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006 ORÁCULO DE ANTHARES • O que é o leitor moderno? • PANDA

006 ORÁCULO DE ANTHARES • O que é o leitor moderno? • PANDA

Neste episódio do Oráculo de Antares, o Panda responde a uma pergunta sobre o conceito de leitor moderno e como ele se formou historicamente. A reflexão aborda a divisão entre a forma e o conteúdo na literatura e propõe uma forma integrada de leitura.

O leitor moderno é o herdeiro de uma bifurcação histórica na literatura que separou a forma e o fundo. Existe um conceito basilar na teoria literária de que a forma e o fundo são os dois lados de uma mesma moeda. A forma compreende os grafemas, palavras, pontuação, sintagmas, frases, parágrafos, estrofes e versos — enfim, a parte superficial e visível da escrita. O fundo, por sua vez, é o conteúdo, aquilo que fica embaixo da forma, sobre o qual ela fala ou que nos dá a pensar.

Em algum momento da história, contudo, houve uma bifurcação em que as pessoas passaram a priorizar apenas um desses lados, deixando de trabalhar ambos em conjunto. Por um lado, temos a literatura usada como um meio para transportar ideias, servindo a uma militância filosófica, política ou de contracultura. Nesse caso, o que importa não é como se escreve, mas sobre o que se escreve; a literatura funciona como um meio doutrinal ou um chamado à ação e ao pensamento, transmitindo uma mensagem que opera abaixo do radar do leitor para capturá-lo por meio da ideia.

Por outro lado, temos o extremo oposto: o formalismo focado puramente na experimentação com as formas. É a aplicação estrita da máxima de que não importa o que se fala, mas como se fala. Trata-se do leitor meramente interessado no agenciamento das palavras para alcançar uma leitura centrípeta, que existe para mantê-lo aprisionado ali dentro através da própria estrutura estética, e não por algo externo.

Podemos ilustrar essa divisão usando a alegoria da Caverna de Platão de duas maneiras distintas. O leitor fundamentalista (focado no fundo) é como alguém que está dentro da caverna, farto das sombras, das algemas e da escuridão; ele quer sair para a luz do sol em busca de algo substancial, transcendente, seja para resolver traumas, aprender a ficar rico ou mudar de vida. Ele entra na ficção para sair dela e alcançar algo superior. Já o leitor formalista é o inverso: ele está lá fora, sob o sol escaldante de uma planície infinita e exaustiva, sem sombra ou abrigo. Sentindo calor e sede, ele avista uma caverna escura, úmida e fresca onde há pessoas projetando sombras na parede. Ele desce para a caverna justamente para se abrigar, fugindo da realidade exterior e buscando o aconchego daquela jaula confortável.

O leitor moderno tem extrema dificuldade em conviver com essas duas coisas simultaneamente ou em transitar entre elas. Ou ele está embriagado pelo conteúdo a ponto de desprezar a forma, ou está absorto na ficção pura a ponto de rejeitar qualquer factualidade. Ambos os extremos são problemáticos.

A solução para superar essa condição não é escolher um lado, mas procurar ambas as coisas no texto. Forma e fundo não são verdadeiramente separáveis em uma leitura profunda. O ideal é realizar um movimento diagonal, uma leitura que una a horizontalidade da superfície formal com a verticalidade do conteúdo profundo. Desse modo, o leitor permite-se apreciar tanto a maneira como a obra é escrita quanto aquilo sobre o que ela trata.