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ESTILO – O Impossível Tratado de Estilo ••• Panda

O que é estilo na escrita? Reflexões sobre o tema

Neste trecho de uma transmissão ao vivo, o criador do canal Panda reflete sobre a própria noção de "estilo" na escrita, analisando obras históricas e teóricas que tentaram definir o conceito ao longo dos séculos. Ele questiona se o estilo é de fato algo real e mensurável ou apenas uma impressão subjetiva e vaga que usamos sem realmente compreender.

Olá, eu sou o Panda. Seja bem-vindo a este vídeo. Você deve ter me visto na última live sobre a Poética, mas enfim, não estou aqui para falar disso, não estou aqui para falar de Aristóteles, e sim para conversar com vocês sobre a noção de estilo, sobre o que é o estilo. Neste vídeo, eu não tenho a pretensão de ensinar vocês a como escrever bem ou a como escrever com estilo, mas sim de explorar essa questão.

Tem um texto — três, na verdade —, mas o primeiro deles, com o qual entrei em contato já faz um tempo, é a *Retórica*, não do Aristóteles, mas do Bernard. Esse é um autor francês do finalzinho do século XVII, e ele escreveu esse livro no qual li alguns trechos. Nesse livro, ele fala uma coisa interessante: ele diz que o estilo não é algo meramente ornamental, mas que na verdade é algo essencial para uma obra, seja ela qual for. Então, ele diz, por exemplo, que se você vai escrever ficção — obras para divertir as pessoas —, escrever bem, escrever de maneira agradável, é ótimo, porque você vai conseguir alcançar o fim que quer com a sua obra. Se você está escrevendo filosofia ou ciência, falando sobre o real, sobre aquilo que você acredita ser o real, aquilo que as evidências ou a sua experiência sensível ou interna dizem que é real, por que não escrever com estilo? Por que não escrever de uma maneira que seja atraente para as pessoas, para que você consiga comunicar isso para o maior número de gente possível? Afinal, se você quer compartilhar a verdade, por que não fazê-lo de maneira bonita? A beleza atrai as pessoas.

Ele também inclui a religião e diz que ela é dependente do estilo, porque para que consiga comunicar suas pretensões de verdade com os fiéis, suas revelações divinas, escrever de maneira bonita ajuda. Não é à toa que na Bíblia existem livros inteiros de poesia.

Só que aí, com essa obra do Bernard, tem um pequeno problema: o título dela é *Retórica*. Então, ele acaba reduzindo o escrever bem a escrever retoricamente, a escrever de maneira que convença, saca? E nem sempre isso funciona. Por vezes, a gente vai ler um livro e sente que o autor está tentando fazer de tudo para convencer a gente, e bem, ele acaba caindo em falácias lógicas que podemos detectar. Mesmo que você não saiba o nome da falácia, você pode olhar e entender: "Não, isso aqui não faz sentido com o que ele disse", podendo acabar sendo incoerente entre certos pontos, aqui e ali, em certos capítulos ou mesmo de um parágrafo para o outro.

Também sentimos que há uma pretensão por trás. Não sei vocês, mas eu já li obras de ficção, principalmente, em que eu não estava buscando manifesto político e encontrei. Há obras em que, claro, fala-se muito de política, e a política é algo essencial porque está ali, mas são feitas de boa maneira, de maneira interessante. Elas não tentam fazer com que, assim que você feche o livro, você já pense em escrever para o movimento sindical ou algo do tipo, e ir para a próxima manifestação. Não, elas põem o princípio do prazer, o princípio da ficção mesma, da fuga que a ficção promove, acima da sua retórica. A mesma coisa vale para insights filosóficos e escritos científicos, que por vezes tentam te convencer ao máximo de que aquilo ali é a verdade absoluta, mas acabam falhando justamente porque tentam demais. Então, esse é um problema da retórica do Bernard.

No entanto, existe um outro texto com o qual entrei em contato já faz um tempo também, que é o *Princípio de Estilo*, lançado no século XVIII, em 1779, dez anos antes da Revolução Francesa — que, se você não sabe, ocorreu em 1789, quando começou o Reino do Terror e começaram a cortar as cabeças de muita gente, principalmente inocentes. Mas enfim, não estou aqui para falar de Revolução Francesa, e sim para falar de estilo.

Nesse texto, o autor aborda o seguinte: quando pedimos para alguém… Ele dá o exemplo de um doutor da Sorbonne. Se você não sabe, até hoje — e já faz muito tempo desde a Idade Média, mil anos mais ou menos —, a Sorbonne é a faculdade francesa pública mais famosa que tem na França. Pode não ser a melhor, mas se eu não me engano é muito boa. Para entrar na Sorbonne, você tem que passar por concurso ou pagar; já na Sorbonne antiga, se você tinha o *bac*, você entrava. Eu, por exemplo, poderia pedir para entrar na Sorbonne, mas não peço porque o marido fica em Paris, é caro… quer dizer, o apartamento é apertado. Mas enfim, não estou aqui falando da Sorbonne, estou aqui falando da França, da literatura latina. E os romanos da Roma antiga, com Cícero sendo um deles, são um dos grandes autores da literatura latina. O autor vai criticar essa noção de que basta você ler os clássicos, basta você ler os grandes autores, as grandes obras, para aprender a escrever bem.

