As Ninfas de Emília – Monteiro Lobato

Quando, na sua viagem à Grécia, Emília teve notícia da existência de ninfas, dríades e hamadríades nos bosques, sua primeira ideia foi: “E se eu fizesse no sítio uma criação de ninfas? Temos lá borboletas azuis, temos uma quantidade de passarinhos e aves que piam, como o nambu e o uru — mas zero ninfas. Vou ver se a deusa Flora me cede algumas.”

Isso foi daquela vez em que Pedrinho, Emília e o Visconde desceram juntos à Grécia Antiga para acompanhar Hércules em seus Doze Trabalhos. Entre certo trabalho e outro, Emília e o Visconde aproveitaram o descanso para uma chegadinha ao reino da deusa Flora. Como havia ninfas por lá! Volta e meia perpassava uma, leve como bolha de sabão com forma humana — forma esvoaçante. “As ninfas não andam como nós” — observou Emília. “Elas deslizam. Parece que não têm peso nenhum. E que diferença há entre dríade e hamadríade?”

O Visconde explicou que dríade era a ninfa de uma certa árvore, que vivia sempre ali em redor dela; e hamadríade era também uma ninfa dessa árvore, mas que vivia dentro do tronco.

— De castigo?

— Não. Como uma alma. Nossa alma não vive dentro do corpo?

Emília achou que a Natureza andava errada naquilo de prender ninfas dentro dos troncos, “porque há de ser uma tor-tura horrenda isso de viver entalado, sem o menor movi-mentozinho — nem piscar o olho. Vou pedir a Hércules para fender todas essas árvores e soltar as pobres hamadríades…”

— Acha que estas ninfas daqui poderão acostumar-se no sítio de Dona Benta?

— Tudo é possível. Só experimentando.

— Pois vou experimentar — resolveu Emília. Vou ver se Flora me cede um lote aí de meia dúzia. Ela vai receber-nos em seu palácio hoje à tarde. Assim que houver um jeitinho, eu proponho o negócio.

— Que negócio?

— A troca de seis ninfas por qualquer coisa.

— Que coisa? — quis saber o Visconde, já meio desconfiado que a “qualquer coisa” fosse ele, como acontecera lá no Oráculo de Delfos (O Minotauro).

— Não sei ainda. Na hora verei.

À tarde houve a recepção e Emília soube responder muito bem às perguntas da deusa.

— Quem é a rainha lá do reino de vocês? quis saber a deusa e Emília, corri todo o serelenismo: “Sua Majestade Dona Benta I”, e foi contando mil coisas do “Reino” do Picapau Amarelo, metade verdade, metade invenção.

— E quem é este senhor tão sério que a acompanha? — indagou a deusa, dando um piparote na cartola do Visconde.

— É um velho carregador da minha canastrinha. E um grande sábio também. Não há o que ele não saiba — até logaritmos.

A deusa Flora ignorava o que fossem logaritmos e quis saber, mas Emília (que também não sabia) embrulhou-a, fazendo uma tal mistura com mangaritos, que deixou a deusa atrapalhada. Em seguida propôs o negócio da compra de seis ninfas.

Flora surpreendeu-se. Pela primeira vez propunham-lhe um negócio daquela ordem. Compra de seis ninfas! Era boa…

— E com que moeda me paga esse lote de ninfas? — perguntou — e com muita surpresa viu Emília piscar e com um movimento de lábios indicar o Visconde. Seria possível que ela usasse o seu carregador de canastra como moeda?

Só naquele momento Flora prestou atenção no Visconde. Botou-o no colo, examinou-o. Fê-lo falar e por fim disse: “É o mais maravilhoso boneco de engonço que ainda vi. Quem o fez?”

— Não é boneco, deusa! — explicou Emília. É personagem.

Flora não apanhou lá muito bem a diferença e estiveram uns minutos debatendo o assunto. Por fim disse:

— Seja boneco ou personagem, acho-o muito engraçadinho. Faço o negócio. Troco-o por seis ninfas. Só não sei como fazer chegar essas ninfas ao tal Picapau…

— Isso não me preocupa — respondeu Emília. Tenho uma boa dose do Pim aqui no bolso — e sacando um canudinho de taquara, tapado com um batoque de pau — obra do canivete de Pedrinho, explicou as maravilhas do Pim, deixando a deusa de boca aberta. Apesar de deusa, Flora sentiu inveja daquela criaturinha humana, possuidora de semelhante talismã. Seria humana ou alguma deusa também? Deusa de algum outro mundo? E começou a olhar para Emília com respeito e certo medinho.

