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Os Reis dos Feácios – Odisseia de Homero – CANTO 7 ••• Lucas Rosalem

Odisseia Canto 7: Os Reis dos Feácios e Odisseu

O Canto 7 da *Odisseia* acompanha a chegada de Odisseu ao magnífico palácio do rei Alcino, na terra dos feácios, após ser guiado discretamente pela deusa Atena. Protegido por uma névoa mágica que o torna invisível, o herói adentra a corte e se projeta diretamente aos pés da rainha Arete, suplicando por hospitalidade e ajuda para retornar à sua terra natal.

O canto sete começa ainda com o grupo todo em direção à cidade dos feácios, mas Nausícaa, que vinha à frente em sua carroça de mulas, chega bem antes e vai direto para o seu quarto no palácio. A cena volta então para Odisseu, que continua sua caminhada envolto em uma névoa espessa colocada pela deusa Atena para escondê-lo e protegê-lo dos feácios. No trajeto, Atena aparece disfarçada de mulher comum carregando um cântaro de água e orienta o herói em direção ao castelo, aconselhando-o a não olhar muito para os lados, visto que aquele povo não era muito amigável com estrangeiros. No entanto, como a névoa já impedia que os moradores o enxergassem, o pedido serviu mais para garantir que ele mantivesse um comportamento adequado no percurso.

O caminho até o palácio é marcado por longas descrições da arquitetura e da exuberância do lugar. Quando se aproximam, Atena avisa que está rolando uma festa, o que facilitaria a entrada de Odisseu direto no salão para encontrar a rainha Arete. A deusa destaca que a rainha possuía grande bom senso e que, se ela decidisse ajudá-lo, suas chances de voltar para casa aumentariam consideravelmente. Ao chegarem diante do palácio, Atena desaparece e Odisseu, após contemplar a beleza do local, entra e passa despercebido por todos, indo diretamente até a rainha.

Nesse momento, a névoa se dissipa e ele se joga aos pés de Arete, implorando ajuda, o que causa espanto geral entre os chefes feácios, surpresos por um estrangeiro ter passado por tantos guardas sem ser visto. Em seguida, Odisseu isola-se e senta-se silenciosamente perto da lareira. Um sábio ancião chama a atenção do rei Alcino para o fato de que os hóspedes deviam ser tratados com máximo respeito, pois Zeus protegia os estrangeiros. O rei concorda e demonstra a típica hospitalidade grega, acolhendo o herói, oferecendo-lhe comida e bebida, mas ponderando que no dia seguinte reuniria a assembleia para decidir formalmente sobre o auxílio à viagem. Alcino confessa ter tido a suspeita de que o estrangeiro pudesse ser uma divindade disfarçada, o que certamente motivou sua generosidade inicial, embora a família real também se preocupe genuinamente com o conforto e as necessidades básicas do visitante.

Questionado pelo rei, Odisseu nega ser um deus, afirmando ser apenas um homem comum que sofreu bastante. Ele diz que contará sua história, mas prefere fazê-lo após comer, pois está faminto, embora dê uma breve pincelada sobre sua jornada. A festa termina com a chegada da noite, e a rainha Arete aproveita o momento de calmaria para perguntar o nome do forasteiro e a origem das roupas que vestia.

Odisseu ainda não revela sua verdadeira identidade, mas conta que escapou da ilha de Calipso, onde permaneceu preso por sete anos. Revela também que passou vinte dias à deriva no mar antes de chegar ali, e que as vestes lhe foram dadas por Nausícaa após o encontro na praia — explicando que preferiu vir sozinho para o palácio para evitar fofocas e proteger a reputação da princesa. Impressionado, o rei Alcino chega a oferecer a mão de sua filha em casamento, embora ressalte que jamais o pressionaria a ficar e que providenciaria navios imediatamente caso ele desejasse partir. Elogiando a excelência da marinha feácia, o rei deixa Odisseu bastante aliviado e confiante. O canto sete encerra-se com a rainha ordenando que as criadas preparem um quarto para o descanso do estrangeiro.

Esse trecho é fundamental porque, ao ver Odisseu começar a se apresentar ao rei e à rainha, o leitor vislumbra a revelação iminente de seu passado heroico. Trata-se de um momento crucial na construção do herói clássico, em que a busca pelo reconhecimento vai muito além da glória: para Odisseu, recuperar a narrativa de suas conquistas e sofrimentos é um passo vital para restaurar sua própria identidade, posta em xeque durante os longos anos entre o fim da guerra de Troia e o retorno ao lar. A passagem reforça, assim, a imensa importância que os gregos atribuíam à memória e à narrativa na formação do caráter e da honra heroica.