Adônis – Mitologia Grega

Adônis foi o homem mais belo que a Grécia já conheceu. Por ele se apaixonaram duas deusas, e um rio de lágrimas correu por sua causa. Vivos e mortos pasmaram diante de sua estonteante beleza.

Vamos conhecer melhor a sua história.

Adônis era um jovem caçador. Seu rosto era tão belo que parecia ter sido esculpido, possuindo testa, olhos, nariz e queixo absolutamente perfeitos. Seus cabelos loiros lhe escorriam pelos ombros firmes e não havia ninfa dos bosques que não cobiçasse alisá-los.

Um dia Vênus, a deusa do amor, estava conversando com seu filho Cupido. quando teve a atenção desviada pelo surgimento inesperado do jovem mortal.

— Quem será este rapaz? Nunca vi nenhum mais belo — disse a deusa ao filho. Cupido deu uma olhadela rápida. Sem responder, voltou-se novamente

para suas flechas, as quais estava afiando amorosamente.

Vênus, percebendo que o seu garoto estava com ciúmes, abraçou-o. enternecida.

— Vamos, deixe de ciúmes! É apenas um belo rapaz, mas nenhum é tão belo quanto o meu filho!

Ao tomá-lo nos braços, porém, a deusa acabou ferindo-se com uma das flechas.

— O que foi, mamãe? — perguntou Cupido, alarmado, ao escutar o seu grite de dor.

— Não foi nada, meu filho, continue o seu trabalho… — disse a deusa, afastando-se.

Descendo à Terra, Vênus decidiu seguir discretamente o jovem caçador “Preciso conhecê-lo melhor!”, pensava a deusa, enquanto o seguia.

Adônis havia parado um pouco, no bosque; estava inclinado sobre uma pedra, enquanto amarrava as tiras soltas de uma das sandálias. Uma das pernas apoiava-se na rocha, descobrindo um pouco de sua rija musculatura, enquanto a outra apoiava-se no chão.

Venus, oculta por detrás de um teixo, alisava distraidamente a casca rugosa da árvore, de um intenso marrom avermelhado. Seus olhos estudavam o corpo do jovem, cujas formas ressaltavam por entre a fina túnica que o cobria. Após amarrar a sandália, Adônis, num gesto viril, estirou os dois braços para o alto. Os cabelos dourados das axilas do jovem agitaram-se levemente sob a brisa que soprava na mata. A deusa, sem poder conter-se mais, saiu lentamente do esconderijo. Seus passos leves ressoavam sobre o tapete difuso de folhas caídas.

O jovem caçador, cujos ouvidos estavam treinados para captar o menor ruído no bosque, sentiu logo a aproximação de alguém. Voltando-se, encarou Vênus com um ar surpreso — pois não é todo dia que um caçador tem o privilégio de ser surpreendido pela própria deusa do amor.

— Olá rapaz! — disse Vênus, procurando imprimir um tom natural às suas palavras.

— Você… é Vênus, não é? — disse Adônis, certo de que mortal alguma poderia ser dona de tamanha beleza e encanto.

— Sim, sou — disse a deusa, procurando sempre manter a naturalidade. — E você, quem é?

— Sou Adônis.

— Caça sempre por aqui? — Bem, sempre não diria, mas é meu bosque preferido. —

Você não é um deus, é? — Não, bela deusa, na verdade eu…

— Como pode ter a beleza de um deus e não ser um deles? — disse Vênus, erguendo os belos olhos e dardejando um olhar intenso sobre a face do jovem, como se desferisse uma estocada certeira e imprevista.

Vênus parecia um pouco enraivecida — sim, ela havia sido golpeada primeiramente pela beleza do rapaz e parecia disposta a se vingar amorosamente daquela involuntária audácia.

— Veja, o outro pé de sua sandália também está desatado — disse ela, abaixando o olhar.

Adônis fez menção de abaixar-se.

— Vamos, coloque o pé sobre a pedra, outra vez — disse a deusa, impositiva. — Por favor, deusa, deixe que eu… — Vamos, Adônis — insistiu Vênus. O jovem apoiou o seu pé esquerdo sobre a pedra. Colocando-se à sua frente, a deusa inclinou-se, tomando as duas tiras soltas em seus dedos macios. De cabeça baixa, seus cabelos roçavam involuntariamente a cintura de Adônis. Foi a sua vez de ser docemente surpreendida. O jovem, no seu orgulho viril de caçador, achava que já cedera demais às pequenas audácias da deusa — que era sempre, apesar de deusa, uma mulher — e tomou docemente as tiras de sua mão. —

Mortais inclinam-se diante dos deuses, e não o contrário — disse ele. — Por que tem de ser sempre assim? — disse Vênus. — Deixe-me reverenciar também a sua beleza.

Adônis, sem poder conter mais seu desejo, fez com que ela se erguesse novamente.

Antes, porém, que Vênus estivesse completamente equilibrada, recebeu da boca do rapaz um beijo longo e ardente.

Naquela tarde as corças puderam passear descansadas por todo o bosque.

