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O Contrato de Salém

Enquanto o demônio avaliava as cláusulas do contrato, George virou-se para o canto da cela e orou. Orou sem saber o que dizer, pois o que fizera ainda parecia a única saída. Era uma urgência e o problema era, de fato, desesperador.

No início, ninguém achou que a situação iria tão longe. A acusação vazia e a prisão pareciam só mais uma forma de Thomas Putnam pressioná-lo. Na cela fria, sua devoção continuou firme como sempre por um bom tempo. Mas no julgamento, três meses depois, foi difícil não se abalar com os depoimentos forjados, o veredito e a sentença. Mesmo com isso, seu coração ainda estava firme e George implorou sem cessar por uma saída que nunca veio. “Como pude ser tão ingênuo?”, murmurava para si mesmo. “Thomas me traiu e destruiu meu nome. O que restou de mim?”. Quando a ansiedade ocupou mais espaço do que ele tinha, só na última noite, ele resolveu tentar outra coisa.

E agora, depois da oração mais sinistra de sua vida, ele  levava seus pensamentos ao destinatário de sempre. Talvez tarde demais. O coração voltou a palpitar quando se lembrou de Thomas..

“Aquele, aquele… por causa de um dinheiro que nem dele era? E ele nem precisa! Senhor, tenha misericórdia de mim quando isso aqui acabar! Sei que não devo, mas desejo muito que ele pague. Estou tão cansado de como as coisas são…”

— George…

“Eu confesso que não fui um bom marido para Sarah, mas eu era diferente. Eles me deixaram assim. O Senhor sabe que eu não pude salvá-la porque eles cortaram meu salário e…”

— Isso é constrangedor, George.

— O quê?!

— Isso, a oração. Você me chamou e agora está orando.

“Senhor, tu sabes que eu me arrependi assim que fiz esse pedido precipitado! Eu não sabia mais o que fazer e fui fraco, mas só depois de quase quatro meses invocando o seu nome!.”

— George?

—Não está vendo que eu… — o riso seco do demônio o fez parar a frase. — O que quer?

— Quero melhorar a sexta cláusula. E o contrato precisará ser redigido no meu idioma.

— Vamos logo com isso.

A discussão seguiu madrugada adentro. 

Enquanto discutiam, o eco distante de outras celas tornava-se cada vez mais presente. Era o último dia de vida para muitos, e um ruído começou a se acumular. Entre lamúrias, murmúrios odiosos e delírios de quem não conseguia dormir, George pôde distinguir as vozes, pois as conhecia como ninguém.

— Senhor, tende piedade de nós!

Pobre Martha. A voz de uma das mais devotas de sua antiga congregação reverberou com uma tristeza profunda. Justo você, depois de tanto. As palavras de fé da fiel se fizeram um peso esmagador aos seus ouvidos, atrapalhando a confecção do documento.

O lamento infindo fluía enquanto reconheceu outra voz.

— Maldito o dia em que eu nasci!

Não faça isso, John, não blasfeme. John Proctor temia mais pela esposa grávida, também acusada e condenada, do que por si mesmo. Elizabeth estava em algum lugar, não sabia onde, não sabia como. A cabeça girava. Suas palavras não saíam como ele planejava. Continue firme, amigo. Não seja como eu.

George também ouviu gritos de socorro e xingamentos, ambos direcionados a ele por quem sabia que ele ocupava a cela.

— Pastor George, o que fizemos para merecer isso?

— O que você fez, George? Diga a verdade! Nos tire daqui!

George pressionou os olhos, tentando afastar o tormento. “Mary, eu… eu não sou o responsável por isso!”, murmurou entre os dentes; as palavras mal saíram da boca.

— Foco, George.

— Eu… olhe… é difícil.

Lembrou-se do interrogatório: os olhos acusadores daquele dia eram os mesmos que outrora receberam suas orações.

— Quem é que mais te chateia, George? A Mercy?

O relato atordoante era inesquecível. “Ele me levou a uma montanha extremamente alta e me mostrou todos os reinos da terra”. A parte mais chocante da acusação de Mercy Lewis não era projetar nele o próprio diabo, mas projetar em si o Cristo.

— A culpa é sua, George. Não é? Você a salvou junto com toda a família no ataque dos índios.

— Não me arrependo. E ela perdeu os pais, é recente.

Pressionou os lábios.

— Continue acreditando nisso, George.

O pastor, antes um pilar da fé, havia se tornado um símbolo do medo coletivo. Se até ele era um bruxo, qualquer um poderia ser.

Uma última voz condenada tocou seu ouvido e quase trouxe um consolo horrendo ao seu coração. No julgamento, viu sua vida se desfazer diante de seus olhos quando a mesma voz o acusava confiante: “seu espectro seduziu nossas filhas”.

