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Victor Hugo – Pena de Morte e Crítica à Burocracia

Victor Hugo - Pena de Morte e Crítica à Burocracia

Nesta discussão sobre a obra de Victor Hugo, os participantes analisam como o autor aborda a pena de morte e a burocracia estatal sem recorrer a apelos puramente sentimentais. A conversa explora a construção do personagem principal, a intenção política dos textos do autor e o impacto histórico de sua escrita.

Vamos lá. Deixa eu inserir um outro elemento aqui. Se o Victor Hugo queria discutir sobre a pena de morte, você espera que ele faça uma defesa às vezes meio sentimental da coisa, e ele não faz isso. Quer dizer, ele faz um pouquinho, mas ele não escolhe um personagem com o qual você vá se identificar prontamente. Ele pega um cara com quem poucos vão se identificar, talvez justamente para o público que interessava a ele: o da burocracia, alguém que pudesse ter poder, um homem com educação. Ele fala de si mesmo assim, ele cita de vez em quando, por exemplo, logo no começo do livro, que é casado, pai de família, que lê literatura. Então ele vai dando essas deixas, e você vai vendo que ele está delineando o perfil do personagem, e não é aquele cara de quem você simplesmente vai ter dó e pronto. Não é fácil ficar com dó desse personagem. Até porque a gente não sabe exatamente o que ele fez; fica suposto que ele matou alguém. Ele fala: "Eu tenho sangue nas mãos, eu que mereço isso". Ele diz que merece a pena de morte e tal, mas mesmo assim ele não quer morrer. Ele acha que merece, mas não fica falando do crime.

Agora, fica evidente que o que o Victor Hugo quer fazer com esse texto, várias vezes, é isto aqui: "Que o que aqui escrevo possa um dia ser útil aos outros. Que isso faça deter juiz prestes a julgar e que salve desgraçados inocentes poupados da agonia a que estou condenado". Ele fala isso no terceiro ou quarto capítulo, e depois continua. Tem uma hora que ele fala — acho que é perto dessa parte quando ele já está na cadeia —, que ele diz: "Então é verdade que tem que ser desse jeito, que eu preciso morrer amanhã, talvez hoje, sem remédio, sem poder desfazer isso, sem remediação, sem outra alternativa, assim, não tem o que fazer". Então o Victor Hugo quer discutir isso mesmo. Ainda bem que eu não li o prefácio antes de ler a obra.

Mas ele é um escritor político, ele não escreve só sobre isso, ele escreve sobre isso também. O Victor Hugo é o cara que vai escrever tanto da beleza da natureza quanto de outras coisas. Tem um livro dele de poemas que é *A Arte de Ser Avô*, literalmente. Ele está escrevendo sobre ser avô, velho, ele não está te explicando como é que é, ele só está te explicando como experimenta ser avô. O livro tem muito mais dúvidas do que certezas, do que a postura de "faça isso, faça aquilo". É tipo: "Eu não sei o que fazer, eu não sei o que fazer". Acho isso muito maravilhoso, escrever sobre isso. Então, o Victor é um autor colossal, ele escreve sobre todo tipo de coisa, política inclusiva. Eu sabia que havia política — eu não li o prefácio, mas ele escreveu muita coisa política. E mesmo quando ele escreve politicamente, eu adoro, porque ele escreve muito bem.

É que isso aqui é um grande panfletão. No prefácio ele explica, e aí fica meio aquela sensação de "ah, tá, vou ler um panfletão seu, então". Sabe, um panfletão bonito, mas é meio assim… Mas é que eu sabia que era um panfletão. Eu não sabia, pô, eu li mesmo sem saber, e graças a Deus que eu li, foi ótimo assim. Você vê que, mesmo sendo um panfletão, é ótimo. Tem história que não quer ser um panfletão e é, e fica horrível; tem história que quer ser e não consegue direito. Esta aqui é uma das que tentou e conseguiu, mas nem tanto. Por quê? Porque dois anos depois a pena de morte desapareceu na França — inclusive, a imagem dela está ligada ao último condenado lá na França, o último cara que foi guilhotinado.

Outra coisa que o Victor Hugo faz nesse texto também, parecido — não tanto quanto o Kafka —, é descer o pau na burocracia. É rapidinho, ele faz a gente pegar nojo da burocracia. É o que acontece ali já no começo, mas depois ele vai explicar um pouco mais sobre isso no capítulo oito. O capítulo oito é só sobre a burocracia, confiram lá. É hilário: o cara para assim, a primeira semana de atraso, porque vai ter atraso, tipo, umas duas semanas de atraso por causa de procedimento, depois mais papelada, depois mais um tempo, aí sim pode matar. É muito bom, velho. E tem a guilhotina sendo trazida de um lugar para o outro, que tem que ser montada de novo, tem que ser limpada. Seis semanas por causa de um perdão. Não, é porque não dá para ser mais cedo.