A tragédia *Helena*, de Eurípides, destaca-se no teatro grego clássico como uma obra de forte teor revisionista e cômico, dialogando diretamente com a *Ilíada* e a *Odisseia* de Homero. A premissa central da peça subverte a tradição mitológica ao absolver Helena de qualquer culpa na Guerra de Troia. Segundo a trama, a Helena original nunca esteve em Troia; ela foi mantida em segurança no Egito sob a proteção do rei Proteu, enquanto os gregos e troianos lutaram por anos por um simulacro — um fantasma ou construção etérea forjada pelos deuses, especificamente por Hera. Essa artimanha divina, arquitetada por Zeus, servia a dois propósitos cínicos: aliviar a sobrecarga da Terra diminuindo a população de mortais por meio da guerra e testar a força e o brio dos guerreiros helênicos.
A narrativa se desenrola no Egito, onde Helena chora no túmulo do falecido Proteu para escapar das investidas amorosas do novo governante, Teoclímeno, que deseja tomá-la à força. A confusão se aprofunda quando o guerreiro grego Teucro chega ao Egito e relata notícias trágicas sobre o suposto fim de Menelau. Pouco depois, o próprio Menelau chega naufragado, maltrapilho e desorientado, encontrando-se com Helena. Inicialmente descrente e confuso, Menelau choca-se ao perceber a semelhança absoluta entre a mulher que resgatou de Troia e a Helena que agora está diante dele. A revelação de que a "Helena de Troia" era apenas uma ilusão que desapareceu nos céus convence Menelau, unindo novamente o casal legítimo em um plano engenhoso de fuga.
O clímax da peça consagra a inteligência e a proatividade de Helena, que arquiteta uma estratégia brilhante para ludibriar o tirano egípcio. Ela finge ceder ao casamento e convence Teoclímeno a fornecer um navio, armas e oferendas para um suposto rito funerário no mar em honra ao falecido Menelau. Com a conivência dos marinheiros gregos disfarçados, o plano é executado com sucesso, resultando no massacre dos captores e na fuga triunfante do casal. O desfecho da tragédia recorre ao artifício do *deus ex machina* com a aparição dos irmãos de Helena, os Dióscuros (Castor e Pólux), que intervêm para apaziguar a ira de Teoclímeno, demonstrando que tudo ocorreu conforme os desígnios divinos e garantindo, assim, o final feliz para os protagonistas.
Ao longo da peça, Eurípides utiliza a farsa e o revisionismo mitológico para tecer duras críticas tanto à religião tradicional e aos caprichos amorais dos deuses olímpicos quanto à insensatez da guerra. A obra questiona a veracidade dos mitos e a fragilidade das justificativas humanas para os conflitos políticos e bélicos, aproximando-se de uma sensibilidade pacifista. Além disso, a estrutura formal da peça, repleta de ironias, reviravoltas cronológicas e elementos musicais, distancia-se do tom sombrio típico da tragédia grega tradicional, aproximando-a de um melodrama ou de uma comédia de erros engenhosa, onde a astúcia feminina supera a força bruta dos heróis trágicos.