O mistério do cemitério. Esse é um conto do Lovecraft que já começa com o funeral, mas ele escreveu esse conto quando ele ainda tinha 8 anos. Fazia algumas semanas só que o pai dele tinha morrido. E aí, faz sentido para você isso? Pois é. Nesse vídeo a gente vai fazer uma análise psicológica do Lovecraft. Depois de te mostrar como foi esse segundo conto que ele escreveu logo depois que o pai dele faleceu — nessa nossa jornada vendo os contos do Lovecraft em ordem cronológica para investigar a evolução da sua escrita e também desse universo que a gente chama de terror cósmico lovecraftiano, esse universo onde nós humanos existimos, mas também existem o Dagon, o Cthulhu, o Nyarlathotep e outras criaturas horrendas que todo mundo gosta —, esta aqui, especificamente, é uma história intrigante pelo contexto em que ela foi escrita, muito antes do Lovecraft sequer pensar nas histórias mais conhecidas que ele escreveu. Este aqui é o nosso quinto vídeo da minha playlist sobre Lovecraft. No quarto vídeo, eu mostrei tudo o que aconteceu de mais traumático na vida do Lovecraft até os 7 anos, incluindo a morte do pai dele, e expliquei também como foi que, desde pequenininho, ele começou a se interessar por escrita ficcional. O vídeo está muito bom, assista depois que você terminar este aqui. Eu já vou entrar no conto deste vídeo, mas quero só te lembrar de uma coisa que aconteceu no terceiro vídeo dessa série, que é o sobre o primeiro conto que o Lovecraft escreve logo depois que o pai dele morre: A Caverna Secreta. Não à toa, é o primeiro conto com uma morte trágica na obra do Lovecraft, e a morte que acontece nele é descrita de uma forma super fria. O próprio tom do conto, que é extremamente pessimista, é de arrepiar, como vimos no vídeo. Semanas depois, o Lovecraft faz aniversário e escreve o conto que vamos ver agora.
O conto O Mistério do Cemitério já começa com um funeral, com pessoas tristes lamentando a morte de um tal Joseph Burns, que antes de morrer deixou algumas instruções muito claras sobre o seu enterro: "Antes de colocarem meu corpo no túmulo, soltem esta bola no chão, no local marcado com a letra A." Nessa ocasião, ele entrega também uma bolinha dourada para o reitor Dobson. Só um detalhe: o texto do Lovecraft diz "túmulo" ou "tumba" em inglês, mas é mais como uma cripta, uma câmara subterrânea. Depois do sepultamento, o reitor Dobson diz que vai fazer o que o defunto pediu e entra na câmara. No entanto, as pessoas começam a ficar preocupadas porque ele simplesmente não volta, ao ponto de um advogado que estava por lá, Charles Green, descer até o local para ver o que tinha acontecido. Ele rapidamente retorna com um olhar super assustado, dizendo que o reitor Dobson simplesmente não está lá. É assim, com um funeral e um mistério, que começa esse conto do Lovecraft. Até aqui, tenho que admitir que a ideia é muito legal, ainda que eu tenha algumas ressalvas sobre o próprio texto escrito, mas vamos continuar.
No outro dia, toca a campainha na mansão dos Dobson com alguém pedindo para ver a filha do reitor desaparecido. O homem se apresenta como o senhor Bell e já chega dizendo que sabe exatamente onde o pai dela está e que, por dez mil libras, ele libera o pai dela. A moça imediatamente entende que se trata de um sequestro e liga correndo para a delegacia atrás de um detetive chamado King John. Na mesma hora, alguém entra na delegacia gritando que alguma coisa aconteceu lá no cemitério. Só que o narrador não quer contar para a gente agora; ele faz voltarmos à mansão. Lá, enquanto o senhor Bell tenta se explicar para a filha de Dobson, o detetive King John aparece chutando a porta com duas armas, uma em cada mão. Isso assusta Bell, que pula pela janela e sai correndo.
De volta à delegacia, aquele homem que havia entrado gritando conta que viu três homens no cemitério perguntando por um tal de Bell e resolveu segui-los para ver o que faziam. Eles entraram na cripta de Burns, ele foi atrás e viu quando apertaram a letra A no chão, fazendo com que todos desaparecessem. Nessa hora não é muito bem explicado, mas depois entendemos que o lugar era bem escuro, o que justificaria o sumiço repentino. De qualquer forma, esse foi o relato feito na delegacia. Enquanto isso, na mansão, o detetive persegue Bell até uma estação ferroviária. Bell consegue escapar em um trem, e o detetive vai a cavalo atrás, sem que o fugitivo saiba. Chegando a outra cidade, Bell se encontra com alguns cúmplices, mas o detetive os alcança, dá voz de prisão a Bell, e então temos um salto temporal direto para o julgamento.
