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006 ORÁCULO DE ANTHARES • O que é o leitor moderno? • PANDA

006 ORÁCULO DE ANTHARES • O que é o leitor moderno? • PANDA

Sejam bem-vindos ao sexto Oráculo de Antares. Eu, o Panda, vosso oráculo, a voz por onde falam os deuses etos dos céus superiores eternos de Antares. Hoje eu vou responder a uma pergunta só, porque eu já respondi várias aqui que me fizeram e eu não estou conseguindo mais distinguir aquelas que eu respondi e aquelas que eu não respondi. Eu vou ter que dar um jeito de descobrir quais são quais. Mas tem uma aqui que me mandaram recentemente que eu sei que eu não respondi, essa que é interessante, então vou responder só essa hoje, e na semana que vem eu vejo como é que eu faço. Vamos lá.

Panda, o que você acha que é o leitor moderno e por que ele é como ele é?

Eu diria que o leitor moderno, o leitor contemporâneo por assim dizer, o leitor dos nossos tempos aqui agora, eu diria que ele é o produto, a criança, o herdeiro de uma bifurcação. Como assim? Existe um conceito na teoria literária que é um conceito basilar, assim, né? Existem razões para você pensar isso aqui, mas não tem nenhuma prova exata, total, as demonstrações nunca são suficientes, mas mesmo assim é a ideia de que a forma e o fundo são os dois lados de uma mesma moeda.

Como assim? O que que é forma? O que que é fundo? Forma, simplesmente, são os grafemas na página: letras, palavras, sinais de pontuação, tudo isso aí compõe a forma. A forma também vai se expandindo para sintagmas, proposições, frases simples, frases complexas, sequências de frases, parágrafos e, mas aí também inclui estrofes, versos, enfim. A forma é isso, é aquilo que você está vendo na página mesmo, são as palavras, sequências de palavras, conjunto de palavras, letras, conjunto de letras, sinais de escrita e pontuação, enfim. Isso é a forma, é a parte superficial da escrita. E o fundo é o conteúdo, seria aquilo que ficaria, por assim dizer, embaixo da forma, aquilo sobre o qual a forma fala ou que ela dá a pensar, ou o conjunto de coisas que ela dá a pensar e tal. Isso seria o fundo, o conteúdo.

O leitor moderno é a criança, o filho, o herdeiro de uma bifurcação, porque parece que, em dado momento — eu acho que isso existe desde sempre, mas parece que já ali, cara, eu acho que já para o início do século XIX, não, já tem antes, enfim, em vários momentos da história você vai ter isso, no século XVIII, no XIX, na medievalidade, na antiguidade, enfim —, mas teve alguma última bifurcação que tem mostrado a história várias vezes na literatura, que é a de você priorizar somente a forma ou somente o fundo. Você não está mais interessado em trabalhar as duas coisas juntas, vai trabalhar só uma delas.

Então você vai escrever uma história para falar sobre alguma coisa — e não precisa nem ser história, pode ser poesia, teatro, ensaio, autobiografia, ou simplesmente ensaio, observações, ensaio no geral, ou narrativa mesmo, conto, romance, crônicas, novelas, enfim —, você vai usar a literatura como um meio para transportar ideias. Então você vai usá-la prioritariamente como meio para uma certa militância filosófica, política ou de contracultura, ou tudo isso junto, misturado, mas nem sempre, por vezes dá para separar direitinho ali. Você vai usá-la como meio, ou seja, o que você está escrevendo ali não importa tanto quanto *como* você escreve; o que importa é somente *sobre o que* você está escrevendo. A literatura como um meio de comunicação dissimulado, por assim dizer, ou um meio de comunicação ilustrativo, um meio doutrinal, um meio de chamado à ação ou chamado ao pensamento. "Eu quero que você pense, eu quero que você entenda melhor as coisas, ou eu quero te ensinar, quero te dizer o que fazer ou como viver", algo assim. Enfim, a literatura tentando principalmente te passar a mensagem de uma maneira que fica abaixo do teu radar — ao menos idealmente —, para que você não perceba o que aprendeu com aquilo até terminar. E aí, quando terminou, você já gostou da ideia e idealmente estaria cativado, preso àquela ideia, e aquilo se tornaria parte de você. Bem, o autor teria conseguido fazer o que queria fazer, ter um lugar na sua vida.

