Bem-vindos ao primeiro vídeo de uma série especial dedicada a aprofundar a discussão sobre grandes clássicos da literatura fantástica e de terror. Desta vez, o foco é a mente brilhante e sombria de H. P. Lovecraft, explorando os detalhes que tornam seus contos inesquecíveis.
E aí, pessoal do Universo Antares! Este vai ser o meu primeiro vídeo para o canal, porque eu queria muito ter comentado mais sobre alguns temas. Eu participei de duas lives — meu nome é Rayhan, sou escritor, amo fantasia, ficção científica e terror —, mas não consigo participar sempre por questões de agenda e conflito de horários. Os vídeos vão se tornar uma forma para mim de comentar os materiais que eu queria ter abordado nas transmissões, mas para os quais não tive tempo.
A última live foi justamente uma discussão sobre *O Chamado de Cthulhu*, de H. P. Lovecraft, uma obra e um autor dos quais sou muito fã. Gosto muito da forma como ele narra suas histórias. Inclusive, escrevi uma antologia de livros chamada *Lovecraft Rio*, justamente baseada na obra dele, e queria muito comentar sobre suas histórias. O Lucas me deu a sugestão de fazer vídeos comentando sobre cada conto, e acho que nada mais justo do que começar pelo conto que tornou Lovecraft muito bem conhecido: *O Chamado de Cthulhu*.
Todo mundo sabia que ele era bom na época em que suas publicações se iniciaram, mas ninguém sabia, digamos assim, que ele iria se tornar esse clássico cult. É um autor reconhecido, mas que em sua época não foi tão popular quanto outros autores que tínhamos. Enfim, se você não assistiu à live que o Lucas fez com a galera — com a Gabi e com outro integrante cujo nome me fugiu agora, mas com certeza vou lembrar com o tempo —, este vídeo vai funcionar como um complemento, pois ainda há umas coisinhas que eu gostaria de comentar e que não deu tempo de falar ao vivo.
Para quem não sabe, H. P. Lovecraft foi um escritor norte-americano nascido em Providence, nos Estados Unidos. No comecinho dos anos 1920, ele começou a publicar suas histórias através das *pulp magazines*, revistas que tinham esse nome porque eram feitas com uma polpa barata de madeira, o que resultava em um papel muito acessível para a industrialização. Consequentemente, as histórias eram vendidas a preços muito baixos, como 50 ou 20 centavos de dólar. Era uma literatura barata e acessível que fez muita gente se apaixonar pela literatura de gênero.
*O Chamado de Cthulhu* não é o primeiro conto do autor, mas é o que o tornou mais conhecido. Na verdade, foi publicado próximo da morte de Lovecraft, um autor que faleceu prematuramente por conta de um câncer. O estilo dele é o que hoje chamamos de horror cósmico, que é basicamente aquele tipo de horror em que, ao invés de termos uma criatura assolando um personagem qualquer de maneira direta, ela passa a atacar as filosofias daquela pessoa. É um personagem que geralmente tem a forma de um acadêmico, uma pessoa intelectualmente elevada que vai descobrindo mistérios que vão além da capacidade humana.
Neste universo, existem várias criaturas que batalharam entre si e foram adormecidas; algumas morreram, outras estão apenas em um estado de hibernação em vários sistemas solares, e muitas delas se encontram na Terra. O período em que as histórias se passam é justamente quando começamos a observar um retorno dessas entidades fantásticas. Elas são, por si só, seres que transcendem todo o escopo do conhecimento humano, levando diversos personagens à loucura.