Ele diz uma coisa que é óbvia para muitos de nós que já lemos vários clássicos: não é somente lendo um ou mais clássicos que você se torna um grande escritor. Você pode ser um grande leitor e um péssimo escritor. É claro que grandes escritores sempre são grandes leitores; é raro, talvez impossível, encontrar alguém que não tenha lido bastante na vida antes de escrever uma verdadeira obra de arte. É bem raro isso acontecer. Eu confesso que nunca ouvi falar sobre alguém que fosse o caso, nunca conheci alguém que fosse o caso. Se você já ouviu falar de alguém, por favor, me conte, deixe nos comentários para a gente ver e procurar sobre essa pessoa.

Mas então, ele vai falar: "Pô, não tem como aprender isso tudo só lendo os clássicos". E o problema também é que os tratados que existiam na época dele até então eram tratados de retórica ou de gramática: escrever gramaticalmente correto, escrever de maneira retórica, tratados como os do Lami, não só isso, mas outros também. Só que ele fala: "Pô, isso também não é suficiente, saca? Não basta você só tentar convencer a pessoa ou escrever gramaticamente corretamente". Sabe, não é só ortografia, não errar o sintagma de uma frase. Não adianta só isso. Escrever bem está para além disso; escrever bem está nisso, mas também está para além disso.

Então ele diz que falta no tempo dele — já faltava — um tratado elementar de estilo, um tratado de estilo que pudesse se sustentar pelos próprios pés, algo que fosse autônomo, algo que, claro, fosse compatível e tivesse base na gramática e na retórica, mas que não se resumisse a isso. Algo como uma poética, a *Poética* de Aristóteles, só que para outras coisas que não a tragédia, a epopeia, a ode, o ditirambo e alguns outros gêneros literários que são mais bem definidos. Ele está falando de estilo para além da ficção. Ele traz com ele também a ideia do Lami, embora ele não nomeie o Lami — e eu nem sei se ele o conhece —, mas acaba que ele está dizendo o seguinte: "Olha, estilo, estilo mesmo, não é estilo só para a ficção, não é estilo só para a teologia, não é estilo só para a filosofia, para a ciência, para isso tudo". Estilo, no geral, é escrever bonito de qualquer maneira que seja, seja escrevendo uma carta para alguém, sabendo escrevê-la bem. Como é que eu escrevo bem, ainda tendo que mandar uma carta para alguém, para alguém que me enche o saco ou algo do tipo?

E isso nos traz para o terceiro texto com o qual a gente entra em contato, que é um texto mais recente, bem mais recente, de 1994, do Robert Martin. Ele é um professor — não lembro qual universidade ele leciona, não lembro nem se ele está vivo, mas enfim, é final do século XX, talvez ainda esteja —, e o livro dele se chama *O que é o Estilo?*. Eu acho que eu esqueci de comentar, o livro anterior se chama *Princípios do Estilo*, mas este do Robert Martin é *O que é o Estilo?*, que é uma pergunta, o título do livro.

Nesse *O que é o Estilo?*, ele vai dizer o seguinte: "Olha, essa noção de estilo ela é pré-teórica, ela é uma intuição. A gente intui que existe algo chamado estilo, nos parece haver algo chamado estilo de fato, mas quando vamos teorizar sobre isso, quando tentamos entender isso, nós tratamos como se já houvesse, como se fosse real mesmo, só porque a gente sente que é real, saca?". E ele diz que essa noção, que é vaga, que parece meio vazia, muito relativa, muito subjetiva — embora comum, mas ainda assim subjetiva —, ela é útil heuristicamente. Ela é útil se você tentar usá-la, se você tentar expressar de uma maneira que seja incerta, mas é só para ajudar. Ela é um bom começo, mas um péssimo fim.

E a conclusão dele é de que não é possível levar a sério, não é bom levar a sério, não se deve levar a sério a noção de estilo antes que a gente descubra se existe sequer algo real. Porque a gente está há pelo menos cinco séculos falando de estilo, falando que "esse autor tem estilo", que "ele não tem", que "blá-blá-blá", enfim, que a boa escrita é a escrita com estilo, que um bom texto, uma obra de arte, é aquilo que é escrito com estilo, mas a gente não sabe o que é. Ninguém sabe definir isso, e as definições são muito subjetivas.