E o outro lado da bifurcação é o lado da forma, é o lado integralmente da experimentação com as formas, ou seja, vale tudo na maneira de escrever. Sabe aquele lema, aquele mantra que existe para um monte de coisa, que é "não importa o que você fala, importa como você fala"? Seria isso, mas restringindo à escrita: "Não importa o que você escreve, o que importa é *como* você escreve". E aí você tem esse outro lado da bifurcação, que é um formalismo extremo — aqui "formalismo" não no sentido dos trabalhos de Roman Jakobson, de Tzvetan Todorov, de Vladimir Propp ou de outros mais, não. Aqui "formalismo" é no outro sentido, no sentido de você olhar meramente para as formas e trabalhar somente com elas na prática da escrita, não na teoria, ou às vezes na teoria, mas uma teoria para a prática. E aí isso já difere do formalismo russo, do formalismo francês e outros formalismos.

Serão aquelas pessoas que estão interessadas meramente em *como* contar uma boa história. O leitor moderno está meramente interessado no agenciamento das palavras para alcançar o fim de uma leitura integralmente — ou ao menos principalmente — centrípeta: ela existe para te manter ali dentro, para te aprisionar ali dentro. Ela também quer te cativar, mas quer te cativar com aquilo ali, não com alguma coisa para fora. Então o leitor moderno, na acepção fundamental — no sentido de fundo, de fundamento, de conteúdo —, é um leitor centrífugo. Ele quer entrar na ficção para sair dela e alcançar algo superior a ela, talvez transcendente. Pode ser uma transcendência espiritual, metafísica — mesmo que seja psíquica, um metafísico puramente mental —, uma transcendência psíquica, mas não metafísica. Ele quer sair de lá, quer se livrar de um trauma, de uma certa maneira de pensar, de um certo *mindset*, ou quer se livrar da sua condição financeira, quer aprender a ficar rico, conseguir dinheiro, conseguir mulher, seja o que for. Então ele está entrando para sair, entendeu? Ele vai ler o que vai ler para conseguir algo *fora* do que ele está lendo.

E o outro lado é o leitor formalista, que é o leitor que vai entrar naquilo ali para ele *fugir* do que não é aquilo ali. Ele quer fugir de todo o resto que não é aquilo ali, e quanto mais um livro consegue aprisioná-lo ali dentro, colocá-lo nessa jaula super confortável — essa jaula da qual ele não quer sair, essa espécie de caverna platônica de imagens —, mais ele adora aquele livro.

Daria para usar o esquema da caverna de Platão para os dois leitores, só que é como dizer que um está fora da caverna e o outro está dentro. O leitor fundamental está dentro da caverna, ele não aguenta mais a escuridão, não aguenta mais ver as sombras passando da direita para a esquerda, se mexendo, mudando, sumindo e aparecendo do nada; ele não aguenta mais as algemas dele, ele quer cair fora, quer alguma coisa mais substancial que aquilo, aí ele sai da caverna, vê o sol e fala: "Olha que maravilha!". Já o leitor formalista é o cara que está fora da caverna, está no sol, está quente, está horrível, não tem uma sombrinha, não tem uma árvore, é só a planície verde, o sol e as nuvens, e: "Meu irmão, eu não aguento mais ver esse dia ensolarado que não fica de noite, eu quero um pouquinho de escuridão, eu quero coisas pequenas, é muita imensidão!". Não é uma planície verdejante que não acaba, que não tem fim, você anda para qualquer direção e não acaba nunca, não tem nada para fazer, é um lugar muito bonito, tem um ventinho gostoso, bem ensolarado, mas caramba, sabe, eu queria algo menor. E os raios solares estão queimando a pele, está ficando calor, estou suando aqui, dando sede, e ele encontra uma caverna bem profunda, bem úmida, bem geladinha, escurinha, com um pouquinho de luz ali para ele ver, tem umas formas ali, um pessoal fazendo a brincadeira de botar as formas em frente a uma fogueira, e a sombra fica projetada na parede, e ele fala: "Olha que legal, coisas pequenas, coisas fáceis de entender aqui", e ele desce para a caverna para ficar ali dentro.