Em um dado momento do julgamento, o juiz pergunta a Bell onde estava Dobson. Do nada, uma voz no meio da multidão diz: "Eu estou aqui." Era o próprio Dobson. Com todos querendo saber o que aconteceu, ele dá sua explicação: logo que soltou a bola na marca A, um alçapão se abriu, um homem saiu de lá, puxou-o para dentro e o prendeu até aqueles dias. Esse homem era ninguém menos que o próprio Bell, que estava ali sendo julgado. Dobson contou que certa vez deixou a chave do alçapão para trás, usou-a para fazer uma cópia em cera e passou dias lixando outra chave até caber na fechadura para conseguir escapar, o que aconteceu justamente no dia do julgamento. O juiz pergunta que motivo Burns teria para prendê-lo, e Dobson responde que os dois irmãos Burns queriam fazer algo contra ele havia muitos anos; ele sabia que estavam conspirando, e aquilo foi o que conseguiram executar. O juiz pede a prisão perpétua dos culpados, e o narrador conclui informando que a filha de Dobson acabou se casando com o detetive King John. É assim que acaba o conto do Lovecraft. Aliás, após a palavra "fim", o manuscrito original ainda traz: "Preço: 25 centavos", revelando o lado empreendedor do jovem Lovecraft que vimos em vídeos anteriores. Se você quiser entender o motivo disso, dê uma olhada nos vídeos passados, pois você não vai encontrar análises de contos do Lovecraft feitas do jeito que fazemos aqui.
A partir daqui, quero fazer uma análise psicológica deste conto, inclusive porque é o contexto dessa escrita que o torna realmente muito interessante para mim. Vamos começar com o óbvio: o pai do Lovecraft morreu em 19 de julho de 1898, após passar cinco anos internado em um hospital psiquiátrico — pesado para caramba. O conto foi escrito nesse mesmo ano, poucas semanas depois: o pai morre em julho, Lovecraft faz aniversário em agosto e, dias depois, já escreve esse material. O que me deixa mais intrigado ao ver este conto especificamente é perceber o seguinte: o primeiro conto que ele escreveu logo após a morte do pai foi A Caverna Secreta, com um pessimismo brutal e uma narração fria da morte de uma criança. À primeira vista, pareceria que Lovecraft havia abandonado completamente o tom trágico para escrever uma aventura de detetive cheia de energia, mas não é bem isso que acontece. Então, como explicar essa virada de um conto para o outro?
O dado fundamental para entender isso é o seguinte: com dois anos de idade, Lovecraft é informado de que seu pai está internado, e apenas ao longo dos meses e anos ele entende que o pai não voltará para casa. Só que, quando compreende isso, o pai já não faz tanta falta, pois a ausência começou quando ele tinha dois anos. Ou seja, aos sete, quase oito anos, quando seu pai morre, o impacto não foi o de uma criança normal cuja figura paterna simplesmente falece; aquele não era um pai presente. Era um homem de quem ele talvez se lembrasse vagamente e que sabia existir lá longe, mas que agora deixava de existir de vez. Alguns biógrafos conjecturam que ele possa ter visitado o pai uma ou outra vez quando pequenininho, embora o próprio Lovecraft o negasse. Mas há duas questões: talvez ele realmente não se lembrasse de ter ido visitar o pai aos dois ou três anos, e, mais importante ainda, durante todo o período de internação, o pai provavelmente nem esteve em condições de receber visitas, muito menos de uma criança pequena. É bem provável que a família tenha protegido Lovecraft dessa realidade.
Isso nos faz entender de forma diferente qual foi a sensação de luto que ele teve. Não temos como saber exatamente o que sentiu, mas com certeza não foi aquele luto devastador que as pessoas geralmente sentem; foi mais o encerramento de uma ausência que já durava cinco anos. Quer dizer que para ele foi simples e tranquilo? Claro que não, tanto é que ele escreve A Caverna Secreta com uma morte trágica. A morte do pai mudou as coisas, mas o pai era aquela figura quase mítica que existia nas histórias, sem estar presente na rotina havia muito tempo.
Foi isso que me fez olhar para a estrutura deste conto quase como um mecanismo de defesa. Veja o que uma criança de oito anos faz aqui: ela pega a morte — colocada logo no primeiro capítulo, na primeira linha — e a transforma no palco para uma outra história, com uma relação muito interessante para analisarmos psicologicamente. Joseph Burns já começa morto, mas essa morte não é trágica; ela acaba sendo apenas uma engrenagem, uma desculpa para a próxima história que ele quer contar. Há um significado psicológico muito profundo aqui, pois Lovecraft parece querer enxergar na morte do pai algo muito mais determinante do que foi. Ele enxerga o pai, ou a morte dele, como algo que ainda controla os vivos. Burns não é uma figura passiva; ele é o agente central dessa história, mesmo não sendo o protagonista. Não sabemos as circunstâncias da morte de Joseph Burns, mas sabemos que o enterro foi planejado e deliberado. Será que não era isso que Lovecraft queria pensar sobre a morte do pai? Analisando friamente, o que aconteceu com o pai dele foi o oposto: de um dia para o outro, ele simplesmente desapareceu após um colapso psicótico, foi embora sem dizer nada ao filho, sem se despedir, sem deixar legado ou recado, e anos depois morreu.