Você pode ler um livro, por exemplo, como o do Lami, e falar para mim: "Isso aqui é estilo". Mas eu posso ler isso e falar: "Pô, não me parece, sabe?". E a dificuldade que a gente tem nisso, a dificuldade que se tem nesse tipo de ciência — nas ciências humanas, na ciência das letras —, é que a gente dificilmente tem a possibilidade de demonstrar algo. Na ciência, você faz um experimento; na matemática, você faz equações, cálculos para os reais e mais outras demonstrações que você pode fazer; na lógica, você faz demonstrações lógicas, faz a formalização ali e prova ou desprova alguma coisa; na história, você confere documentos. Na literatura, a coisa é mais complicada, porque ainda que você possa recorrer a documentos, os documentos literários são muito mais passíveis a diversas interpretações do que quaisquer outros, justamente porque são da escrita poética, e fica muito mais complicado.

E o estilo, bem, a gente não tem um documento para isso, a gente não tem. A gente fala disso, a gente diz: "Olha, esse autor tem estilo, ele escreve com estilo, você tem que escrever com estilo", mas a gente não sabe muito bem o que está falando. A gente sente que sabe o que está falando, mas não sabe exatamente o que que é. E aí ele faz esse chamado socrático para a gente, ele diz: "Olha, primeiro a gente descobre o que que é, depois a gente vai atrás". E antes mesmo de descobrir o que que é — até errei, eu disse que primeiro a gente faz isso, mas não —, primeiro a gente descobre se é isso mesmo, se o estilo existe. O estilo existe? Tem algo que a gente chama de estilo que corresponde ao real? Sim, tem mesmo? Beleza, então vamos descobrir o que que é isso. Descobrindo o que que é isso, aí a gente pode falar sobre o que é estilo ou não. Porque senão é uma grande conversa, um grande falatório, falar ao vento, como um monte de gente, como se fosse numa sala, num bar, falando uns para os outros, só que ao mesmo tempo falando para nenhum deles, falando nada com nada.

Como se eu dissesse para você algo como: "Deixa eu ver, como ontem à noite o anjo elefante que dorme na metade ambulante do vidro da minha janela ressuscitou a alifatihan numa catedral anglicana do século XIV". Você entendeu alguma coisa do que eu disse? Não, eu também não, saca? Mas isso poderia fazer sentido para mim, talvez para outras pessoas, só que a gente sequer consegue falar sobre, a gente sequer consegue entender isso. Eu disse alguma coisa que é real ou não? É complicado, pareceu muito vago, pareceu inteiramente vago o que eu disse, assim, só dizendo que eu também acho que o que eu disse foi totalmente vago, mas só vou explicar isso, entendeu?

Ele está falando sobre coisas que a gente sequer sabe o que são. Por exemplo, sei lá, comunistas que falam sobre o capitalismo: pede para um comunista definir para você o capitalismo. Meu irmão, cada um tem uma definição, o capitalismo é uma parada inacreditável. Se você juntar todas as definições que eles dão, você vai achar que o capitalismo é Deus, é um negócio… E o fascismo? Já viu o fascismo? O fascismo, falam do fascismo, cada época tem um fascismo, o fascismo tipo… Ele se adapta, assim, tipo uma força impossível de ser derrotada. Você está descrevendo para mim algo, não sei, falando para mim de uma força da natureza, saca? Não é um fenômeno social, sabe? Descrever para mim como se fosse um vento, sabe? O vento é uma coisa muito vasta, né? "Venha aqui, o que que é o vento?". É muito difícil dizer o que que é, é muito difícil definir o vento, dar limites para ele, é muito complicado. E eles tratam dessa maneira, e o que o Robert Martin está dizendo aqui para a gente — o que ele está dizendo desde 1994, não que ele fale isso, mas assim, eu estou só pegando aqui o que eu disse com o que eu estou misturando, o que eu disse com o que ele disse, ele não fala de fascismo nem capitalismo, mas ele acaba dizendo que a gente está misturando as coisas, que a gente está falando de algo que a gente não entende, que a gente não sabe sequer se é real.

E aí eu quero deixar essas reflexões para vocês. Vocês acham que é preciso mesmo ter um tratado de estilo? Que é preciso ter um tratado elementar de estilo que diga: "Isso aqui é estilo, para os amigos, é isso o que é"? Se você acha que precisa mesmo escrever bonito? Será que não basta só escrever o que é verdadeiro, ou aquilo que, pela sua própria ideia, seja interessante ou divertido? Precisa escrever bonito mesmo? Realmente precisa? E será que isso não atrapalha? Será que isso não acaba atrapalhando? E outra coisa também: será que a nossa intuição basta para dizer que o estilo existe ou não, ou será que a gente precisa ter uma certeza maior de que o estilo é ou não algo real, e em seguida defini-lo, dizer o que que é o estilo, o que não é, o que distingue o estilo do resto, para então começar a falar mais sobre estilo?

O que você acha? Deixa aí nos comentários, por favor. E já aproveita, desse lado aqui, se inscreve no canal, aperta o sininho, fica um pouquinho aqui, depois dá um joinha e fica por aí. Fica por aí que vai ter mais vídeos, toda semana vai sair vídeos novos, vão ter lives novas. E é isso, espero que tenham gostado do vídeo e até a próxima!