— O tempo, George, o tempo.

Quando o Sol surgisse, a execução aconteceria tão logo o juiz, o carrasco e a plateia aparecessem. George sentiu a pressa crescer.

— Falta uma coisa ainda. Como eu sei que não irá quebrar o contrato e vir atrás de mim antes do fim da vigência?

— Decepcionante. Você é pastor, mas parece saber só o mesmo tanto que os seus detratores. Pacta sunt servanda!

— O quê? Ora, não me insulte.

— Por que acha que não saímos por aí fazendo tudo o que quisermos? Nunca leu Jó? Raciocine! Não é assim que funciona.

George tomou um fôlego enquanto pensava. Assentiu.

— Mas por que está tão tranquilo com o nosso acordo? A execução do contrato só acontece, no mínimo, daqui um ano. Ou se eu quebrar o acordo, o que não farei.

Antes que o demônio sequer esboçasse uma reação, veio a voz de outro acusado de bruxaria, na cela ao lado:

— Ele tem tempo, George. Ele tem tempo!

O riso seco.

— Se ele não pode vê-lo, achei que também não o ouvia.

— Ele não me ouve. Ele está ouvindo o que você diz.

George meneou a cabeça envergonhado e disse:

— Que seja. Bem, de qualquer forma, a cláusula dos seus benefícios me parece razoável. Você vai ter o que combinamos.

— Espero que a sétima também tenha ficado clara.

— Sim. Se a manutenção do acordo parar, todos os direitos se tornam inválidos de imediato; as obrigações, não.

— E…?

— E um segundo contrato impedindo a execução do primeiro não será aceito.

— Perfeito. 

— Por ambas as partes.

George viu um resquício de incerteza no olhar do demônio.

Pensativo, George olhou para baixo e esfregou as mãos.

— Espere. Eu ainda não estou entendendo como funcionam as frases de alteração. Isso é magia?

— Você pode chamar assim se quiser.

— Quer dizer então que eu…

— Sim, você agora será um bruxo, pastor. Aliás, acima de um bruxo, um conjurador — o riso.

George engoliu a seco; não tinha tempo para pensar naquilo.

— Então, como você garante que essas frases que você me deu não irão mais funcionar se eu quebrar o contrato?

— Bem dito. Eu me esqueci de algo. Mas já deve estar pronto.

O demônio desapareceu. George preferia não ter questionado. Confuso, aproveitou para terminar sua última prece.

“Pai, se é que posso ainda chamá-lo assim, cuide das minhas filhas, que nada têm a ver com isso. Me perdoe por desejar isso, mas que os responsáveis paguem caro…”.

— Pegue isto, George.

— Onde você foi? Espere… um crucifixo?

— Fui buscar a minha garantia. Vou fazer uma alteração no contrato. Todas as frases terão efeito apenas se o associado estiver em posse deste amuleto. Sim, um crucifixo.

— Pois bem, então acrescente ao contrato que você ou qualquer outro demônio garantirá que um desses será dado a quem eu colocar no contrato.

— Como desejar.

George deu um longo suspiro.

— George, está na hora de assinar. Resta pouco tempo.

— Isso não vai dar certo, George! — disse a voz da outra cela.

A sétima cláusula ainda incomodava George, apesar de tê-la reescrito várias vezes. A  cláusula era outra medida de segurança, mas com relação aos homens. Tratava-se da possibilidade de inclusão de associados no mesmo contrato. Como a primeira cláusula não o pouparia de outros problemas, George alegou que precisaria de mais pessoas presas ao contrato para se precaver e se defender. George argumentou que colocar mais pessoas no contrato seria o mesmo que fazer o contrato com várias pessoas, o que o demônio gostou. 

— Você não vai precisar desta cláusula. Confie em mim.

O riso.

— Confiar? Não gosto disso. Por que você cede tanto?

— Por que esses são detalhes que não me afetam em nada.

O raciocínio foi interrompido pelo recomeço dos sons de choro vindos das outras celas. Um raio fraco de sol entrou pela pequena janela e alcançou seus olhos. O tempo havia acabado. 

— Ainda quero saber como cumprirá a primeira cláusula. Como fará pra me livrar de tudo isso, não só desta cela?

— Pacta sunt servanda! Preocupe-se com a sua parte no acordo, George.

— É… parece que devo mesmo apenas confiar.

“E dá mesmo pra confiar num demônio?”, era a pergunta quase inaudível que o condenado ao lado ainda fazia.

O contrato foi assinado com sangue.

— Está feito — disse o demônio. — Ah, falta ainda uma coisa. Quais são mesmo as suas últimas palavras?

