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O Casamento Egoísta de Ivan Ilitch [TOLSTOI]

O Casamento Egoísta de Ivan Ilitch em Tolstói

O escritor russo Liev Tolstói desconstrói a ilusão de uma vida burguesa bem-sucedida em sua novela *A Morte de Ivan Ilitch*, retratando as angústias, o egoísmo e a superficialidade das relações humanas. No debate sobre a obra, discute-se como o protagonista lida com as pressões sociais, o casamento por conveniência e o inevitável isolamento emocional diante da doença e da morte.

Nos atendimentos médicos que Ivan Ilitch busca ao adoecer, a experiência é sempre a mesma: especialistas caros e renomados que parecem tratá-lo com frieza burocrática, deixando-o profundamente angustiado com a sensação de descaso. Voltando um pouco na trajetória do personagem, ele cresce na carreira, apaixona-se por uma moça e acaba se casando por conveniência. Antes disso, há também a perda gradual daquelas amizades verdadeiras da juventude. Amizade é algo curioso; muitas vezes, o que chamamos de amigo é apenas um conhecido distante de outra fase da vida. Eu mesmo tenho ótimos ex-amigos espalhados por várias cidades ondeemorei ao longo da vida. Não sei o que pensam de mim hoje, se ainda lembram de mim, porque a vida seguiu seu rumo e nos afastamos. Se nos reencontrarmos um dia, o papo certamente fluirá e daremos risadas, mas, no dia a dia, são pessoas distantes. Com amigos mais recentes, de quase dez anos, a dinâmica é parecida: quando nos falamos, relembramos o passado com carinho, mas percebemos que tomamos caminhos totalmente diferentes na vida. Chega um ponto em que os rumos divergem tanto que não há mais motivos reais para continuar convivendo, restando apenas o abraço e a gratidão pelo que foi bom. Os velhos amigos são aqueles que você reverencia em datas especiais, e não necessariamente figuras centrais do seu presente ou do seu futuro.

Retornando ao romance, o casamento de Ivan Ilitch traz dinâmicas muito peculiares, que ficam ainda mais evidentes na segunda leitura da obra. Tudo parecia caminhar bem até o momento em que decidem ter filhos. Logo nos primeiros meses de gravidez, a esposa dele se torna, do ponto de vista dele, insuportável — embora, na minha própria experiência pessoal, a gravidez tenha sido bem tranquila, graças a Deus. No caso de Ivan, parecia uma tensão contínua, uma TPM constante. E ele se comporta muito mal diante disso; não demonstra nenhuma compreensão ou empatia. Na primeira vez que li essa parte, achei bastante desagradável e pensei que ele não estava agindo como um homem maduro. Afinal, como ele esperava que fosse? A mulher está grávida, as necessidades dela mudam, e ele age como se o problema fosse exclusivamente ela, como se ela estivesse atrapalhando a vida dele. Li essa passagem devagar, página por página, e esses detalhes ficaram marcados na minha memória.

Ele tenta lidar com a situação da mesma forma pacífica de antes, tentando manter a estabilidade, mas percebe que, faça o que fizer, ela continua insatisfeita. A conclusão a que ele chega — e não estou aqui justificando o comportamento dele, pois já pensei algo semelhante em relacionamentos antigos — é que a única maneira de conseguir paz seria ficar tão entediado e miserável quanto ela. Mais adiante na novela, quando ele está totalmente adoentado, sente um profundo nojo ao ver a esposa, a filha e o futuro genro cheios de saúde e vitalidade. Ele quer, no fundo, que todos estejam tão tristes e agonizantes quanto ele. Ivan e sua esposa acabam se tornando exatamente a mesma coisa; são dois lados da mesma moeda, ou melhor, o mesmo lado da moeda. Ele casou essencialmente com uma versão feminina de si mesmo, pois ela reage com a mesma frieza e o culpa constantemente pela doença e pelo sofrimento, dizendo que ele não toma os remédios direito. É uma dinâmica que às vezes beira o melodrama brasileiro.

Apesar de não ser o melhor dos homens, Ivan prossegue como muitos fazem na vida real. Tenta manter a harmonia, faz todas as vontades da pessoa e, quando percebe que nada disso funciona, depara-se com duas opções: ou tenta uma conexão profunda e genuína, que é o caminho certo, porém o mais difícil e inconveniente, ou foge por meio do trabalho. Como o Lucas bem apontou, Ivan escolhe o caminho errado e se afunda na labuta. Contudo, os procedimentos iniciais dele são muito comuns. Quem nunca tentou manter a cordialidade e fazer as vontades do parceiro antes de perceber que o abismo é intransponível? Se fôssemos tentar uma análise psicológica profunda com o parceiro a cada pequeno atrito cotidiano, simplesmente não conseguiríamos manter um emprego ou realizar qualquer outra atividade. Primeiro a gente tenta levar na boa, depois cede, e só quando o problema se agrava é que percebemos a gravidade da situação.

Essa fuga para o trabalho diante dos conflitos conjugales é terrível, mas tragicamente comum. Um exemplo claro disso ocorreu durante a pandemia, quando os casais foram obrigados a conviver em tempo integral e as taxas de divórcio dispararam. No início, custei a absorver isso; como assim as pessoas não se suportam só porque precisam passar mais tempo juntas? É Ivan Ilitch puro na vida real. No meu próprio casamento de juventude, passei por algo muito parecido e não sabia como lidar. Eu tentava dialogar, buscar a fundo os sentimentos da outra pessoa, mas me deparava com limitações na comunicação e no vocabulário do outro. Como eu precisava trabalhar muito e, ao mesmo tempo, lidar com essa crise, acabei priorizando o trabalho e falhando na tentativa de resolver os conflitos em casa. Na época, eu não tinha o hábito de ler literatura, o que teria me ajudado muito a compreender melhor a complexidade das relações humanas. Leio romances justamente porque os autores esmiuçam os sentimentos e os comportamentos dos personagens ao longo de vários capítulos, servindo como um manual prático de como as pessoas funcionam na vida real. Ivan faz algo ainda pior do que eu fazia: ele passa a fazer horas extras no escritório não apenas por necessidade, mas deliberadamente para fugir de casa. Tentar a mesma abordagem ineficiente todos os dias é coisa de maluco, mas o desespero diante de um relacionamento que desmorona e a falta de ferramentas para consertá-lo levam muitas pessoas a esse mesmo beco sem saída.