Neste vídeo, o criador do canal Antares continua sua discussão bem-humorada e crítica sobre a interpretação que a influenciadora Débora Luciano deu à obra *A Metamorfose*, de Franz Kafka. Reagindo a trechos de um vídeo dela, o autor ironiza a lógica causal usada para explicar a transformação do protagonista Gregor Samsa e reflete sobre a relação das crianças com a literatura fantástica e realista.
Eu posso ficar lendo aqui esse capítulo inteiro porque ele é absolutamente fenomenal. O Chesterton continua dizendo que existe esse espanto elementar, certo, que não é uma simples fantasia derivada do conto de fadas. Quando nós éramos crianças bem jovens, não precisávamos de contos de fada, somente de contos; a pura vida é suficientemente interessante. Uma criança de sete anos se excita com uma narrativa em que Toninho abre a porta e vê um dragão, mas uma criança de três anos se excita ao ouvir que Toninho abriu a porta. Os garotos gostam de contos românticos, mas os bebês gostam de contos realistas porque os consideram românticos, e por aí vai.
Esse capítulo inteiro é um capítulo sensacional onde ele explica essa ética do País das Fadas e explica o porquê de eu realmente não achar tão impressionante a premissa mágica de que o Gregor Samsa virou um inseto. Na verdade, eu meio que achei uma lógica — explicando os motivos pelos quais eu não gostei. De novo, nem é que eu não tenha gostado agora, eu não gostei só de birra. Explico o fato de que, obviamente, isso não desclassifica a metamorfose do Kafka como um grande clássico que deve ser lido. Inclusive, vou deixar aqui as aulas que o José Monir Nasser faz sobre esse livro linkadas. O áudio está um pouco ruim, mas este é um dos áudios que dá para compreender, e vou deixar algumas referências também para quem se interessou mais sobre a história e realmente gostou dela, para poder ler mais sobre o assunto. Estamos conversando aqui há meia hora, ou seja, dá um pouco de pano para manga, sim; isso já tem alguma relevância. É isso.
Espero que vocês tenham gostado. Se vocês gostaram — de novo —, não deixem de se inscrever no canal, aquelas coisas que vocês já conhecem, e considerem se tornar membros ativos aqui para ter acesso às lives passadas. Acompanhem as lives que nós fazemos semanalmente na Twitch. Seguímos juntos nessa caminhada, sem ressentimento. Gente, eu posso gostar de um livro ou odiar um livro, e vocês vice-versa; ninguém vai brigar aqui por causa disso, certo? É isso, espero que vocês tenham gostado e até o próximo vídeo, show.
Terminamos aqui, né? Não a minha reação, mas terminamos o vídeo dela, e eu acho que já é o suficiente. Eu acho que não tinha por que pausar ali; fui vendo e não tinha por que pausar, não. Vamos lá: de fato, eu concordo com ela, tá? Não briguem com as pessoas, não fiquem chateados com elas — embora isso vá acontecer, mas não fiquem chateados, não tentem brigar com as pessoas só porque elas não gostaram de um livro que você considera muito foda, ou que de fato muita gente considera muito foda, muito grande e incrível, como *A Metamorfose* do Kafka ou qualquer outro. Não é por isso que a gente está fazendo estes vídeos aqui. Se ela tivesse feito um vídeo falando que não gostou ou algo assim, beleza, não tem problema. Mas é porque ela fez um vídeo falando que não gostou e deformando o livro, tentando sustentar a sua visão de mundo com algo que eu não sei se ela pensou sobre as consequências.
Mas vamos lá. Ela falou que achou uma lógica estranha — ela falou isso no último vídeo, e a gente explorou isso. Ela disse que a lógica era a de que ele estava vivendo como um inseto, levando uma vida meio monótona como a de um inseto, então seria natural que ele virasse um inseto. O quê? Como assim? Como é que eu não virei um Baratão ainda, pô? Como eu disse no vídeo anterior, a minha vida é mais monótona — ela aparentemente é, né? Eu leio vários livros, passo o dia lendo; às vezes, quando os livros são pequenos, eu leio um e meio, um e tanto por dia. E quando são contos, obviamente é mais de um, mas aí é um livro de contos, né? Mas vocês entenderam: cada conto é uma obra, e acaba dando várias obras por dia. E eu não virei ainda, velho, saca? Eu não acho que eu vou virar um inseto, não, velho.
