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Comédia é final feliz, Tragédia, final triste? ARISTÓTELES RESPONDE!

Comédia é final feliz, Tragédia, final triste? ARISTÓTELES RESPONDE!

A crença generalizada de que a tragédia se define simplesmente por um final triste e a comédia por um final feliz é uma simplificação escolar incorreta. Essa confusão tem raízes históricas curiosas, como o exemplo de Dante Alighieri, que nomeou sua grandiosa obra de *Comédia* justamente porque ela terminava bem, culminando no encontro com Deus após uma jornada que passava pelo inferno e pelo purgatório. Embora Dante tenha imortalizado essa visão, ele era um leitor injusto dos autores clássicos e acabou difundindo uma premissa equivocada sobre o conceito original dos gêneros. A verdadeira distinção entre tragédia e comédia, longe de ser binária ou se resumir à felicidade ou tristeza do desfecho, foi magistralmente teorizada por Aristóteles em sua *Poética*.

Segundo Aristóteles, a tragédia não deve focar nem em personagens virtuosos que decaem para a infelicidade — o que gera apenas repulsa, e não temor ou piedade —, nem em pessoas mundanas que ascendem à fortuna, pois isso não desperta compaixão. O verdadeiro enredo trágico exige figuras que se situam entre a virtude extrema e a vileza comum: indivíduos melhores do que a média que caem da fortuna para a desgraça não por causa de uma perversidade inerente, mas devido a um erro grave ou equívoco que cometeram. É essa falha humana em um personagem nobre que engendra a verdadeira catarse, mobilizando compaixão e temor no público.

O exemplo máximo dessa estrutura é *Édipo Rei*, de Sófocles. Édipo é retratado como um governante compassivo, inteligente e genuinamente dedicado ao seu povo, longe de ser um tirano indiferente. No entanto, em sua busca incansável pela verdade — que assume os ares de uma investigação policial antiga —, ele descobre que, tentando escapar de um oráculo terrível para fazer o que era correto, acabou cumprindo o destino de matar o próprio pai e casar-se com a mãe. A tragédia não reside em uma ironia puramente cômica ou na maldade pura de um vilão, mas na ruína de um homem bom cujos próprios atos, movidos por escolhas plausíveis e pela tentativa de evitar o mal, resultam em sua própria perdição. O impacto emocional profundo desse enredo exige a experiência da leitura integral da obra, onde a densidade do conflito e a dor do protagonista — culminando em seu gesto extremo de autoexílio e automutilação — se revelam em toda a sua complexidade.

Por outro lado, quando Aristóteles aborda a comédia, ele tampouco se limita a uma mera piada de final feliz. Para ele, a comédia é a dramatização do ridículo, focando em imitações de caracteres inferiores, mas não em toda a sua vileza, retendo apenas a parcela do vício que provoca o riso. Autores clássicos como Aristófanes demonstram exatamente isso: suas comédias não apenas divertiam, mas também exploravam com profunda ironia temas filosóficos e históricos fundamentais. Em suma, tanto a tragédia quanto a comédia na antiguidade clássica tratavam de complexidades humanas muito mais refinadas do que a redoma simplista dos finais felizes ou tristes, revelando a grandeza de um cânone que continua desafiando e enriquecendo a nossa compreensão da arte e da condição humana.