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A Aproximação da Morte e a Falta de Diálogo em TOLSTOI • A Morte de Ivan Ilitch

A Morte de Ivan Ilitch: Morte, Empatia e Falta de Diálogo

Refletindo sobre a obra *A Morte de Ivan Ilitch*, de Tolstói, é interessante notar como o sofrimento do personagem se divide em três vertentes: o sofrimento físico do corpo, o sofrimento psicológico e o sofrimento moral. No entanto, o que mais choca o leitor — e talvez o que mais impacte um olhar cristão — não é apenas a dor dele, mas a completa falta de empatia das pessoas ao seu redor. A esposa de Ivan Ilitch até chora e parece sofrer, mas dá a sensação de que ela só quer que tudo acabe logo. Ela reclama na frente dos outros que ele não está tomando os remédios direito, mas por que não fala isso diretamente para ele? Ivan percebe essa falsidade, assim como percebe a mesma atitude na filha, e ele próprio também acaba não confrontando ninguém.

O livro de Elizabeth Kübler-Ross trata exatamente disso: do fato de que os familiares fazem de conta que nada está acontecendo, repetindo que "vai dar certo", enquanto os médicos são frios e realistas, sem ouvir o que o paciente realmente quer ou do que ele tem medo. Os doentes querem poder conversar sobre seus medos no leito de morte, mas ninguém abre o jogo, ninguém chora com eles.

Isso me lembra uma situação que aconteceu quando o filho de uma cantora evangélica famosa morreu. Na época, eu respondia muitas mensagens numa página minha no Facebook, e o pessoal começou a me cobrar um posicionamento. Acabei publicando um vídeo muito em cima da hora, talvez devesse ter esperado um pouco mais. A cantora era do meio pentecostal e tinha certeza de que Deus faria um milagre todos os dias, mas o milagre não aconteceu e o filho dela morreu. O público começou a cobrá-la sem empatia nenhuma, questionando onde estava o milagre. Eu caí na besteira de tentar responder teologicamente, mas nem as pessoas que assistiam precisavam de teologia — precisavam de uma bronca —, muito menos os parentes. O filho da mulher tinha morrido, era um adolescente, e o pessoal tentando achar explicação. Às vezes, o próprio parente vem até você perguntando o porquê de uma tragédia, e você se sente tentado a dar uma resposta lógica, filosófica ou teológica. Mas nenhuma resposta desse tipo vai preencher o que a pessoa realmente precisa. Há uma distância entre o que a pessoa vai buscar e o que ela de fato necessita.

É nesse ponto que a leitura de Tolstói deveria chocar mais o cristão, fazendo-o pensar: "Eu preciso me preparar para quando isso acontecer com os outros, para não ser essa pessoa nojenta que fica fingindo que nada está acontecendo". Quando bater aquela fase ruim, é preciso chorar com quem quer chorar, mesmo que você nem esteja tão abalado assim. Ser franco já é ótimo.

Eu me lembro do penúltimo dia de vida do meu avô. A minha mãe e a minha tia estavam lá com ele no dia seguinte, quando ele passou pelos procedimentos e acabou falecendo, mas eu estive com ele no dia anterior. Ele ia fazer uma cirurgia e estava na cozinha. Olhou para mim e disse: "Talvez eu morra". Eu respondi: "É, talvez você morra mesmo". Senti que ele precisava daquela franqueza. Ele disse que havia um monte de coisas que queria ter feito, mas também muita coisa boa. Ficamos conversando sobre seus arrependimentos, sobre o que ele se orgulhava de ter feito. Foi uma conversa totalmente normal, de boa. Ele chegou a dizer: "Se esta foi minha última conversa, foi uma ótima conversa".

Eu não estava com medo da morte dele. Tanto meu avô quanto minha avó morreram e eu sempre fui muito tranquilo com isso, porque sempre tentei demonstrar amor e carinho por eles todos os dias. É claro que nem sempre consegui, já havíamos brigado antes, mas eu tentava. Eu abraçava minha avó diariamente e dizia que a amava de coração. Quando minha avó morreu, minha mãe me contou e eu achei triste, mas não me causou um impacto devastador, porque eu já sabia que eles eram velhos e que iam morrer. A minha preocupação enquanto eles estavam vivos era justamente a de não me arrepender de não ter abraçado o suficiente, de não ter dito que amava, de não ter me divertido ou conversado profundamente. Como eu fiz tudo isso todos os dias, não havia espaço para grandes arrependimentos.

