A literatura fantástica e os hábitos de leitura passaram por transformações profundas ao longo das décadas, impulsionadas tanto pelas novas demandas do público quanto pela concorrência com outras mídias. A evolução tecnológica e o surgimento da cultura pop redefiniram a forma como autores escrevem e como o público consome histórias.
Tem um escritor que eu acho muito maneiro, ele escreve fantasia sombria. O nome dele é Joe Abercrombie, não sei se já ouviu falar desse cara. Ele é conhecido por ter uma escrita muito boa, e perguntaram para ele qual seria a sua opinião para iniciar uma boa história de fantasia. E ele respondeu aos escritores que a primeira coisa que você tem que entender, se vai escrever fantasia nos dias de hoje, é "foda-se a taverna". É basicamente "dane-se a taverna", ninguém quer saber como a taverna é ou quantos elfos estão ali; comece direto na ação.
Isso acontece porque a fantasia clássica, influenciada fortemente por J.R.R. Tolkien, tem essa característica de ser muito descritiva. Fazia sentido, nos primeiros anos da fantasia que consideramos clássica, que alguém como Tolkien gastasse muito tempo descrevendo uma raça ou cultura específica. Os leitores daquela época não tinham o repertório para entender o que era um elfo, como ele vivia, ou o que era um anão. Tolkien se apropriou de seus estudos acadêmicos em uma época em que o gênero ainda não estava definido, então era preciso explicar o que era um elfo, pois muitas pessoas não faziam a mínima ideia.
Agora, com o advento da cultura pop, dos filmes, cinemas e séries, se eu falar para você a palavra "elfo", você já imagina um ser que vive na floresta, de orelhas pontudas, bem esguio e que vive centenas de anos. Claro que, com o tempo, esses arquétipos foram subvertidos, mas ainda assim você não precisa da mesma quantidade de palavras que precisava antigamente.
Voltando ao nosso ponto, o diálogo tem ganhado cada vez mais peso para o leitor moderno. Eu diria que esse leitor está muito mais focado na visualidade, mas ao mesmo tempo precisa de muito menos descrição. Isso ocorre não só porque a maioria dos leitores modernos tem menos tempo livre do que as pessoas antigamente, mas também porque hoje a literatura compete com serviços de streaming, com o YouTube e com a televisão. Isso demanda, ou pelo menos torna muito mais apreciada, uma escrita concisa.
O diálogo se tornou central justamente por causa dessa dinâmica inspirada no roteiro de televisão e na interação entre personagens. Antigamente, por exemplo, era muito comum — e eu estou lendo *Moby Dick* agora e vendo muito disso — encontrar capítulos inteiros com personagens parados conversando. É tudo muito estático, sem movimento. Não estou dizendo que seja ruim, estou adorando *Moby Dick*, mas é o caso do Ismael e daquele colega dele, cujo nome até hoje não sei pronunciar direito, o Queequeg, parados conversando por um capítulo inteiro sobre alguma coisa, sem nenhuma ação paralela.
Hoje em dia é o oposto: os personagens falam enquanto realizam alguma ação. O escritor contemporâneo consegue fazer com que o leitor visualize facilmente o que está acontecendo ao redor, enquanto a trama avança. Antigamente, esse ritmo dinâmico poderia ser visto como algo próximo de uma escrita ruim, mas hoje ele é muito mais apreciado. O diálogo, portanto, tornou-se fundamental por conta dessa nova dinâmica.