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Golpes e Fantasmas A Estratégia do Preso

Golpes e Fantasmas  A Estratégia do Preso

Neste trecho da análise da obra "O Último Dia de um Condenado", de Victor Hugo, o protagonista preso interage com mais um personagem curioso que tenta tirar proveito de sua situação iminente. Enquanto a narrativa avança para o desfecho trágico, o condenado navega por encontros marcantes que revelam diferentes facetas da psicologia humana diante da morte.

Esse personagem é aquele que vai pedir os números do jogo. Ele quer ganhar na loteria e tenta instrumentalizar o nosso protagonista, o narrador, que é um gendarme. Gendarme significa policial, militar, pessoa de armas. Seria a força militar que faz a função de polícia a maior parte do tempo, então acaba que vira todo mundo gendarme. Mas, enfim, esse cara é um pouco mais legal do que o primeiro, porque o primeiro o ignorou, enquanto este tem um certo interesse. Ele já chega dizendo: "Criminoso, criminoso, tens bom coração". Ele é muito bom. Só que ele fala que precisa dos números porque quase sempre acerta. Ele fica repetindo 76, 76, 76, e o número que cai é o 77. Ele tenta o mesmo número várias vezes e não consegue, e quando muda, vira outro.

E ele fala: "Cara, se tu morrer, faz o seguinte: você já vai estar morto mesmo, vem como fantasma, chega na minha casa de noite, sobe lá — eu não tenho medo de fantasma — e me conta os números da loteria, porque fantasma traz sorte e pode ver o futuro". É o que acontece em peças de Shakespeare, que fala de Macbeth, onde há essa parada de os fantasmas virem falar coisas escondidas. Pense no Hamlet, com o fantasma do pai dele; em Macbeth são mais as bruxas que veem o futuro, mas ele parece confundir as duas coisas.

E aí ele fala isso, só que é interessante que o nosso preso vai tentar instrumentalizar esse cara. Ele diz: "Ah, então troca de roupa comigo", tentando dar uma de malandro como o outro cara fez antes, embora não seja para tentar fugir. O preso diz uma coisa e o outro responde: "Ah, mas não, pô, tu tem que estar morto antes". É um idiota, mas mesmo sendo idiota, ele consegue não ser passado a perna e diz: "Não, mas tu tem que morrer para me contar, senão não vai dar certo". É muito bom, cara. E é interessante porque você vê como o protagonista vai sendo levemente moldado. Ele está seguindo o mesmo plano que o outro preso tentou com ele, tenta dar o mesmo golpe e se ferra.

O padre, por sua vez, é o oposto de ambos: um homem com fortes emoções que não está sendo ouvido, em contraste com o primeiro encontro, que é mais frio. Você tem esses três encontros e depois há um quarto encontro, que é de matar o coração. Você lembra desse? Deixa-me ver onde está na sequência. O quarto encontro é de matar o coração, é engraçadinho, fofinho, mas também faz você pensar: "Caraca, que merda". E está lá no final já, logo antes dele ser condenado, após a nota do editor, e não tem mais nenhum encontro depois desse. São esses quatro encontros no total. Os três primeiros são com pessoas que ele não conhece, enquanto este quarto é com alguém que ele conhece, por isso os separei.

Mas há algumas coisas antes. Ele tem um sonho, um pesadelo acordado, e também tem outro pesadelo dormindo, que era um pesadelo real de Victor Hugo. Hugo escreveu sobre um pesadelo que ele tinha várias vezes. A esposa dele, Adele Hugo, escreve sobre isso na biografia que fez do marido. Ela conta desse sonho que Victor Hugo tinha várias vezes, que contou a ela, e ele colocou nessa obra. É um sonho de dar medo. Eu li à noite, na cama, no escuro, com o celular na mão, e pensei: "Cara, desgraçado", sendo melhor do que muitas histórias de terror, na moral.