Alexandr Púchkin ocupa um lugar fundador na literatura russa, sendo amplamente reconhecido como o criador da linguagem literária moderna do país e a grande inspiração para nomes consagrados como Fiódor Dostoiévski, Liev Tolstói e Nikolai Gogol. Nascido em uma família nobre, Púchkin adoptou desde cedo uma postura crítica em relação à burguesia e à nobreza imperial, inserindo duras críticas sociais em seus contos e poesias. Essa postura irreverente frequentemente o colocava em conflito com a polícia do czar Alexandre I, resultando em exílios e perseguições disfarçadas por artimanhas do próprio autor. Sua vida pessoal foi marcada pelo vício no jogo de cartas e por tragédias, culminando em sua morte em fevereiro de 1837, após um duelo de pistolas contra Georges-Charles d'Anthhes, um oficial francês que cortejava sua esposa, Natália Goncharova.
Publicado pouco antes de sua morte, o conto *A Dama de Espadas* consolida a genialidade de Púchkin na exploração do conflito entre o indivíduo e a sociedade, além de introduzir temas como a obsessão, a ironia do destino e a moralidade corrompida. A trama se divide estruturalmente em três eixos principais de personagens: o jovem engenheiro Hermann, a idosa Condessa Anna Fedotovna e a jovem oprimida Elizaveta. No primeiro capítulo, ambientado em uma madrugada de jogatina na alta sociedade russa, o conde Tomsky relata a história de sua avó, a Condessa, que décadas antes em Paris perdeu uma fortuna em apostas. Para quitar suas dívidas, ela obteve de um misterioso alquimista, o conde Saint-Germain, um segredo infalível baseado em três cartas sucessivas (três, sete e ás), sob a condição de nunca mais apostar pelo resto da vida.
Enquanto a história é contada, Hermann, um engenheiro de origem alemã que herdou bens do pai, observa tudo em silêncio. Na superfície, ele professa uma ética rígida, afirmando recusar-se a arriscar o fundamental pelo supérfluo. No entanto, à medida que a narrativa avança, revela-se que Hermann é, na verdade, um homem profundamente ambicioso, avarento e obcecado por enriquecer rapidamente. Tomado pela avareza, ele decide usar Elizaveta — a dama de companhia maltratada pela Condessa — como um meio para se aproximar da idosa e arrancar-to o segredo das três cartas, mesmo que para isso precise simular um falso romance.
O plano de Hermann culmina em uma invasão noturna ao palácio da Condessa, aproveitando-se da ausência da velha em um baile. Ao encontrar a Condessa sozinha em seu quarto, Hermann exige o segredo. Diante da recusa e do escárnio da idosa, que revela não passar de uma lenda urbana a suposta fórmula, o protagonista perde o controle e saca uma pistola. Ameaçada de morte por um homem implacável, a Condessa sofre um ataque cardíaco e morre de susto, sem que Hermann consiga obter a informação desejada. Ele foge do local após confessar o crime a Elizaveta, que, por sua vez, percebe desiludida que o suposto amor do engenheiro não passava de um cálculo maquiavélico por dinheiro.
Dias depois, durante o funeral da Condessa, Hermann é tomado por uma onda de superstição e culpa. Ao aproximar-se do caixão, tem uma vertigem e acredita ver o cadáver piscar para ele, o que o faz desmaiar e passar vexame público. Naquela mesma noite, após consumir álcool em excesso, ele recebe a visita do espectro da Condessa em seu quarto. O espírito perdoa sua morte sob duas condições estritas: que ele aposte apenas uma vez por dia usando a sequência — três, sete e ás — e que se case com Elizaveta.
Possuído pela obsessão, Hermann vai a um clube de apostas de alta sociedade no dia seguinte. Nas duas primeiras noites, utilizando o três e o sete, ele dobra fabulosamente seu patrimônio, vencendo o aristocrata Tchepelinski. Na terceira noite, jogando o ás de espadas, ele acredita ter garantido a vitória definitiva e a fortuna que tanto desejava. No entanto, ao abrir a carta na mesa, descobre que não tem em mãos o ás, mas sim uma dama de espadas, cuja figura impressa parece sorrir zombeteiramente para ele.
Derrotado e arruinado pela ironia do destino, Hermann perde a sanidade mental. Ele é internado em um manicômio, onde passa a viver em estado catatônico, repetindo incessantemente a frase que marcou sua ruína: "Três, sete, ás! Três, sete, dama!". Enquanto o protagonista sucumbe à loucura devido à sua própria ganância, o conto encerra-se com destinos menos sombrios para os demais envolvidos: Elizaveta consegue casar-se com um homem honesto, e o conde Tomsky desposa a princesa Paulina, deixando como grande lição narrativa a fragilidade das ambições humanas diante das forças implacáveis do destino e da ironia moral.