Considerada por Aristóteles em sua *Poética* como a maior de todas as tragédias gregas, *Édipo Rei*, obra-prima de Sófocles, retrata um dos mitos mais célebres da antiguidade e consolida-se como um marco fundamental do teatro ocidental. Contemporâneo de Ésquilo, Sófocles foi o dramaturgo mais premiado nos concursos trágicos de Atenas, e embora tenha composto mais de setenta peças, apenas sete chegaram até os dias de hoje. A tragédia de Édipo insere-se no modelo mimético alto, no qual um protagonista de grande stature decai devido a um crime que exige punição divina ou humana, desencadeando um profundo dilema moral e existencial.
A narrativa tem início com a cidade de Tebas mergulhada em uma grave crise provocada por uma peste enviada pelo deus Apolo. Desesperado, o povo recorre ao Rei Édipo, figura amplamente respeitada por ter salvado o reino anteriormente ao livrá-lo de uma pesada tributação imposta pela Esfinge. Querendo antecipar-se à solução do problema, Édipo já havia enviado seu cunhado, Creonte, ao oráculo de Delfos para consultar as divindades. Ao retornar, Creonte traz a resposta definitiva: a praga cessará somente quando a cidade for purificada da mancha de um crime não resolvido, o assassinato do antigo rei, Laio. Os deuses exigem que o culpado seja identificado, punido com a morte ou permanentemente exilado de Tebas.
Confiante e ignorando qualquer envolvimento com o passado, Édipo promete publicamente caçar o culpado, lançando duras maldições contra o criminoso e declarando que a punição se estenderá a quem quer que o proteja, inclusive a si mesmo caso o abrigue sem saber. Na tentativa de acelerar a investigação, convoca o célebre profeta cego Tirésias. Inicialmente, o adivinho recusa-se a falar, implorando para ser dispensado e alertando que a revelação trará desgraça tanto para o rei quanto para ele próprio. Irritado com a recusa e com a rigidez do profeta, Édipo perde a paciência e o acusa de cumplicidade na conspiração para usurpar o trono, insinuando que Creonte estaria por trás da armação.
Provocado pelas acusações e pela insolência do rei, Tirésias finalmente rompe o silêncio e dispara a verdade devastadora: o próprio Édipo é o assassino que tanto procura. O profeta profetiza que o monarca vive em pecado terrível com seus entes queridos, sendo, ao mesmo tempo, assassino do pai, marido da própria mãe e irmão de seus filhos. A acusação desencadeia uma intensa discussão política e pessoal entre Édipo e Creonte, com o soberano exigindo submissão cega e o cunhado defendendo os limites da justiça. A rainha Jocasta intervém para apaziguar os ânimos, mas, em uma tentativa de consolar o marido e desacreditar as profecias, acaba revelando detalhes cruciais sobre a morte de Laio.
Jocasta menciona que o antigo rei foi morto por salteadores em uma encruzilhada, em uma estrada que levava a Tebas, pouco antes da chegada de Édipo à cidade. Ela acrescenta que, para evitar um oráculo que previa a morte de Laio pelas mãos de seu próprio filho, o bebê recém-nascido teve os pés amarrados e foi abandonado para morrer em uma montanha. Essa descrição gela o sangue de Édipo. Começam a vir à tona lembranças do seu próprio passado em Corinto, onde cresceu acreditando ser filho de Pólibo, mas de onde fugiu após ouvir de um bêbado que era adotado e receber do Oráculo de Delfos a aterrorizante profecia de que mataria o pai e casaria com a mãe.
Reconstruindo os fatos, Édipo recorda-se de ter assassinado um homem idoso e sua comitiva em uma briga de trânsito em circunstâncias idênticas às descritas por Jocasta, em uma encruzilhada, após sofrer agressões. A única esperança de inocência reside no depoimento do único sobrevivente daquela caravana, um servo que, ao retornar ao palácio e ver Édipo coroado rei, havia implorado para ser transferido para o campo como pastor.
A tensão atinge o ápice quando chega um mensageiro de Corinto trazendo a notícia da morte natural de Pólibo, o que inicialmente parece afastar o temor de que o primeiro fardo da profecia se cumprisse. Contudo, o mensageiro revela que Édipo nunca teve laços de sangue com Pólibo, pois ele próprio havia recebido o infante das mãos de um pastor nas montanhas, um bebê cujos pés haviam sido perfurados. Convocado à presença do rei, o velho pastor — que por fim se revela o mesmo sobrevivente da caravana de Laio e a pessoa encarregada de abandonar o herdeiro — confessa, sob extrema coerção, que a criança era o filho legítimo de Laio e Jocasta, entregue a ele pela própria rainha para ser morto, mas poupado por compaixão e entregue ao mensageiro de Corinto.
Diante do reconhecimento inequívoco de sua verdadeira identidade e da consumação inevitável da tragédia, Jocasta comete suicídio enforcando-se em seus aposentos. Ao encontrá-la morta, tomado pelo desespero e pela culpa insuportável, Édipo arranca os próprios olhos com broches do vestido da rainha, recusando-se a continuar testemunhando as próprias desgraças. Cego, destituído do poder e implorando por exílio, ele confia suas filhas aos cuidados de Creonte e despede-se em profundo pranto. A grandiosidade da obra, marcada por reviravoltas implacáveis e pela implacabilidade do destino, eternizou *Édipo Rei* como o ápice do gênero trágico na literatura universal.