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Kafka não é sobre um inseto! [REACT]

Kafka não é sobre um inseto! [REACT]

Tá, você tem que ter uma primeira frase marcante e tal. Isso é quase que uma regra assim de de o pessoal ensina em em cursos de escrita criativa, né, em livros também. Mas, apesar de você ter uma frase marcante para prender o leitor e uma primeira página inteira marcante, alguma coisa vai acontecer lá no antes de virar a página, tem que acontecer alguma coisa. É, isso é mais pros livros de agora, né? Não é bem isso que acontece nos livros do Kafka. Ele realmente entrega o a coisa mais doida do livro já no começo, assim. E os leitores estão acostumados com qualquer tipo de leitura comum de ficção, não estão acostumados com isso. É se esperar que a pessoa quando pegue uma primeira frase tão doida assim, tão esquisita assim, fique fique surpresa um pouquinho, mesmo que o livro vai ser uma bosta depois. Mas é muito curioso você começar já o livro, falando: "Ó, o cara virou um insetão." Então é estranho que a Débora não ache isso estranho também. Ela achou a coisa mais normal do mundo o livro começar assim, ó, o cara virou um inseto. Ela achou normal isso. Não sei se você quer comentar alguma coisa, mas isso é muito esquisito da parte dela. Parece que ela não lê nada, lê só edital de política ou sei lá o quê. E aí quando lê ficção não entende o que está acontecendo, não entende os padrões, né? O Kafka ele ele se acostumou a quebrar um monte de coisa que a gente está acostumado e é por isso que as pessoas também tomam um susto, né? Muito natural isso, mesmo que você não goste depois do livro. No Processo, a primeira frase é a seguinte: "Alguém certamente havia caluniado Joseph K., pois, uma manhã, ele foi detido sem ter feito mal algum." O cara foi preso sem saber por quê, estava sendo detido. O cara, ele começa a entrar no diálogo dentro da casa dele com um monte de gente que vem falar com ele assim, tipo, tratando ele como se ele fosse alguém já, um super suspeito assim mesmo. E fala assim: "Você vai ter que ver isso com o juiz, né?" E aí para ver o juiz, aí vocês vão ter que ler a história, né? Mas enfim. Outra coisa, o Lucas falou aí, né, que a história, né, na primeira frase já começa a ser fantástica. Sim. Débora, isso é justamente o registro do fantástico, pô. Uma pessoa que vira um inseto gigante é outra coisa que não fantástico. Tudo bem que ela pode ter dito fantástico, tipo de ah, muito incrível, muito diferente. Meu irmão, olha, ela gostou muito do Moby Dick. Eu gosto também. Primeira frase do A primeira frase do Moby Dick. "Chame-me de Ismael." Beleza. É uma referência. Ismael, Bíblia, show. Tem um paralelo entre o capitão Ahab e o Ismael. Legal. Mas não é um registro do fantástico. A gente começa a entrar no fantasioso que é parecido, mas depois da obra ali. E não é a parte principal, mas enfim. Você tem outros outros incipits que são tão marcantes quanto, mas assim, nenhum deles denota fantástico, né? Vai ter vários que vão, obviamente, mas muitos deles não denotam. O Kafka já começa na parada mesmo, entendeu? Ele já não perde tempo, né? E assim, eu acho estranho, velho. Pensem o seguinte, tá? Vocês devem morar com algum parente de vocês, namorado, namorada, esposo, esposa, filho, filha, pai, mãe, enfim, não sei. Imagina que amanhã tu bate na porta dessa pessoa para ver como é que ela está, não sei, ou algo assim, tu abre e tem um inseto gigante. Para a Débora isso não é nada. Para mim isso é alguma coisa. Você abre a porta do quarto dos meus pais. Minha mãe virou um inseto. Fala: "Caraca, maluco, espera aí, velho. Saca?" Mas pra Débora não. Para ela isso é coisa