Mas iria Emília realmente trocar as ninfas pelo Visconde, um velho amigo seu? Não! Jamais semelhante coisa lhe passara pela cabeça. A ideia de Emília era fazer o negócio e entregar um Visconde “imitação”, feito por tia Nastácia — ou um fac-símile. E combinou com a deusa: “Agora nós vamos com o lote de ninfas, depois o Visconde vem sozinho.”

— Por que já não o deixa aqui? — perguntou a deusa.

— Porque ele tem de arrumar os seus logaritmos e dizer adeus aos parentes.

— Que parentes tem?

— As palhas e os grãos de milho que há lá no reino. Tem também de despedir-se dos fubás, das maisenas, das canjicas, das pamonhas, dos curaus…

A deusa Flora admirou-se duma figurinha como o Visconde ter uma parentela tão grande…

Tudo combinado, operou-se a partida. Flora convocou todas as ninfas de seu reino e passou-as em revista, levando Emília pela mão para que escolhesse as seis. O trato fora de seis ninfas “escolhidas.” A fim de que as ninfas escolhidas não desconfiassem, quando ela gostava de uma dizia para a deusa na língua do P:

— Espestapa! (Esta)

A deusa entendia mas a ninfa não — e saindo da fila vinha colocar-se ao lado do trono. Quando se completou o grupo das seis, Emília ofereceu a cada uma delas uma flor polvilhada com o pó de pirlimpimpim, dizendo:

— Se forem capazes, cheirem essas flores, todas ao mesmo tempo mas sem espirrar — e as bobinhas, pensando que era um simples brinquedo (o brinquedo de cheirar e não espirrar), cheiraram as flores, enquanto Emília dizia: Um, dois e TRÊS!…

Finn!… Seis fiuns e lá se sumiram as ninfas, para irem reaparecer no pomar do Picapau Amarelo, tontinhas, coitadas, e muito surpresas de se verem no meio de plantas desconhecidas — mangueiras, jabuticabeiras, pitangueiras, por entre as quais passeava — rom, rom, rom — um leitãozinho gordo, de fitinha na caula, o Senhor Marquês de Rabicó. E viram também um animal monstruoso, que elas desconheciam, conversando com um burro: Quindim de prosa com o Conselheiro. Assustaram-se as pobrezinhas, e quiseram voltar para o Reino de Flora — mas como?

Enquanto lá no pomar as seis ninfas se entreolhavam, sem saberem o que fazer, no Reino de Flora, Emília cochichava ao ouvido da deusa:

— Não o deixo aqui porque o Visconde agora tem de me acompanhar até lá. A senhora bem sabe que uma menina como eu não pode fazer sozinha uma viagem tão longa.

— Que perigos há?

— É boa! Os perigos do ar, deusa! Corujas, morcegos…

— Mas jura que me devolve o Visconde? — insistiu Flora, sempre com medo de que Emília a lograsse.

— Juro pelo chifre do Quindim que amanhã sem falta a excelsa deusa Flora receberá aqui o Senhor Visconde de Sa bugosa, enviado lá do Reino de D. Benta I pela Marquesa de Rabicó.

— Quem é essa marquesa?

— Esta sua criada!

— E Sabugosa é o nome do Visconde de cartola?

Emília respondeu que sim. Em seguida vieram os adeuses. Houve abraços e beijos, terminados os quais Emília deu uma pitada de pó ao Visconde e reservou outra para si. Cheiraram-nas ao mesmo tempo e fiun!… Sumiram-se os dois.

— Assim que acordou lá no sítio, Emília correu em procura de tia Nastácia. Encontrou-a fervendo pêssego salta-caroço para fazer uma pessegada. Depressa, Nastácia! Largue tudo e me arranje um Visconde fac-símile. Já, já…

— Que fogo é esse, diabinha? Parece que comeu brasa…

— É que fiz um negócio; comprei uma coisa e tenho que pagar com um visconde igualzinho ao nosso, mas fac-símile.

— Que história é essa?

— Fac-símile quer dizer “de mentira.” A deusa está esperando.

— Que deusa?

— Flora.

A única Flora que Nastácia conhecia era uma neta da Nhana Baracho, meninota levada, que certa vez lhe havia jogado uma laranja podre. Julgou que se tratasse dela e ficou resmungando:

— Deusa, aquela sapeca? Era o que faltava! A pestinha me fez aquilo, mas quem faz paga. Neste mundo, Deus que me perdoe, a gente não pode fazer isto de mal pros outros, porque, mais dia “menas” dia, paga mesmo. Me jogar uma laranja podre em cima! eu, uma velha!… Ela que espere que qualquer dia… Que é isso? Já aqui outra vez?

Era Emília que voltava do paiol com uma braçada de sabugo para que tia Nastácia escolhesse um.