O segundo ponto psicológico interessante é que quem resolve tudo é a filha do desaparecido. Esse elemento pode ser perturbador se imaginarmos que Lovecraft está se projetando nessa menina, pois ela é a protagonista emocional do conto. É o pai dela que desaparece, mas é ela quem mantém a cabeça fria, contata o sequestrador, enfrenta o vilão com lucidez, chama o detetive e, no final, se casa com o herói, King John. O pai dela, que descera ao túmulo e cuja situação era incerta — ele poderia estar morto, mas estava preso e sem forças para sair dali —, retorna em segurança. Parece haver aqui um desejo muito claro, que uma criança de oito anos mal saberia nomear, mas que estrutura a fantasia inteira: "E se o meu pai não tivesse morrido? E se ele na verdade só precisasse de ajuda, de alguém para tirá-lo de lá?"
Isso é um pouco tocante demais para o objetivo deste vídeo. No primeiro conto escrito após a morte do pai, A Caverna Secreta, é como se Lovecraft tivesse descido ao subterrâneo sem proteção nenhuma, retornando com aquele texto pessimista e brutal. Desta vez, ele também desce ao subterrâneo — e não é à toa que nas duas tramas isso acontece literalmente —, mas inverte o resultado. Ninguém morre, tudo se resolve: o vilão é preso, o pai é resgatado, o herói se casa. Há até detalhes de humor acidental, como o coxeiro que negocia o preço da viagem com o detetive, ou o vilão que se assusta e pula pela janela. Esses detalhes me parecem exatamente o tipo de humor que uma criança usaria para se distanciar de um assunto difícil, insuportável. E eu não estou inventando isso: tenho uma filha de três anos que faz exatamente a mesma coisa toda vez que precisa.
Tem um detalhe neste conto que realmente me fez pensar: o segundo título. Assim como vários contos de Lovecraft, este tem dois títulos possíveis anotados em seu manuscrito original. O primeiro é O Mistério do Cemitério; o segundo é A Vingança de um Homem Morto. A ideia central aqui não é o cemitério, é a vingança. Isso parece entregar outra camada psicológica densa: Joseph Burns, que morre no início, arquitetou uma forma de se vingar de Dobson e obteve sucesso. Um morto tem poder sobre o mundo dos vivos, ainda age e impacta a realidade deles. Talvez possamos ler nisso um eco do que Lovecraft sentia em relação ao pai: uma figura nunca presente no dia a dia, mas que de alguma forma ainda organizava o mundo ao redor da família, determinando o destino de todos e lançando sua sombra sobre as decisões da mãe, das tias e do avô.
Embora na minha pesquisa biográfica eu não tenha encontrado nada muito robusto relacionando este conto diretamente à morte do pai — sendo este um território pouco explorado, o que me dá certa liberdade para falar —, não quero exagerar em uma análise psicológica profunda demais de uma criança de oito anos. Fato é que aprendemos bastante com este conto, especialmente ao analisá-lo no contexto de seus textos anteriores. Acompanhando desde o primeiro vídeo, vemos uma progressão coerente: em The Little Glass Bottle, a morte simplesmente não existe, sendo uma aventura inocente e sem consequências; em A Caverna Secreta, a morte já está presente, sendo irreparável e comparada a um tesouro insuficiente para compensar a perda; e, neste terceiro conto, a morte existe desde o começo, mas é vencida, pois o pai que descera ao túmulo ressurge, volta para a filha e tudo termina bem.
Nessa época, Lovecraft era muito jovem e ainda tentava se descobrir como escritor. Essa oscilação pode ser interpretada como um problema mal resolvido na cabeça daquela criança, cujo luto não pôde ser vivido de forma direta e honesta, já que a família a protegeu da situação do pai ao longo dos anos. Apesar do choque, ele não soube direito como analisar, enfrentar ou entender aquilo tudo. O que torna isso literariamente extraordinário para mim é que Lovecraft não estava fazendo terapia, estava fazendo ficção, e foi a ficção que absorveu todo o seu drama. Vou deixar na descrição um vídeo que fiz especificamente sobre como transformar traumas em ficção — um material muito bem feito e com bastante pesquisa —, caso queira assisti-lo agora. Por este vídeo, é só.