Minha avó faleceu antes do meu avô, em agosto de 2016, quando eu já morava na França havia um ano, com 16 anos. Ela estava com um câncer maligno, intubada, entrando e saindo de coma constantemente, e ainda pegou uma infecção hospitalar. Minha mãe me ligou pelo celular, colocou o aparelho no ouvido da minha avó, e eu pude falar com ela. Contei coisas do meu dia a dia na escola, disse que fiquei sabendo que ela não estava bem, que estava triste por isso, mas que esperava que as coisas melhorassem e que eu tivesse sido um bom neto. Minha tia contou depois que, ao ouvir isso, ela deu um sorriso, mesmo com os olhos fechados, e foi a última expressão que conseguiu fazer antes de falecer, alguns dias depois. Minha mãe me deu a notícia e eu achei triste, mas não me pegou fundo no coração porque eu já sabia que ia acontecer. A franqueza, no caso dos meus dois avós, foi ótima; meu avô mesmo ficou satisfeito e conseguiu encarar a morte sem tanta angústia.

Se o efeito da leitura de *A Morte de Ivan Ilitch* for fazer as pessoas começarem a refletir sobre a vida e a valorizar o presente, ótimo. O que acho muito impressionante e um pouco triste, porém, é ver leitores dizendo que o livro mudou a vida deles a ponto de começarem a respeitar o próprio avô. Poxa, precisar ler um livro para pensar nisso é algo meio preocupante. E o pior é quando vejo gente dizendo que vai largar o trabalho que não gosta porque a vida é curta. Ivan Ilitch adorava o trabalho dele! O problema de Ivan não era a profissão em si, mas a dúvida: ele não sabia se o que fazia era realmente certo na perspectiva da morte, já que agia apenas seguindo o que os outros achavam correto.

O livro mostra que, se você morrer daqui a dois minutos, esses últimos instantes serão apenas uma angústia diante do fim, ou virão misturados com a sensação de "ainda bem que vivi assim". O final do livro é a parte mais legal, quando Ivan aceita a morte e se liberta do sofrimento moral. O sofrimento físico ainda existe, mas a dor psicológica vai embora porque os parentes finalmente demonstram afeto verdadeiro e choram por ele, em vez de fingirem que nada está acontecendo.

Mais do que aceitar a morte, o que acontece é que a morte deixa de parecer o fim para ele, pois ele enxerga a luz. Ivan havia vivido a vida inteira buscando conforto e segurança, e a morte parecia a perda total disso. Quando ele vê a luz, percebe que do lado de lá também há conforto e segurança, e que isso é eterno. Seja numa visão imanentista, em que a morte traz o fim de toda dor, seja numa visão cristã de salvação — lembrando que ele havia chamado o padre e recebido a Extrema Unção no capítulo anterior, buscando ativamente a reconexão com o divino —, a morte foi vencida. O medo desaparece porque ele percebe que o que o espera do outro lado não é o nada, mas a vida.

É como se ele estivesse trancado em uma casa cheia de bombas-relógio que não consegue desarmar, temendo que tudo vá pelos ares, e de repente, ao abrir a porta, encontra um presente e um sorriso. Até os últimos três dias, Ivan fica se debatendo feito uma criança mimada que não quer morrer — o que faz um paralelo curioso com os três dias em que Cristo esteve na sepultura antes de ressuscitar. Nos três últimos dias de vida, o velho Ivan Ilitch some e dá lugar a alguém desesperado. Mas, após esse período, ele percebe que do outro lado há vida.

Embora a família dele não compreenda perfeitamente o que ele entendeu, ele fica em paz com isso, porque certas coisas não podem ser meramente ensinadas ou descritas; a pessoa precisa vivenciar. Ele consegue se livrar da sombra da morte, enquanto a família continua na mesma vibração de antes, o que para ele já não importa mais.

A mensagem de Tolstói para quem é ateu e acha que o livro mudou sua vida é simples: a morte vai chegar, ela não tem justificativa e vai matar de qualquer maneira. Portanto, já que você vai morrer, preocupe-se com o que vem depois. Agir no hoje em função do que vem depois é, no fim das contas, a busca por essa reconexão com o eterno e com o divino.