Entendeu? O leitor moderno é isso, ele tem uma dificuldade em juntar essas duas coisas, em conviver com essas duas coisas, em estar entrando e saindo da caverna. Sabe, ele parece que ficou tempo demais em um dos dois lados e agora quer o máximo ficar no outro. Me parece que é isso, sabe? É o pessoal do "não, mas não importa a análise textual, o que importa são os universais, são as verdades eternas que estão escritas aqui em *Crime e Castigo*"; e o outro que é o cara do "não, mas não importa se tem algo de útil ou interessante aqui para mim, ou algo que vai me fazer questionar a minha vida ou o mundo ao meu redor, ou a minha fé religiosa, o que importa é que seja divertido, que seja cativante, um suspense maneiro que me faça chorar, que me faça esquecer, porque a vida já é difícil o suficiente, eu quero me divertir, eu quero ser absorto nisso aqui, porque eu não suporto o factual, eu quero a ficção em absoluto".

Me parece que é isso, me parece que é alguém que ou está embriagado demais, ou está sóbrio demais. O leitor moderno é a criança, o filho de uma bifurcação, e não importa o lado para onde você vai, os dois lados são horríveis.

Qual que é a solução? A minha solução — por isso que eu não me considero um leitor moderno, embora seja contemporâneo, óbvio —, a minha solução é você procurar ambas as coisas no texto, é você procurar abrigar as duas, é você não tentar separar as duas coisas, a forma e o fundo, porque elas não são exatamente separáveis, elas não são verdadeiramente separáveis. Quando você vai fazer uma análise textual num texto — não uma análise para saber como escrever, mas uma análise para conseguir ler com mais profundidade aquele texto ali —, ela é uma profundidade tanto horizontal na superfície, uma profundidade formal, quanto uma profundidade vertical no fundo, no conteúdo, nos fundamentos da obra, assim por assim dizer. E aí é de certa maneira um movimento diagonal, assim, tipo assim, ó: na diagonal, entendeu? Porque você está indo na horizontal e na vertical ao mesmo tempo. É um movimento diagonal, é uma leitura diagonal na qual você vai se permitir apreciar tanto a maneira como está escrita uma obra quanto aquilo sobre o qual está escrita a obra, você vai gostar das duas coisas.

Me parece que é o jeito. Só que isso exige uma maneira de ler que eu acho que eu vou falar sobre isso na próxima vez — aí não vai ser responder uma pergunta. Mas ainda assim eu acho que vale a pena, então eu vou terminar este vídeo aqui agora e no próximo, ao invés de responder as perguntas, eu falo como seria essa maneira de ler. Qual que é a maneira de ler que permite que isso aqui aconteça, que permite que você faça essa leitura diagonal? Uma leitura que procura tanto a superfície quanto o fundo da coisa — ou, se quiser, uma leitura em ondinha, que vai para o fundo, vai para a superfície, a imagem que você quiser assim.

E é isso. Eu acho que esse foi o quinto episódio — se não foi o sexto —, e se foi o quinto, eu fico por aqui. Muito obrigado por ter escutado, e se tiver perguntas para fazer, é só mandar. Pode ser aqui nos comentários, pode ser no nosso canal do Telegram, no meu privado no Telegram ou no do Lucas Rabelo. E é isso, até mais.