A jornada épica e alucinante descrita no clássico ciclo onírico de H.P. Lovecraft tem como protagonista Randolph Carter, um sonhador lúcido e alter ego filosófico do próprio autor, cuja obsessão é reencontrar a misteriosa e majestosa cidade dourada que ele avista repetidamente em seus sonhos. Após ser brutalmente arrancado dessas visões e receber apenas silêncio dos deuses ao implorar por respostas, Carter decide tomar uma atitude impensável: ir até Kadath, a mítica morada dos deuses situada no Mundo dos Sonhos, para confrontá-los pessoalmente, mesmo que ninguém jamais tenha alcançado tal destino. Sua descida começa pelos setenta degraus que separam o mundo desperto das terras oníricas, onde os sacerdotes Nast e Kamanta o alertam sobre os perigos mortais da empreitada, insinuando que a própria visão da cidade pode ter sido ocultada por um motivo sombrio.
A partir daí, a narrativa se desenrola como uma opopéia através de maravilhas e horrores cósmicos. Ao adentrar a floresta encantada, Carter demonstra sua imensa experiência ao comunicar-se fluentemente com os Zugs, criaturas roedoras e inteligentes que poderiam devorá-lo, mas que acabam por direcioná-lo ao velho sacerdote Atal, na cidade de Ulter — o famoso refúgio onde é proibido matar gatos. Atal revela a existência de uma colossal escultura nas encostas do monte Engranek, cujos rostos esculpidos retratam as feições dos próprios deuses. Para encontrar Kadath, Carter deve primeiro avistar tal escultura e, posteriormente, cruzar com mortais que possuam traços semelhantes. É em sua busca por um navio rumo à ilha de Orob em Dylath-Leen, uma capital gótica e cosmopolita do mundo onírico, que a jornada toma um rumo sinistro.
O horror característico do universo lovecraftiano se intensifica quando Carter é capturado por homens de turbante em navios negros de Dylath-Leen e transportado não para Kadath, mas para a Lua. Lá, ele é entregue às bestas lunares e conduzido para um encontro com Nyarlathotep, a entidade cósmica e mensageira dos deuses exteriores. No entanto, os captores subestimam a profunda ligação de Carter com os gatos, criaturas oníricas de altíssima consciência, hierarquia e poderio militar. Em uma reviravolta espetacular, os felinos invadem a Lua, massacram as bestas lunares e resgatam Carter, provando que o mundo dos sonhos responde a leis próprias e implacáveis. De volta à terra firme, Carter finalmente escala o monte Engranek, contempla escondido o gigantesco rosto dos deuses e, logo em seguida, é capturado por um *night-gaunt*, sendo lançado às profundezas do submundo no vale de Pnoth.
O submundo revela-se um labirinto aterrorizante habitado por criaturas avessas à luz, como os Ghouls. Entre eles está Richard Pickman, um velho conhecido de Carter transformado em Ghoul, que o ajuda a tramar uma rota de fuga. A dupla precisa atravessar a ciclópea cidade dos Gugs — gigantes monstruosos com mandíbulas verticais — e subir a torre de Kof para retornar à superfície, tudo isso em meio a uma caçada mortal e a um confronto sangrento entre Gugs e Ghasts. De volta à floresta encantada, Carter retribui o auxílio dos gatos ao alertá-los sobre um ataque iminente dos Zugs, consolidando uma aliança estratégica com os felinos e os Ghouls. Seguindo viagem até a cidade de Thraa e, posteriormente, a Celefais, onde reencontra o imortal rei Kuranes — que personifica a nostalgia melancólica pelo mundo desperto —, Carter embarca rumo à gélida e inóspita Inquanok, enfrentando novos perigos nas pedreiras de ônix e ouvindo os uivos premonitórios da temida Rocha Sem Nome.
A reta final da busca coloca Carter frente a frente com o temível Planalto de Leng, onde ele é novamente capturado pelo misterioso homem de olhos oblíquos e conduzido a um mosteiro liderado por um sumo sacerdote innominável. Ali, ele descobre que os homens de Leng e as bestas lunares operam em uma vasta conspiração interconectada, servindo a forças primordiais ainda mais antigas que os próprios deuses da Terra. Após escapar por pouco dessa prisão monástica, Carter reúne seus aliados ghouls e comanda uma invasão à Rocha Sem Nome, derrotando as bestas lunares e garantindo o apoio de uma tropa de *night-gaunts* para levá-lo pelo ar diretamente ao seu destino final. Ao aterrissar em Kadath, a morada dos deuses, Carter depara-se com uma revelação desconcertante: a cidade está completamente vazia. Um deus disfarçado surge para manipulá-lo com falsas promessas, tentando convencê-lo de que a cidade que ele tanto buscava era, na verdade, Boston, em uma última tentativa ardilosa de Nyarlathotep para entregá-lo aos antros do temível Azathoth. No último instante, o feitiço é desfeito, Carter compreende a verdadeira natureza da ilusão e é despertado, concluindo uma saga monumental que expande os limites da imaginação fantástica e consolida o horror cósmico de Lovecraft em sua forma mais pura e inventiva.