A gente pode fazer essa aposta, Débora: que tal se eu virar um inseto? Eu vou virar o seu inseto mensageiro, juro para você, tá? Se eu acordar e virar um Baratão, a primeira coisa que eu vou fazer vai ser sair de casa. Aí, se eu tiver asas… se eu der a sorte de ser um inseto com asas, tipo um besouro — os caras, velho! Os caras, se um inseto tem asas ou não… enfim, besouros têm. Se eu virar um besourão com asas, eu vou até onde você mora — eu não sei onde você mora, mas eu descubro — e eu vou virar o seu tesouro. Sabe o peixe-rei que leva a Narizinho para o reino dele lá, subaquático, dos peixes? Enfim, então eu vou ser tipo isso, só que num reino: se você quiser voar por aí, você sobe nas minhas costas e eu vou voando, voando lá, entendeu? Eu viro o seu besourão mensageiro escravo, eu faço tudo o que você quiser, velho!
Porque não é natural, não sei, e eu acho até estranho isso, justamente porque o que o Chesterton estava falando, e ela também, é que não existe lógica entre as coisas, não existe um elemento causal necessário entre as coisas. Se isso não existe de maneira alguma, como é que você descobriu uma lógica em alguma coisa? Como é que você descobriu uma lógica entre o Gregor — supostamente, a gente desmitificou isso no último vídeo, mas enfim, vamos assumir aqui —, supostamente, o Gregor trabalhar, viver, ter um cotidiano de inseto, ser repetitivo como um inseto, monótono, com uma vida bem morna como supostamente é a de um inseto, e aí ele vira um inseto, e isso aí é lógico, uma coisa acontece da outra?
Como assim? Por que que tem lógica aqui e não, sei lá, quando você corta um pé de maçã e cai a maçã no chão — que é o exemplo que tem nos últimos vídeos, para quem não está entendendo; está nos últimos vídeos, vejam lá os últimos três vídeos, vocês vão entender. Por que é que, quando corta o pé de maçã, a maçã cai, não tem lógica, mas quando o cara tem uma vida monótona, ele vira inseto? Porque, se eu for te falar, tem muita gente no mundo que tem a vida monótona, tá? Muita gente! E eu não conheço nenhuma que virou inseto, velho, nenhuma, nenhuma, nenhuma, nenhuma mesmo, nenhuma mesmo que virou inseto. Você conhece alguma? Olha, eu acho que você devia ter a vida agitada, tá? Porque se você acha que isso é real, que isso é um perigo real, bem, o único jeito de você não virar um inseto é ter a vida agitada. Mas você vai virar o quê? Vai virar chita? Vai virar um tigre? Vai virar um perdedor que tem a vida agitada? Vai virar uma águia que todo dia tem que procurar a presa assim, né? Será que você vai virar uma serpente, que tem que ficar fugindo de guaxinins e caçando ratos no deserto? Não sei, toma cuidado, hein!
Será que é melhor ter uma vida mais tranquila e virar um inseto, né, porque é o que pode acontecer? Ou será que… porque é lógico o que ela disse, né? É lógico! Logicamente, né, isso decorre disso aqui: se você tem a vida semelhante à de um inseto, você vira literalmente — que é o que acontece na história —, você vira literalmente um inseto. É isso mesmo, é assim que funciona. Então, puta que paríu, assim, é difícil não rir, cara! É difícil falar disso de maneira não irônica, é difícil não escrachar em cima disso, velho, é realmente difícil. Se você parar para pensar só um pouquinho, só um pouquinhozinho, fica complicado.
Eu lembro que ela disse mais alguma coisa, mas eu vou ter que voltar o vídeo dela um pouquinho porque eu esqueci. É logo depois disso, tá? Deixa eu voltar rapidinho aqui. Vou voltar rapidinho o que ela disse: "…funde até o ponto de imaginar uma conexão mental… então, que algumas transformações… ou de sua roupa de princesa desaparecer aqui… dragão, mas uma criança de 3 anos você excita…"
Ah, lembrei, lembrei, lembrei, lembrei! Sobre crianças de sete anos e se excitam — no sentido de se animam, se fascinam. Crianças de sete anos são fascinadas por histórias em que uma porta abre e tem um dragão do outro lado; crianças de três se fascinam com histórias em que uma porta é aberta… porque, para as crianças grandes, um dragão estar do outro lado da porta é algo fantástico, mas é algo romântico, né? Perdão, minto: garotos gostam de histórias românticas, mas bebês gostam de histórias realistas porque as acham românticas. Não, perdão! Bebês gostam de histórias realistas porque aquilo ali é o que preenche o mundo deles, não tem nada, entendeu? O bebezinho, ele está cheio de potência, cheio de possibilidade, tudo para ele é novo, é o primeiro contato, tudo para ele é extraordinário até que se torne ordinário. E olha que você vê que até mesmo as crianças, até as crianças às vezes não se fascinam com alguma coisa — claro, com três anos é difícil que ela não se fascine. Então, você pega um bebê de três anos e você recita poesia para ele, ele fica assim, ó, estatelado, porque ele nunca viu uma rima na vida. Agora, fica repetindo isso direto, sem parar, eu te garanto que esse bebê que vai de três a quatro anos vai encher o saco disso, velho! Ele vai encher o saco. Você vai ficar falando disso, você vai fazer assim: "Ah, beleza", vai pegar o celular e botar na boca, vai tentar ver o gosto que tem o celular, porque é isso aqui: ele não fez ainda, ele não botou o celular na boca. Ele vai pegar o pé dele e vai enfiar na boca, porque ele já ouviu você falar e fazer rima muitas vezes; o que ele não testou ainda foi enfiar o pé na boca e sentir o gostinho daquele pé cheio de poeirinha que ele fica dando com o pezinho no chão, que ele fica engatinhando… enfim, saca?