corriqueira, pô. Era um inseto ou não, sabe? Não sei. Ela abre a gaveta do quarto dela e sai um palhaço soltando fogo da boca. É isso aí. A segunda-feira. Você consegue mostrar, ô Panda? Você consegue mostrar a thumb desse vídeo aí dela? "Kafka leu 2." Aí tem um palhaço, tem um emoji do palhaço. É só isso. A thumb do vídeo dela não tem nada mais não. Por quê? Ué, onde é que ela falava aquele negócio? Virou um Ele virou um inseto. E daí? Não, não, tá no título. No título, tá? Ele virou um inseto. E daí?, entendeu? Aí um tracinho, A Metamorfose, entre parênteses, Kafka, entendeu? É. Tá. Ele virou inseto. E daí, e daí, né, velho? Caraca, né? E daí, irmão? Ai, caraca. E daí, pô? O Lisboa falando ali: "Talvez tenha lido com uma pessoa que já conhecia o básico do livro, se levar em conta a novidade que o livro traz". Então, cara, pode ser, não pode ser? Porque é uma coisa bem estúpida, né? Seria uma coisa bem estúpida de fazer. Sim. Não, tudo bem. Você pode, de fato, eu já sabia que o Gregor Samsa virava um inseto muito antes de eu pegar esse livro para ler. Por isso que eu acredito que ela está falando não da primeira experiência dela com o livro, mas a primeira vez que ela ouviu essa frase. Ela ouviu essa frase e isso não despertou nada nela, nada. Ela ouviu a frase e "hum, normal". "Oxe, normal." Ah, normal, pô. O Lisboa, ele disse assim, ó: "Outra questão é que, mesmo sabendo disso, você no mínimo vai ler o livro procurando a resposta para a metamorfose." Ele perguntou se ela fala isso no vídeo. Eu não sei se isso que você vai descobrir. Isso é o que você vai descobrir, amigo. Você vai descobrir. A gente vai ver esse vídeo mágico aqui dela, porque magia é o vídeo dela, pô. Para mim o vídeo dela é mágico. Eu fui vendo assim, eu fui olhando assim, eu falei: "Cara, esse não é o livro que eu lembrava." Aí eu reli o livro, aí eu falei: "Não, devo ser doido." Aí eu conversei com o Lucas, aí a gente discordou de muita coisa, mas eu entendi que ele entendeu as mesmas cenas que eu, saca? Ele entendeu o que tinha acontecido. Ele olhou assim, eu falei: "Tá, ele leu o mesmo livro que eu, saca?" Aí eu fui reler a parada e aí eu revi o vídeo dela e eu falei: "Ah, pô, ela estava sob algum encantamento, alguma fada, alguma fada chegou ali, entendeu? Saiu do país das maravilhas, estava no livro, estava nela, pô. Tava nela, porra." Entendeu? A fada do Chesterton chegou assim com a varinha mágica e puf, jogou nela assim. Que maravilha! Eu adoro Chesterton. Eu realmente gosto do Chesterton, tá, gente? Mas eu acho que ele tem poderes muito mais fortes. Vamos do que O meu comentário que eu ia fazer é o seguinte, ó: talvez pode ser que a maioria fique presa no livro tentando descobrir realmente por que isso aconteceu, né? Por que aconteceu essa metamorfose? Vou ser sincero, para mim não foi isso que me prendeu no livro, não. Ninguém. Me deu uma sensação de que ele não ia responder isso mesmo logo no começo, então abandonei. Porque o protagonista, ele não está também muito interessado nisso. Ninguém está, velho. Não é só ele, nem o narrador, nem o protagonista, nem a família, nem o pessoal que está correndo, nem nem ninguém. A irmão, você tem noção, a frase "por que isso aconteceu" não aparece no livro. Não existe. Não existe nem a sensação dela no livro. Não tem. O que tem é claro, aquilo de fato, literalmente aconteceu, né? Mas enfim, vamos voltar aqui pra Débora, né? Que eu acho que a gente já falou bastante. Vamos voltar aqui e deixar ela, que a gente precisa de munição, né? A gente precisa de alvo. Munições a gente tem, a gente precisa de alvo, né? Vamos deixar ela, vamos deixar ela pintar de vermelho aqui pra gente.