A negra não teve remédio. Escolheu um e fez um Visconde falso bastante igual ao verdadeiro. A cartolinha saiu muito mal feita, mas servia. Restava apenas escrever-lhe nas costas a palavra FAC-SÍMILE.

Por que isso? Porque Dona Benta tinha explicado certo dia que era um ato muito feio enganar os outros, impingindo uma coisa falsa por verdadeira. E que para evitar isso havia a palavra FAC-SÍMILE, destinada a ser impressa em tudo quanto fosse cópia de um original. Se eu duplico um objeto e marco a cópia com essa palavra, posso vendê-la sem nenhuma dor de consciência, porque não estarei enganando ninguém. Se Emília entregasse à deusa Flora uma cópia do Visconde marcada com a palavra FAC-SÍMILE, ela não estaria enganando a deusa e Dona Benta nada poderia dizer.

E Emília escreveu em letra de forma nas costas do Visconde falso: FAC-SÍMILE, mas pintou uma coroinha em cima. Aí é que revelou a sua malícia. A coroinha era de Visconde, de modo que a palavra “Fac-símile” deixou de significar “Cópia” e passou a significar um nome próprio: o Visconde de Fac-Símile… Por ter sido boneca, Emília considerava-se no direito de enganar aos outros, coisa que Pedrinho e Narizinho jamais fizeram.

Pronto o novo Visconde, tinha de levá-lo ao reino da deusa Flora e como era?

O pó de pirlimpimpim resolveu o problema — e na manhã do dia seguinte Emília cheirou uma pitada e deu outra ao falso Visconde, e os dois foram acordar nos domínios da deusa.

Que maravilha! O reino estava acordando. As flores ainda orvalhadas entre-abriam suas pétalas para o sol. As abelhas começavam a sair das colmeias. Os passarinhos experimentavam as asas. As teias de aranha, com os fios recamado de gotinhas de orvalho, tornavam-se invisíveis com a evaporação. O ar estava impregnado de perfumes fresquinhos.

Emília despertou ao pé do trono da deusa, com o novo Visconde no braço. Flora desceu para recebê-los.

— Estou reconhecendo a figurinha que aqui esteve ontem e combinou comigo um negócio. Julguei que houvesse esquecido…

— Não me esqueci, não! — respondeu Emília, já perfeitamente boa da tontura do Pim. Combinamos a troca de seis ninfas pelo Visconde de Sabugosa, e aqui o trago, mas com o nome mudado. Chama-se agora Visconde Fac-Símile.

— Por que mudou? — quis saber a deusa.

— Porque descobriu que seus verdadeiros antepassados são os Condes de Fac-Símile e não os Marqueses de Sabugosa, como ele pensava — inventou Emília com o maior desplante, esperando que a pobre deusa não desconfiasse.

— Mas dessa vez a esperteza de Emília não deu muito certo. Depois que ela se retirou, a deusa, desconfiada de qualquer maroteira, tratou de informar-se — além de que aquele Visconde não falava, não dava nenhum sinal de vida. E convencendo-se de que fora lograda, ficou furiosíssima. Tão furiosa que chamou o vento Éolo e disse:

— Vá lá no tal Picapau Amarelo e varra-me para cá as seis ninfas que aquela diabinha me surrupiou.

E Éolo foi e varreu o pomar como um tufão. Caiu manga verde como nunca, e todos os galhos que tinham broca vieram ao chão, e folhas só ficaram as novas e perfeitas. Mas Éolo não conseguiu arrancar de lá nem uma das seis ninfas.

— Por quê?

— Ah, porque Emília já estava lá e soube acudir a tempo. Com medo de que Flora descobrisse a sua maroteira e procurasse vingar-se, ela havia dito às ninfas:

— Olhem aqui: vocês são novas neste reino do Picapau e correm muitos perigos. O melhor é ficarem uns tempos como hamadríades, dentro do tronco das árvores. Quando já não houver perigo de coisa nenhuma, eu as solto.

As seis ninfas, que estavam com frio (porque era mês de junho), aceitaram a ideia e permitiram que Emília, depois de com o machado faz-de-conta abrir as seis maiores árvores do pomar, as encerrasse lá dentro, promovidas a hamadríades. De modo que quando Éolo chegou e sacudiu o pomar com a força do tufão, varreu quanta coisa frágil havia — mas não tocou, nas ninfas… não pôde levar para a deusa Flora ninfa nenhuma, porque já não havia ninfa nenhuma no pomar do Picapau Amarelo. Só havia hamadríades, muito bem escondidas dentro do tronco das maiores árvores e à prova de quanto vento há no mundo…

Este caso das ninfas foi uma das mais belas vitórias de Emília.