A literatura como destino e ofício: uma conversa com o poeta e professor João Filho
Em uma edição do *Lisbôa Entrevista*, o criador de conteúdo Lisbôa recebeu o poeta, professor autodidata e escritor baiano João Filho para uma imersão na trajetória de duas décadas de produção literária. Natural de Bom Jesus da Lapa, no interior da Bahia — cidade marcada pela forte tradição de romarias seculares e pela proximidade com o rio São Francisco —, João Filho construiu uma obra vasta que transita entre a poesia, o conto, o teatro e a literatura infantojuvenil. Com onze livros publicados ao longo de 21 anos de carreira, o autor reflete sobre os alicerces de sua escrita, a relação com as grandes tradições literárias e os desafios da edição no Brasil contemporâneo.
O despertar para a literatura ocorreu muito cedo, entre os 11 e 12 anos, em um ambiente rural onde o acesso aos livros se dava por meio da pequena biblioteca mantida pelo pai. Sem saber distinguir, a princípio, entre prosa e poesia, o jovem leitor absorvia obras complexas como *Elogio da Loucura*, de Erasmo de Roterdã, clássicos de Machado de Assis e Monteiro Lobato, além de farta quantidade de quadrinhos. O impulso inicial para a escrita não nasceu de um projeto narrativo estruturado, mas de um profundo assombro diante da realidade, uma intuição filosófica primitiva de estar no mundo.
Antes de se fixar definitivamente na literatura, João Filho flertou com as artes plásticas e com a música, chegando a tocar violino na igreja protestante de sua família — hoje, o autor converteu-se ao catolicismo e integra ativamente a vida paroquial. A escolha pela palavra escrita deu-se, em parte, pela solidão do ofício: enquanto o desenho e a música exigiam pares e alta competência coletiva, a literatura permitia um embate solitário e constante consigo mesmo.
Questionado sobre o eterno dilema de iniciantes entre começar pelo conto ou arriscar logo um romance, o escritor defende que o ponto de partida deve ser o genuíno prazer pelo som e pelo jogo das palavras. Citando o jornalista e contista Otto Lara Resende, o autor reforça que o verdadeiro escritor é aquele movido pelo fascínio estético da linguagem, e não apenas pela utilidade de defender teses. Sua própria trajetória foi marcada por um longo período de experimentação: o primeiro livro de contos, *O Encarniçado*, só foi publicado em 2004, aos 27 anos, enquanto a estreia na poesia, *A Dimensão Necessária*, veio apenas aos 39. Ao longo dos anos, o autor testou o surrealismo, o expressionismo e os poemas visuais, inspirando-se em nomes catalães como Joan Brossa e na herança modernista.
Para João Filho, a pressa em publicar é um dos grandes equívocos do escritor contemporâneo. Em um mercado literário hiperconectado, a facilidade de plataformas virtuais e autopublicações gerou uma urgência vazia. O autor argumenta que o tempo investido na leitura ampla — que deve transitar obrigatoriamente entre a poesia, o ensaio, o romance e a história — é o que confere maturidade ao texto. Grandes nomes da literatura nacional e internacional serviram de laboratório para sua formação. A admiração por Machado de Assis revela-se na maestria do diálogo e na capacidade de atrair o leitor para o interior da cena com aparente simplicidade. Da mesma forma, a prosa e a crônica de Nelson Rodrigues demonstram o poder da hipérbole e do exagero, traços estilísticos que dialogam diretamente com a tradição de Camilo Castelo Branco.
A discussão sobre o processo criativo desmistifica a figura do escritor de tempo integral. Para João Filho, a escrita e a produção mais intensa muitas vezes florescem nos períodos de maior restrição de horário, quando o autor precisa lutar pelo espaço de criação em meio às obrigações cotidianas. O ócio prolongado, longe de garantir genialidade, muitas vezes paralisa. Seu próprio fluxo de trabalho na poesia alimenta-se da inspiração súbita e do registro constante, gerando um vasto volume de material inédito — incluindo um ambicioso projeto poético de quase mil páginas estruturado em dez cantos, com lançamento previsto em formato digital.
Ao analisar o cenário da literatura brasileira contemporânea, o autor aponta um panorama fértil, embora pulverizado. Destaca nomes de prosadores e poetas que buscam a verticalização da condição humana e o rigor formal, como Milton Gustavo, Alexandre Soares Silva, Rodrigo Duarte Garcia e sua esposa, a premiada escritora Alex Leila, além de resgatar a força da poesia discursiva que atravessa séculos desde Gregório de Matos até vozes contemporâneas como Carlos Nejar e Érico Nogueira.
O panorama editorial brasileiro, contudo, exige sobriedade e pragmatismo. Publicar por editoras independentes ou recorrer à autopublicação exige que o autor compreenda as realidades comerciais do mercado, abandonando vaidades excessivas e aceitando críticas construtivas. O exemplo histórico de Manuel Bandeira, que recorreu a listas de subscrição para viabilizar edições modestas de seus livros, serve como lembrete de que a grandeza literária nunca dependeu de facilidades industriais ou de promessas de sucesso financeiro imediato.
A conversa encerra-se reafirmando o papel irredutível da leitura como um refúgio legítimo em meio a uma sociedade utilitária e apressada. Para João Filho, o leitor e o escritor persistem porque encontram na palavra escrita uma forma duradoura de responder ao mistério da existência humana.