Então, as crianças são muito fascinadas mesmo por todo tipo de coisa, porque é o primeiro contato, pô! É normal que a gente vá se fascinar menos com alguma coisa que não é o primeiro contato. É normal que isso aconteça. Claro que tem exceções, tem vezes que a gente se fascinam por algo que a gente já conhece, mas talvez porque a gente já viu aquilo há muito tempo, mas ficou um tempo sem ver e aí voltou. Você relê um livro que você já leu há muito tempo e você fica refascinado, você fica reanimado ou reexcitado… enfim, porque "excited" em inglês significa animado. Aqui já é outra coisa, em português é outra parada. Mas enfim, vocês entenderam, né? Você se reexcita no sentido anglófono, enfim, porque você está tendo um contato novo com aquilo de novo, que não é o primeiro, mas que é um contato que sofreu um hiato muito grande, então você consegue falar: "Aquilo que eu vi quando criança, eu gosto quando adulto de novo". Sim, porque faz muito tempo que você viu.
Então assim, cara, a gente consegue explicar o porquê. Sabe por que crianças gostam de histórias realistas? Agora pega e fala de realismo: tem Balzac aqui na estante. Eu sei que a Débora tem um filho pequeno, eu não sei a idade dele: pega o Balzac e lê para o garoto, Balzac! Ler Balzac é legal, é muito show, saca? Se ele estiver dormindo na página 30, surpreenda-se! Porque tudo tem que ser uma surpresa, né? Tudo é mágico, tudo é extraordinário. Então, eu ia falar para você não se surpreender, porque esse é o esperado: o esperado é que uma criança vai ler Balzac, vai ler Émile Zola, vai ler Proust… desculpa, gente, fala "Proust", né? É porque eu falei Balzac francês e eu estou acostumado a falar assim, aí emendei com o francês, né? Então, vai ler Proust… e se ele estiver dormindo antes da página 10, antes da página 20, antes da página 30, eu ia falar para você não se surpreender, mas surpreenda-se, porque, segundo a Débora, você tem que se surpreender com tudo, absolutamente tudo!
Eu nunca vi uma pessoa defender tanto a amorfa, velho. Débora, eu acho que você é nietzschiana, eu não acho que você seja católica, eu acho que você é nietzschiana! Eu acho que você leu os livros certos do Nietzsche para falar: "Caraca, é isso aqui, ó". Você ia fazer a síntese, a síntese do capítulo 3 do Chesterton deformado por você. Então, é a sua interpretação do capítulo 3 do Chesterton, de *Ortodoxia*, que é "A Ética do País das Fadas" — que é o capítulo que, para quem não viu os últimos vídeos, o cara está comentando aí —, e a amorfa do Nietzsche. Você vai juntar um aforisma com alguns aforismas… você vai juntar um aforisma a um conjunto de aforismas de um livro dele onde ele fala disso (eu não lembro qual é agora, se eu não me engano é *Além do Bem e do Mal*, se eu não me engano é esse). Vai juntar isso com a sua deformação — a sua interpretação deformadíssima e deformada desse trecho do capítulo 3 do livro *Ortodoxia* do Chesterton, e, cara, tu vai fundar uma nova heresia! Acho que vai ser muito legal, vai ser muito show, né?
Enfim, eu vou ficando por aqui. Esse react acabou, espero que vocês tenham gostado, espero que isso tenha ajudado vocês. Amanhã tem live, e essa live vai ser sobre esse livro aqui, ó — conseguiu ver? Não, vai descobrir amanhã! Fiquem ligados, ativem o sininho, se inscrevam e até mais, muito obrigado. Na live de amanhã a gente vai falar sobre uma história que de fato é fantástica, que é muito, muito fantástica, que é essa aqui, ó — vou ter que descobrir, né? Até mais, gente, boa noite para vocês, até mais.