— Ora, por quê? E como sabe? — George chacoalhou a cabeça e continuou. — Estou vendo esse seu sorriso desde o começo. Mas ouça bem: você não me engana. Eu não sou tolo como pensa. Aliás, venho pensando nesses supostos pactos há muito tempo, desde que os boatos de bruxas por aqui começaram. Nunca acreditei que eram de verdade. E este, bem, ele é diferente.

— Sei bem o quanto pensou no assunto. Estou aqui desde muito antes de você me ver. Escolhi aparecer quando terminasse sua discussão divertida sobre como seria o “contrato perfeito”.

Ouvindo tudo isso, George tinha muitas perguntas, mas só deu tempo de fazer uma delas:

— E por que só apareceu horas depois de tê-lo invocado?

— No final, demorei porque quis ouvi-lo treinando suas últimas palavras à multidão. Achei curioso. Mas antes disso, eu esperava por uma autorização superior.

— Espere… então você…

A cela se abriu. Três guardas entraram e amarraram suas mãos para trás, deixando a cela escancarada.

Em instantes, a multidão viu o pastor da comunidade ser conduzido ao cadafalso. A princípio, um pouco trêmulo, com olhar assustado, talvez sem acreditar que fosse verdade tal desfecho. Aos poucos, porém, seu olhar ganhou destemor, bravura. Era a confiança daquele que, por tanto tempo, conduziu tão bem a comunidade. Era o olhar de um santo pecador, de alguém convicto do que precisava fazer pela última vez.

Alguns espectadores desviavam o olhar, enquanto outros, liderados pelos Putnam, ansiavam pelo que chamavam de justiça.

O juiz concedeu um último pedido a George: falar ao povo.

O discurso durou por volta de dois minutos, mas reverberaria por décadas nos corações de todos os presentes. As palavras causaram alvoroço na multidão, que já parecia se preparar para tirá-lo de lá e garantir que nada daquilo acontecesse.

Mas o ápice do discurso foi a oração do Pai Nosso. Os murmúrios cresceram. “Não é possível”, disse um homem no meio da multidão. “Nenhum bruxo poderia fazer isso”, disse outro.

A cada frase, pessoas se juntavam erguendo a voz. Ao final, um brado uníssono gritou o “amém”. O feito fez até os mais céticos questionarem suas próprias crenças. Um frio na espinha pegou os detratores de surpresa. Mas os magistrados estavam decididos. Quando terminou, o silêncio era absoluto. Um espectador gritou: 

— Poupem-no! Este homem não é um bruxo!

Neste ponto, George só precisava de mais algumas palavras para se tornar aquele que mudaria toda aquela situação, sendo seguido por um povo disposto a tudo. Os olhares pareciam gritar: “peça-nos!”.

Um grupo começou a se organizar, certo do que devia ser feito. Os magistrados perceberam a movimentação, temeram perder o controle e deram o sinal. O carrasco puxou a corda.

O som da corda esticada enterrou a euforia. A multidão assistiu ruidosa o corpo de Burroughs balançando. 

Ainda descalço e com roupas sujas, o safo pastor tremia olhando o corpo pendurado, entusiasmado do outro lado da praça.

— Era isso mesmo. Ele decorou todas as minhas palavras!

— Com quem está falando, senhor? — perguntou alguém que não estava disposto a participar daquela festa de horrores.

— Ah! Olá! Estou resmungando sozinho.

Ambos viram o corpo ser lançado ao chão e arrastado até o buraco onde deveria ficar. Minutos depois, George foi visitado.

— Parece que terminamos — disse George.

— Eu diria que começamos.

— Olha, você estava mais parecido comigo do que eu mesmo!

— Faça bom proveito do seu contrato.

— Espere! Bem, você ainda não me disse como eu faço pra que vocês cumpram a cláusula de proteção. Você prometeu que me daria uma frase para isso, mas não deu tempo na cela.

— Não é uma “frase de proteção”, mas de jurisdição, como sugere a cláusula. Quando você pronunciar esta parte aqui, qualquer demônio por perto deixará o local imediatamente.

Mais fácil do que poderia imaginar, George conseguiu seu contrato. Ora, o demônio não percebeu, mas havia elaborado um acordo que dificilmente seria quebrado, porém, mais dificilmente ainda conseguiria executar seu benefício ao “final do período”, pois este duraria até muito depois da morte de George. Afinal, a quarta cláusula, ao permitir que outras pessoas entrassem no contrato, faria com que o mesmo durasse pelo tempo que ainda houvesse qualquer pessoa cumprindo-o.

Assim, George passou a perna no demônio.

O que ele não sabia era que para validar o contrato e fazê-lo ter o efeito desejado, o mesmo fora escrito na língua do demônio, o Verbis Diablo, que George já ouvira falar, mas não tinha ideia do que era. E assim, o demônio passou a perna no pastor.