No conto “Celephaïs”, H.P. Lovecraft explora os limites entre a realidade cinzenta e a vastidão onírica, criando uma de suas narrativas mais melancólicas e fascinantes sobre o mundo dos sonhos.
E aê, pessoal do Universo Antares, sejam bem-vindos a mais um vídeo aqui no canal, bem-vindos de volta à nossa playlist onde eu analiso todos os contos de H.P. Lovecraft. No vídeo de hoje, nós vamos analisar um conto muito interessante com o título de "Celephaïs". Eu acredito que é assim que se pronuncia: Celephaïs. E esse conto faz parte do ciclo de sonhos que H.P. Lovecraft criara enquanto escrevia os seus mundos fictícios. Basicamente, esse é um conto que não é de terror nem de horror — ele tem alguns elementos aqui e ali, mas o desfecho dele, principalmente, eu acho muito interessante.
Ele foi escrito em novembro de 1920 e publicado pela primeira vez em maio de 1922 na revista *The Rainbow*. Eu li ele nesta edição aqui da *D Classics*, mas vocês podem achar facilmente esse conto. Se eu não me engano, um desses volumes da editora Pandorga — acho que é o segundo volume — também traz o conto "Celephaïs" traduzido, então vocês podem encontrá-lo por lá.
Mas qual é a narrativa do conto? Bom, nós acompanhamos um personagem solitário, cujo nome verdadeiro não nos é revelado no mundo real, mas que conhecemos como Kuranes no mundo dos sonhos. Sabemos que ele é um cidadão londrino e que procura dormir sempre que pode, porque acredita que nos sonhos é onde ele encontra a sua escapatória dos problemas da vida.
Num desses sonhos, ele acaba tendo um vislumbre de uma cidade chamada Celephaïs. É uma cidade completamente fantástica que fica em cima de um pico cintilante; os picos são cobertos por uma camada de neve, mas a própria cidade tem um esplendor único. A narrativa o acompanha atravessando diversas outras cidades no caminho, sendo uma delas Ooth-N<bos>3/4-gai (ou Of Nagai), e é aqui que percebemos esse multiverso que Lovecraft criou. Quando ele entra no mundo dos sonhos, é quase como se o tempo não existisse. Ele recorrentemente fica meses ou até anos sem poder visitar a cidade, mas, quando volta, é como se estivesse no mesmo instante.
Ele acaba encontrando um capitão que veleja com ele até a cidade de Celephaïs. Porém, antes que consiga de fato chegar lá, ele acorda. Descobrimos então que, por meio dos residentes desse mundo de sonhos, ele se lembra de que é descendente de uma antiga família real. A partir disso, ele passa a adquirir drogas — haxixe, mais especificamente — para conseguir se manter nesse estado de letargia.
Para encontrar a cidade, ele navega por outros lugares cujas descrições são fascinantes. Há uma parte em que ele desce por uma espiral gigantesca — o que me lembrou um pouco *Kingdom Hearts*, para quem já jogou —, e, olhando por uma janela, ele consegue vislumbrar Celephaïs. Finalmente, ele encontra uma maneira de entrar na cidade, onde é recebido por uma hoste de cavaleiros que o aclamam como seu criador e líder digno.
No entanto, antes de entrar nesse último sonho, ele já não tem mais dinheiro para comprar drogas e fica perambulando pelas ruas de Londres. De repente, ele adormece e entra no sonho, e nos perguntamos: "Ué, como ele entrou dessa vez?". É aí que descobrimos a verdade: enquanto ele é coroado e venerado na cidade dos sonhos, na vida real o seu corpo é encontrado sem vida, jogado contra as pedras em um canal na propriedade de um ricaço em Innsmouth — cidade que vocês já devem conhecer pelo conto *A Sombra sobre Innsmouth*, que ainda vamos analisar em breve. O conto termina dessa maneira trágica.
Uma curiosidade interessante deste conto é que, em um dos momentos em que o protagonista atravessa as nuvens multicoloridas — habitadas por outros sonhadores e criaturas, num lugar onde o tempo e o espaço não existem —, ele acaba encontrando a figura de um monarca completamente mascarado, vestido com uma seda amarela. Este é um dos grandes mistérios criados por Lovecraft, associado ao Rei de Amarelo, sendo provavelmente um dos poucos humanos que conseguiu resistir aos terrores cósmicos e ascender ao nível dos deuses. É uma das raras entidades da mitologia lovecraftiana que não é inerentemente maligna. Embora seja apenas uma menção rápida, é um detalhe fascinante para quem conhece um pouco mais a fundo a obra do autor e suas conexões.
Espero que vocês tenham gostado desse vídeo de análise e eu vejo vocês no próximo. Até mais!