A arte não precisa de justificativa

Hans Rookmaaker publicou em 1978 um livro chamado “A arte não precisa de justificativa“, traduzido e publicado pela editora Ultimato em 2010. Muita gente não entende o título do livro, então vou tentar elucidá-lo aqui, já que trata-se de um tema muito caro para nós, do Universo Anthares. Obs.: farei-o como cristão, usando a fé como exemplo.

A grande questão é se a arte pode existir por conta própria, se ela cumpre um propósito estético, de beleza, para apreciação, contemplação humana, ou se ela precisa ter um discurso, seja político ou religioso. E a resposta é: não!

Você consegue admirar o pôr do sol? Pois bem, o pôr do sol não tem discurso.

No meio cristão, não é incomum vermos uma grande confusão a respeito do motivo pelo qual fazer caridade: servindo apenas como “estratégia” para falar de Jesus. Não me oponho a usar qualquer oportunidade para algo tão importante. Porém, a Bíblia não diz que a caridade deve ser feita sob qualquer outro pretexto, a não ser este: empatia. A fé cristã pressupõe o amor ao próximo, o que também significa, obviamente, socorrer alguém em situação de sofrimento. Veja: há casos e casos, quando o assunto é caridade, e eu sei disso. Caridade verdadeira é praticamente o oposto de assistencialismo. A questão é: em casos onde a caridade é necessária, ela não precisa de outra justificativa. Ela cumpre um papel essencial e lindo em si mesma, especialmente quando, como cristãos, a fazemos para a glória de Deus.

Não me oponho às sopas beneficentes ou, por exemplo (voltando ao tema da arte), jazz no saguão da igreja, contanto que não pensemos que estas coisas são o mesmo que evangelização. Comece um canal de humor no Youtube se quiser, mas não chame isso de evangelização só porque você é um cristão fazendo comédia.

Precisamos realmente entreter as pessoas (com qualquer tipo de arte) para que consigamos que elas ouçam o evangelho? Esse tem sido um método eficiente para atrair milhares de pessoas a igrejas, mas tem produzido evangelização robusta ou fé robusta? Toque jazz, se você quiser, mas toque para glorificar a Deus e não para fazer evangelização. Se você ainda não consegue perceber a diferença entre essas duas coisas, talvez você precise ler mais, refletir mais sobre sua própria fé e, quem sabe, considerar se realmente compreendeu a fé cristã.

Abaixo, segue um trecho do livro de Mack Stiles (“Marcas de um evangelista”):

Recentemente, liderei um seminário sobre evangelização. Porque creio que a evangelização é uma questão de conhecer e viver o evangelho – e ambos incluem, quando apropriado, falar o evangelho –, este foi o assunto que abordamos no seminário. No final do seminário, um homem se aproximou de mim e disse: “Mack, sou muito grato por este tempo. Confesso que quase não vim ao seminário – geralmente estes seminários me fazem sentir como se estivesse recebendo treinamento para me tornar vendedor de seguros”.

Ora, não tenho nada contra vendedores de seguros – ou contra qualquer outro tipo de vendedor, mas sabia o que ele estava dizendo. De algum modo, há este sentimento de que, como evangelistas, devemos aprender como: promover um programa com animação e autointeresse; vencer hesitações com um comportamento agradável; evitar quaisquer ofensas ou problemas; instilar medo de se perder; manipular a conversa para chegar ao ponto de decisão;
aprimorar nossa habilidade de conseguir uma decisão, etc.

O que é excelente para dar segurança, senão Jesus? Primeiramente, Jesus é precioso demais para ser trivializado desta maneira. E conheço corretores de seguro cristãos que concordam com isso. Então, por que continuamos tentando dar outra aparência ao evangelho e mercadejá-lo?

Se a mensagem (religiosa ou política) que você sabe que precisa propagar é tão fraca que você precise inventar contextos tendenciosos e manipular emoções para conseguir, a todo custo, enganar e convencer alguém, essa mensagem só pode ser péssima. Você não acredita tanto assim nela ou você é uma péssima pessoa com uma boa mensagem. Boas ideias não precisam ser forçadas, nem maquiadas.

O efeito colateral também é ruim: a sua arte ficará extremamente prejudicada e a mensagem também.

A arte só é boa se vale por si mesma, e não como bandeira para um grupo específico. Se a sua “arte” só funciona porque tem um compromisso, quer dizer que ela não se justifica pela sua própria beleza. Isso não é arte, é discurso.


Lucas Rosalem