churrasco, ele chega lá e já era: os caras estão comendo o gado de Hélio. Aí acontece uma desgraceira do caramba, morre todo mundo, e só o Odisseu se salva.
Então é irônico ele chamar esse grupo de "fiéis companheiros". Esses dois eventos mostram bem isso. Como faz um tempo já que li, não estou com a memória tão fresca da *Odisseia*, mas conforme você vai puxando os assuntos, eu vou lembrando e acrescentando.
O Bruno fez um comentário interessante: os guerreiros ficavam meio desconfiados do Ulisses já que ele era o *polytropos* (o das muitas voltas / o sagaz). Às vezes eu chamo de Ulisses, às vezes de Odisseu, porque nunca sei como chamá-lo. Então talvez seja por isso mesmo que aconteça essa atrapalhada, embora o histórico de Ulisses não fosse de armar para cima dos próprios companheiros, o que não justifica totalmente, mas dá para entender.
A Gomadara falou que o saco de vento lembrou o filme do Bob Esponja. Infelizmente eu não vi esse filme, cara, e olha que eu gosto de Bob Esponja. O melhor episódio é o da minhoca-touro do Alasca. Procurem aí, o das minhocas-touro do Alasca, o melhor episódio de longe da primeira temporada de Bob Esponja.
Ah, tem um outro epíteto ainda, que é o dos "pés velozes". Esse aqui é sensacional, aparece logo no começo.