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“A Revolução dos Bichos” é atemporal! [GEORGE ORWELL] ••• Rayhan Chamoun

A Revolução dos Bichos: Por que a obra é atemporal?

O influenciador compartilha suas impressões de leitura sobre o clássico "A Revolução dos Bichos", de George Orwell, destacando como a simplicidade da fábula serve de veículo para profundas críticas políticas e sociais que permanecem atuais. A obra é analisada não apenas por seu valor literário, mas pela capacidade de traçar paralelos duradouros com sistemas de opressão e com a realidade política contemporânea.

No vídeo de hoje, fujo um pouco do nosso tema usual, que são os contos de Lovecraft, mas eu precisava comentar sobre este livro. Eu já li algumas outras obras nesse meio tempo, mas precisava falar especificamente de *A Revolução dos Bichos*, de George Orwell, porque achei a leitura extremamente interessante e que vale uma discussão. Curiosamente, foi o primeiro contato que tive com o autor. Não foi por falta de interesse, mas por conseguir encaixar a leitura na minha agenda em meio a tantas outras ao longo do ano.

Gostei muito do livro, mas não tanto do ponto de vista estritamente literário. Embora a narrativa seja interessante e simples de maneira proposital, o grande mérito de Orwell nessa fábula é discutir temas políticos profundos sobre o totalitarismo, fazendo uma crítica ferrenha e uma analogia direta ao regime soviético. É fascinante como uma obra criada como crítica em um determinado contexto histórico continua tão atual.

Como a história é bem simples e acessível — uma escolha proposital de Orwell, já que as fábulas são compreendidas em muitas culturas por meio de uma linguagem acessível e em um formato curtinho —, a trama serve essencialmente como plano de fundo para a discussão dos temas políticos. Basicamente, a história se passa em uma granja no interior da Inglaterra, administrada por um fazendeiro incompetente e alcoólatra. Um dos porcos da fazenda tem a visão em sonho de um futuro utópico, em que os animais não precisariam depender dos humanos e poderiam viver de forma muito mais feliz. Os bichos decidem se rebelar contra o dono, obtêm êxito e estabelecem um sistema político que lembra o comunismo ou o socialismo.

Embora o próprio Orwell fosse socialista, sua crítica recai duramente sobre o regime estalinista. No entanto, entrar em distinções teóricas entre estalinismo e leninismo tornaria o vídeo longo demais, então a discussão se centraliza em como essa visão idealizada inicial vai se deturpando. Os porcos, representando claramente a figura ditatorial que explora a classe trabalhadora, corrompem o projeto original ao longo da narrativa.

O que achei mais interessante é como conseguimos traçar paralelos claros com os dias de hoje. Um leitor da época certamente se identificava com as críticas à polarização política vigente, mas hoje conseguimos fazer o mesmo exercício olhando para a realidade do Brasil, dos Estados Unidos ou de qualquer outro canto do mundo. A obra é impactante justamente por isso: analisada apenas como fábula, ela é uma história comovente, mas o verdadeiro impacto está em como o autor utiliza a simplicidade da narrativa para convidar o leitor à reflexão.

Apesar de ser um livro curtinho, demorei cerca de duas semanas para ler, porque cada página deixava aquela pulga atrás da orelha: quantos paralelos não conseguimos traçar com o que acontece ao nosso redor? No final do livro, os animais explorados olham para os porcos e para os humanos e já não conseguem diferenciar quem é quem; os porcos agem da mesma forma que os antigos donos, e a exploração continua idêntica. Muitas pessoas reduzem a discussão a um debate simplista entre capitalismo e comunismo, mas o foco real é o totalitarismo. O livro termina com um gancho inteligente — refletindo uma suposta reconciliação que ocorria na época entre aquelas potências —, deixando para o leitor imaginar os desdobramentos futuros, que a própria história da Guerra Fria viria a confirmar.

Outro ponto que mais me chamou a atenção foi como o autor deixa claro que a falta de educação e a doutrinação dos animais explorados contribuem para a consolidação do regime imposto pelos porcos, chamado de animalismo. A percepção dos diferentes bichos é fascinante. Temos os cavalos, as galinhas e as ovelhas na labuta diária para sustentar uma classe minoritária que só explora. Personagens como a égua Mimosa e o corvo representam a apatia ou a alienação diante dessa realidade. O burro, por sua vez, é um personagem excelente porque desde o início tem a percepção cética de que, independentemente de quem esteja no poder, eles vão se dar mal. É trágico e cômico ao mesmo tempo, pois ele acaba estando certo, e muitos animais sofrem muito mais do que sob o *status quo* anterior.

A obra é extremamente provocativa. Meu personagem favorito é o cavalo Sansão, que é genuinamente bom, quer o melhor para a granja, mas acaba sendo manipulado por Napoleão — o porco que disputa o poder com Bola de Neve. Ambos acreditam no animalismo, mas nessa guerra política acabam usando os demais animais como massa de manobra. O contraste físico também é curioso: os porcos são os mais fracos fisicamente e essencialmente não têm poder produtivo, mas se apropriam do esforço alheio para garantir seus próprios interesses, beneficiando apenas a sua própria classe. Sansão representa o instinto de revolta daquele que trabalhou a vida inteira acreditando em uma recompensa futura que nunca chega. A morte de Sansão me deixou genuinamente revoltado com a crueldade daqueles porcos.

O próprio texto aponta que os porcos acabam não sendo melhores do que os humanos que os antecederam; quando os humanos visitam a granja, comentam que os animais ali trabalham mais e consomem menos do que em qualquer outro lugar. Isso traz a dura crítica de que, independentemente do sistema político, o proletariado sofre de um jeito ou de outro. Orwell conseguiu criar uma narrativa tão universal que pode ser transposta para diversos sistemas políticos e religiosos que se assemelham às situações abordadas no livro.

O posfácio, no qual o autor esclarece as circunstâncias e os motivos de cada elemento da história, também é excelente de ler. Em suma, a definição perfeita para este livro é que ele é universal e atemporal. Do ponto de vista literário, a história é simples, o que pode agradar a uns e desagradar a outros, mas o valor real está na discussão filosófica e política que ele propõe. Se você gosta de debater ideias e é um cidadão antenado com a política, este livro é um prato cheio.

Deixem nos comentários o que acharam da obra, se concordam ou discordam dos pontos apresentados. Eu gostei demais da leitura e mal posso esperar para continuar explorando a obra de George Orwell — ainda preciso ler *1984*, embora o universo de Lovecraft também esteja me chamando para novos vídeos. Vale lembrar que o canal já conta com uma live recheada de conteúdo sobre este livro, conduzida pelo Lucas, servindo como um excelente complemento. É isso, vejo vocês nos próximos vídeos!