O grande problema de Odisseu é que, para o grego, não podia importar quem era o estrangeiro; bastava que o homem fosse estrangeiro para que eles sentissem a obrigação de tratá-lo bem. Isso acaba anulando a identidade de Odisseu, e isso acontece várias vezes. Por exemplo, quando Odisseu está lá com o rei dos Feácios, os feácios nem sabem quem ele é e o tratam muito bem. De repente, eles descobrem quem ele é — todo mundo sabe quem é Odisseu por toda parte —, mas, mesmo depois de descobrirem, continuam tratando-o como um estrangeiro, chamando-o de forasteiro. Ou seja, nessa jornada, ele continua sendo o estrangeiro, continua sendo outra coisa que não quem ele é de verdade. Inclusive, quando ele vai contar de si mesmo, a partir do canto nove — ou do oito, não me lembro bem —, ele fala dele mesmo em terceira pessoa; o narrador muda ali, não é mais ele falando diretamente na primeira pessoa. Ele fala de Ulisses como se ele não fosse ele mesmo.
Portanto, o tema da hospitalidade acaba entrando em conflito com o tema da identidade na construção do personagem, o que é fascinante. Outra forma como isso acontece é quando ele tenta escapar do Ciclope. Não é à toa que, para escapar do Ciclope, a única maneira, o seu ardil, é dizer que ele não é ninguém, ou melhor, que ele é "Ninguém" — todo mundo deve saber disso. Quando o Ciclope tem o olho estourado, ele grita para os irmãos, e o pessoal pergunta: "O que aconteceu? Tem alguém te tentando matar?". E ele responde: "Ninguém está tentando me matar". Os outros dizem: "Então você está maluco por estar gritando aí". Ou seja, o ardil do grande Ulisses o obriga a se desfazer de sua identidade. É claro que estou dizendo algo óbvio, mas veja como as duas coisas são importantes: ele é obrigado a escapar dessa falta de hospitalidade do Ciclope dizendo que não é ninguém. E, quando ele consegue escapar, toda a dor de cabeça que arruma acontece exatamente porque ele volta atrás nesse ardil e, por orgulho de sua identidade, revela ao Ciclope quem ele é. Quando já está na nao, ele grita: "Olha, eu sou Odisseu!". E aí o Ciclope, sabendo quem ele é, amaldiçoa Odisseu para o seu pai, que é Poseidon. É justamente aí que acontece toda a desgraça.
É quase como se Odisseu não pudesse ser ele mesmo se quiser conseguir chegar em casa. E, ao mesmo tempo, ele só vai ser ele mesmo se chegar em casa, pois precisa completar essa jornada. Enquanto não chega lá, ele não pode ser ele: não pode ser ele para Polifemo, não pode ser ele para os Feácios, não pode ser ele quando chega a Ítaca. Ele tem que se esconder até o momento de se revelar. Isso tem tudo a ver com a Odisseia, com a própria ideia de uma jornada de Odisseu, com a hospitalidade e, consequentemente, com o tema da identidade. Parece que ele só vai voltar a ser ele mesmo quando retornar, quando fechar o seu arco narrativo e voltar para Ítaca.
Por parte do Ciclope, há também uma fala curiosa, pois ele dizia que havia uma profecia. O Ciclope já sabia quem ia prejudicá-lo; ele dizia que sabia que seria um tal de Odisseu que o deixaria cego, mas sempre esperava um homem do seu próprio tamanho. O Ciclope é enorme e, logo que os gregos chegam à sua caverna, eles discutem um pouco, o Ciclope pega e devora dois homens, dorme, acorda e come mais dois, totalizando seis homens comidos de dois em dois. Como o Ciclope era muito grande, e sabia que ia enfrentar o herói de Troia que o cegaria, ele imaginava que seria um homem tão forte, grande, imponente e poderoso quanto ele. Ele chega a zombar de Odisseu, dizendo que nunca imaginaria que seria um homem tão insignificante quanto aquele que apareceu por lá.
De qualquer forma, enquanto Odisseu está nesse trajeto para casa, ele realmente não é grande coisa, e esse é o ponto. Ele nem sequer consegue ser quem ele é — pelo menos quem ele é nas histórias —, nem mesmo do ponto de vista de Polifemo. Inclusive, quando ele está lá com Calipso, veja o tempo que ele perdeu lá, mesmo sendo o homem dos mil ardis.