O conto "O Sobrevivente" (*Survivor Type*), integrante da aclamada coletânea *Tripulação de Esqueletos*, carrega a marca de ser apontado pelo próprio Stephen King como o seu conto favorito entre todos os que escreveu. A narrativa é estruturada na forma de diários de Richard, um cirurgião que se vê isolado em uma ilha deserta e minúscula, composta estritamente por pedras e areia, sem vegetação ou fontes primárias de alimento. A trama alterna entre duas linhas temporais: o presente sufocante na ilha e os flashbacks do passado de Richard, revelando gradualmente como ele chegou àquela situação limite.
Antes do naufrágio, Richard exibia uma personalidade profundamente narcisista, egocêntrica e antiética, marcada por ambição desmedida e envolvimento com o narcotráfico. No presente, sem comida e com recursos limitados resumidos a algumas roupas, uma caixinha de fósforos à prova d'água, um kit de primeiros socorros e uma grande quantidade de heroína contrabandeada, ele enfrenta uma fome avassaladora. Suas únicas alternativas iniciais são caçar as poucas gaivotas que passam pela ilha, cujas carnes ele consome cruas por falta de meios para fazer fogo, mantendo o foco obsessivo em preservar suas mãos de cirurgião para retomar a profissão no futuro.
A situação atinge um ponto crítico quando Richard sofre uma fratura grave no tornozelo direito. Movido por um desespero crescente e pelo medo de enfraquecer a ponto de não resistir a uma intervenção cirúrgica, ele decide amputar o próprio pé, utilizando a heroína como analgésico. À medida que o isolamento e a fome extrema progridem, a sanidade de Richard se deteriora e o horror atinge o ápice quando ele decide consumir a carne do próprio pé amputado para sobreviver.
Com o passar do tempo, novos acidentes e a escassez absoluta de alimentos o levam a repetir o procedimento drástico de forma cada vez mais compulsiva e desorganizada. Richard amputa sucessivamente o outro pé e, em seguida, as pernas até os joelhos, alimentando-se do próprio corpo enquanto delira sob o efeito dos entorpecentes e perde a noção do tempo. Nos momentos finais da história, reduzido a um estado puramente animal, ele já não questiona a própria humanidade e passa a comer os próprios dedos, concluindo o diário em um delírio macabro.
Embora o *plot* seja extremamente original e carregue o humor ácido e a leveza característica com que King aborda o horror e o grotesco, a estrutura narrativa em duas linhas temporais gera certa distração. As inserções sobre o passado acadêmico e profissional de Richard pouco acrescentam à compreensão de sua derrocada, uma vez que sua índole narcisista já se manifesta com clareza nas ações desesperadas do presente. Desconsiderando essas digressões, a obra permanece como um exercício perturbador e magistral de construção psicológica de um personagem levado ao limite absoluto da sobrevivência.