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Qual a essência da “ficção Realista” aos olhos daqueles que a defendem? ••• Panda

Qual a essência da ficção realista? • Panda

Quando ouvimos grandes personalidades discutirem o que define uma boa ficção ou uma literatura verdadeiramente útil, é comum surgir o argumento do realismo: a ideia de que a boa literatura é aquela que fala do real, que expõe a verdade. Ao longo do tempo, tentei entender o que exatamente constitui a literatura realista, pois o que frequentemente chamavam de "real" parecia escapar dos limites dos movimentos históricos conhecidos, como o Realismo francês ou russo dos séculos XIX e XX. O mais intrigante é que, ao voltarmos no tempo para os séculos XVI ou XV, encontramos autores e críticos daquelas épocas já se autodenominando realistas. No entanto, quando analisamos essas obras, percebemos que elas não têm relação direta entre si; os estilos, o vocabulário, a escolha de palavras e os temas tratados são completamente diferentes.

Diante disso, decidi tentar compreender o conceito de literatura realista não a partir de uma definição objetiva, mas daquilo que é intersubjetivamente aceito como tal. Prestei atenção no que faz as pessoas afirmarem que uma obra "pinta o real" ou "joga a realidade na cara" do leitor. Com base nisso, percebi que existem dois elementos principais que, juntos, formam essa ideia de "super-real" que tanto valorizam na ficção — seja na literatura, em filmes ou em séries.

O primeiro elemento que faz com que uma obra seja considerada uma ficção realista é a natureza dos personagens. Eles precisam ser fundamentalmente pessoas asquerosas. Não se trata apenas de serem cruéis por maldade consciente, mas de indivíduos cujos traços negativos e erros se expõem com muita facilidade. O segundo elemento é que essa condição detestável deve ser interminável. Os personagens não pagam o preço por suas falhas de caráter, tampouco se dão bem por causa delas; o ponto central é que as coisas não mudam. Se eles se dão bem ou mal, continuam na mesma escrotidão. São retratados como criaturas condenadas de dentro para fora, sem absolutamente nenhuma salvação.

Se você observar canais de opinião que comentam obras de ficção, verá exatamente esse tipo de análise. Por exemplo, quando comentam sobre um personagem que tenta melhorar de vida para ajudar a filha, mas trai a esposa, mente compulsivamente e, sempre que tem a oportunidade de se redimir, inventa uma desculpa e segue em frente como se nada tivesse acontecido. A estrutura da história começa e termina de forma análoga: o personagem pode até mudar de classe social ou adquirir habilidades, mas fundamentalmente continua sendo o mesmo o tempo todo.

É estranho notar como muitas pessoas parecem enxergar a realidade apenas na análise da mentira, da falsidade humana, da dissimulação e dos desvios de caráter. O sentido etimológico de "análise" é justamente jogar para cima, fazer sobressair, separar algo para que aquilo prevaleça sob o olhar. Jogar luz sobre as mentiras e os erros que as pessoas performam parece ser o suficiente para que uma obra seja tomada como uma verdadeira pintura do real.

Não estou dizendo que a realidade não contenha esses elementos, nem que isso não nos permita ter um olhar mais preciso sobre o que acontece ao nosso redor. O que questiono, ainda sem argumentos definitivos, é se o real se resume a isso. Se esse não é, na verdade, o real visto apenas por aqueles que são profundamente pessimistas e incapazes de enxergar outra coisa além da mentira.

Isso daria um excelente livro de crítica literária, exigindo a coleta de muitos dados, mas no momento não tenho tempo para isso. Deixem nos comentários o que vocês pensam sobre o assunto: se acreditam que apenas histórias com esse tom pessimista são reais e que qualquer coisa diferente disso — como um final feliz ou personagens que melhoram e mudam — passa a ser tratada como idealismo. Esta é uma hipótese que me parece forte, embora eu ainda não tenha argumentos sólidos para defendê-la completamente. Encerro por aqui, fiquem ligados porque temos vídeos novos durante toda a semana, de segunda a quinta ou sexta-feira, e até a próxima.