A partir daí a deusa passou a descer todos os dias de sua morada celestial para trocar carícias e beijos com o belo amante.

— Vou fazer de você um deus… — prometia ela, aninhada em seus braços. Entre carícias e abraços passavam os dois os seus dias. Adônis, entregue à sua nova paixão, havia esquecido momentaneamente do seu arco. Mas com o tempo o jovem foi readquirindo o seu gosto pelas caçadas.

— Cuidado, Adônis! Não se exponha demais aos animais ferozes — disse Vênus a ele. —

Sua beleza pode agradar aos seres humanos e aos deuses, porém às feras ela é indiferente. Elas haverão de querer sempre o seu sangue.

— E eu o deles! — disse Adônis, empunhando alegremente o seu arco. Vênus ainda tentou reter o seu amado, mas Adônis estava surdo aos seus apelos. A deusa, respeitando a vontade dele, partiu em seu carro através dos ares.

— Cuide-se, meu amor! — disse ela, lançando um último olhar a Adônis, que tão logo a viu desaparecer, meteu-se na mata com os seus cães.

Fazia tempo que Adônis não exercitava os seus dons de caçador; seus cães, a seu turno, já haviam farejado a presença de um javali nos arredores e andavam agora em ziguezague, à frente do jovem, varrendo o chão com seus focinhos alertas. Adônis estava radiante, pois possuía, agora, as duas coisas que fazem a alegria da vida: o amor e a diversão.

Os latidos dos cães o despertaram de seu devaneio.

— Vamos, tirem-no da toca! — ordenou o caçador, ao ver que os cães haviam se concentrado ao redor de um esconderijo.

Um ruído surdo escapou do interior da toca: o maior dos cães havia descoberto uma entrada lateral e entrado por ela, o que obrigaria o javali a sair pela entrada principal, guarnecida pelos demais cães. De repente o animal surgiu da boca da toca, espumando e arremessando suas presas em todas as direções.

— Para trás, todos! — gritou Adônis, empunhando o seu arco e fazendo a mira.

Os cães recuaram um pouco, abrindo um claro e deixando à mostra a fera. O caçador, retesando bem a corda, disparou a flecha, que foi cravar-se no flano: esquerdo do animal. Um grito agudo, misto de dor e de raiva, partiu da goela da presa. Girando o corpo, o javali enxergou o seu agressor; em seguida, arremessou-se em sua direção, espumando uma baba vermelha, cujos flocos aderiam às suas cerdas completamente eriçadas.

Adônis ainda tentou abater o animal, mas não teve sucesso; o javali, num salto ágil e preciso, já enfiara antes suas duas enormes presas no peito do jovem. Com um grito de dor, Adônis caiu sobre a relva, enquanto o animal escapava para o interior da mata, levando atrás de si os cães enfurecidos.

O jovem arrastou-se até uma árvore próxima e ali, reclinando o corpo ferido, começou a gemer, pressentindo a morte.

Vênus não ia tão longe que pudesse deixar de escutar os gemidos de seu amado. Por isto, retornou imediatamente, pressentindo o pior.

— Adônis, meu amor, o que houve? — exclamou a deusa, tomada pelo pavor, ao ver o jovem encostado ao tronco, com o corpo coberto de sangue.

— É o meu fim… — balbuciou o jovem, enquanto recostava a cabeça sobre o ombro da deusa, que o amparava amorosamente em seus últimos momentos.

Vênus, após chorar todas as lágrimas, enterrou ali mesmo o corpo de seu amado.

No lugar onde Adônis foi enterrado começaram a brotar algumas flores cor do sangue —

flores de vida tão curta que, assim que floresciam, o vento arrancava-lhes as pétalas, provocando-lhes a morte.

No mesmo dia a sombra de Adônis adentrou o Hades — a morada dos mortos. Todos pararam para ver e admirar aquele belo rapaz, que chegava trazendo ainda no peito as marcas das feridas. Prosérpina — rainha dos infernos e esposa de Plutão — encantou-se também com a beleza do novo súdito, tomando-o imediatamente sob a sua proteção.

Vênus, enquanto isto, continuava inconformada com a perda de seu amado:

— Preciso trazê-lo de volta! — repetia, com o rosto em prantos.

No auge de sua dor, resolveu descer até os infernos para tentar revivê-lo. Prosérpina, no entanto, não se mostrou muito satisfeita com a idéia:

— Ele é agora meu súdito — disse, invocando os seus direitos de soberana. As duas deusas pareciam dispostas a iniciar uma briga, quando Plutão

interveio, sugerindo que Adônis estivesse um tempo entre os mortos e outro entre os vivos.

Se Plutão, no entanto, fosse mais atento — ou, ao menos, mais previdente -, teria se dado conta, também, de que o mesmo acontecia com sua esposa, que durante seis meses do ano era obrigada a subir para a morada dos vivos, conforme antigo trato — exatamente à mesma época que o magnífico rapaz.

De qualquer modo, Vênus, que era a principal interessada, conseguiu o que queria e durante seis meses do ano tinha a felicidade de rever o seu adorado Adônis.


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