*O Chamado de Cthulhu* se centra justamente nisso. Na minha sincera opinião, não é o melhor conto dele nem de longe, mas ficou famoso porque Lovecraft segue uma fórmula — que inclusive comento em outros pontos de sua obra — em que o horror é apresentado de modo indireto. O personagem vai concatenando diversos fragmentos daquele mistério à medida que o leitor acompanha a narrativa através de segmentos epistolares. Ou seja, em vez de um narrador contar a história à medida que ela acontece, temos um personagem coletando documentos e narrando o que já ocorreu. Isso torna a construção da prosa um pouco desafiadora, porque você precisa criar o horror baseando-se não apenas na surpresa — já que, na maior parte das vezes, você já sabe o que aconteceu com o personagem desde o início —, mas utilizando artifícios poderosos para impactar o leitor.
Lovecraft aprendeu a fazer isso muito bem, principalmente em suas narrativas mais extensas. Apesar de ser um escritor de contos, suas narrativas são bem prolixas e elucubradas, marcadas por um vocabulário vasto. É isso que torna a leitura de *O Chamado de Cthulhu* tão interessante, além do fato de apresentar todos os elementos fundamentais da obra do autor.
Costumamos dividir as histórias lovecraftianas em duas vertentes. A primeira é a fase *pulp*, em que os personagens enfrentam criaturas inomináveis, mas ainda entram em combate direto com elas. A segunda é a purista, em que o personagem nem sequer sabe que está enfrentando aquela criatura e, na maior parte das vezes, termina a história perdendo a sanidade.
Neste conto, temos um personagem descobrindo a estatueta de Cthulhu. Por sinal, essa é a criatura do horror cósmico mais cultuada e conhecida do universo lovecraftiano, embora não seja a única pela qual o autor ficou famoso. Se tudo der certo, vocês vão conhecer outras entidades, porque pretendo comentar sobre todas elas. Eu li e reli esses contos várias e várias vezes, e adoraria explorar a história a fundo.
Em *O Chamado de Cthulhu*, especificamente, a narrativa começa quando um personagem encontra, entre as papeladas de um falecido, uma caixa com uma estatueta maligna — basicamente o ídolo de uma criatura — e os relatos de um pesquisador. À medida que a história avança, percebemos que a morte desse pesquisador, que deu início à trama, é justamente o que gera o verdadeiro medo, pois começamos a ressignificar o que já aconteceu. Será que a morte acidental daquele personagem não ganha um novo sentido à medida que descobrimos os fatos da narrativa? Será que isso não altera nossa percepção da realidade?
É isso que *O Chamado de Cthulhu* discute. Acompanhamos não apenas um, mas três personagens principais — claro, sem dar spoilers para quem nunca leu, pois são contos curtinhos e vale a pena ler pela primeira vez. Vemos uma jornada de ressignificação de um mistério que, a princípio, parecia ser apenas uma alucinação ou uma teoria conspiratória barata. Em seguida, temos o confronto com o horror, quando o personagem descobre que aquilo que julgava ser conspiração é real. Por fim, o horror se concretiza de fato através dos relatos de outros personagens, reunindo as confirmações sobre o medo principal associado a Cthulhu: uma criatura que invadia sonhos, tão odiosa em sua aparência que enlouquecia as pessoas apenas por ser vista.
À medida que a história avança, por meio de relatos de artistas, escultores, pesquisadores, geólogos e estudiosos de mineralogia, descobrimos que essa criatura é carnal. Ela não é puramente onírica — embora sua presença nos sonhos seja marcante —, mas também física. O conto termina de uma forma brilhante, com o personagem alcançando uma resolução que, como na maioria das vezes na obra de Lovecraft, é pessimista. Ele era amplamente conhecido por seu pessimismo em relação ao estudo e ao avanço da ciência.
Sem sombra de dúvidas, é uma obra-prima do autor sobre a qual eu queria muito comentar mais um pouquinho, e agora estou tendo a oportunidade de falar com um pouco mais de liberdade. Gostaria muito que vocês lessem essa história. Fica claro que este é o conto mais conhecido de Lovecraft, mas ele não é o melhor de todos os que o autor escreveu ao longo da vida. Se puder, comentarei sobre os outros também. Espero que tenham gostado, e vejo vocês no próximo vídeo. Valeu!