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Como transformar uma explicação numa ação? ♦ DICA DE ESCRITA

Como Transformar Explicação em Ação na Escrita

Para transformar explicações abstratas em cenas de forte impacto emocional e narrativo, escritores muitas vezes recorrem a adjetivos e advérbios na tentativa de resumir o comportamento ou os sentimentos de um personagem. No entanto, essa escolha costuma afastar o leitor da verdadeira vivência da cena, gerando apatia em vez de engajamento.

Tudo o que poderia ter se transformado numa cena viva ou numa oportunidade para nos aproximarmos do que o personagem está pensando acaba virando um mero adjetivo ou advérbio. Pense, por exemplo, em uma narrativa militar. Em vez de dizer apenas que alguém lutou com "audácia e astúcia", é preciso mostrar o que ele pensou e como agiu no calor da batalha.

Ao escrever, se possível, corte os adjetivos e, principalmente, os advérbios. O adjetivo às vezes ainda tem validade — Lovecraft, por exemplo, fazia isso muito bem. Ele usava vários adjetivos para descrever uma criatura como indescritível, impossível ou aterrorizante, criando justamente a intenção de que o leitor não conseguisse visualizar a ameaça com clareza, mantendo o mistério. Mas fora casos específicos como esse, depender de adjetivos para explicar em vez de mostrar empobrece a narrativa.

Se você diz que um personagem foi astuto em meio militar, o leitor quer ver a estratégia: como ele avançou por um escampado, como adentrou uma fortaleza ou como conduziu um cerco. Muitas vezes, o texto afirma que o personagem evoluiu — que virou capitão, tenente ou que passou a liderar —, mas não sentimos essa transformação na prática. O personagem continua parecendo estagnado porque suas conquistas são apenas declaradas, e não demonstradas.

O maior perigo para um texto não é fazer o leitor odiar ou amar um personagem, mas sim fazê-lo não sentir absolutamente nada. A apatia do leitor é o pior resultado possível. Mesmo autores como Albert Camus e Franz Kafka, cujos personagens em *O Estrangeiro* ou *O Processo* podem parecer frios ou "ossos", conseguem engajar o leitor. Você pode não gostar deles, mas fica irritado, intrigado ou envolvido com seus pensamentos, o que faz você "comprar" o personagem e querer saber o que vai acontecer.

A grande sacada é substituir a explicação abstrata pela ação ou pelo pensamento concreto. Em vez de dizer que o personagem foi astucioso, mostre o que ele pensou, escreva uma linha de pensamento íntimo, deixe um monte de subtexto embutido em uma fala ou mostre-o realizando uma ação rápida. Com o mesmo volume de texto — ou até com menos espaço —, você consegue remover os adjetivos desnecessários, criar muito mais impacto e fazer com que o leitor realmente se conecte e compre a essência do personagem.