O grande problema do Odisseu é que, como para o grego não podia importar quem era o estrangeiro, bastava que o cara fosse estrangeiro para que eles sentissem essa obrigação de tratar o cara bem, isso acaba anulando a identidade do Odisseu. Olha só, acontece isso várias vezes. Deixa eu ver se eu vou lembrar de alguma parte específica aqui. Por exemplo, quando o Odisseu está lá com o rei dos Feácios, olha só, hospitalidade e identidade. Quando o Odisseu está lá sendo hospedado pelos feácios, os feácios nem sabem quem ele é e estão tratando ele muito bem, né? E de repente eles descobrem quem ele é, e todo mundo sabe quem é o Odisseu por toda parte. Só que mesmo depois que eles descobrem quem é o Odisseu, eles continuam tratando ele como um estrangeiro. Ele continua sendo chamado de estrangeiro, forasteiro — não, acho que é estrangeiro mesmo. Ou seja, ele, nessa jornada dele, continua sendo o estrangeiro, continua sendo outra coisa que não quem ele é mesmo. Ele continua assim, inclusive quando ele vai contar de si mesmo, a partir do canto nove, acho que é, ou do oito, não sei, ele fala dele mesmo em terceira pessoa, muda o narrador ali, não é mais ele falando. Ele diz, tipo: "Ah, eu fui para lá e para cá", ele fala do Ulisses, ele fala dele como se ele não fosse ele. Então, o tema da hospitalidade acaba entrando em conflito de alguma forma com esse tema da identidade na construção do personagem. Isso é legal para caramba, cara, acontece muito isso. Uma outra forma como acontece isso é quando ele vai tentar escapar do ciclope, né? Porque não é à toa que para escapar do ciclope a única maneira, o ardil dele, é ele dizer que ele não é ninguém, ou melhor, que ele é "ninguém", né? Todo mundo deve saber isso aí, uma das coisas que todo mundo já ouviu. O ciclope, quando tem o olho dele estourado lá, ele grita pros irmãos dele e o pessoal fala: "O que que aconteceu? Tem alguém te batendo aí, tentando te matar?" Aí ele: "Ninguém tá tentando me matar." Ah, falam: "Então você tá maluco, porque você tá gritando aí, né?" "Não, mas ninguém tá tentando aqui." Aí os caras não dão moral para ele, né? Ou seja, o ardil aqui do grande Ulisses obriga que ele se disfaça da sua identidade. Claro, eu tô falando uma coisa meio óbvia aqui, mas você vê como que as duas coisas são importantes. Ele se obriga a escapar dessa falta de hospitalidade do ciclope dizendo que ele não é ninguém para — olha só! — quando ele escapa, toda a dor de cabeça que ele arruma acontece exatamente porque ele volta atrás nesse ardil e, por um orgulho ali da identidade dele, ele revela pro ciclope quem ele é. Porque quando ele já tá na nau, ele fala: "Ó, viu? Eu sou, vou falar, eu sou o Odisseu, tá?" Ele dá risada. E aí o que acontece? O ciclope, sabendo quem ele é, ele amaldiçoa o Odisseu pro pai dele, que é o Poseidon. E aí acontece toda a desgraceira, né? É justamente aí que acontece toda a desgraceira. É quase como se o Odisseu não pudesse ser ele mesmo se ele quiser conseguir chegar em casa, né? E ao mesmo tempo ele só vai ser ele mesmo se ele chegar em casa, não é isso? Porque ele tem que completar essa jornada dele. Enquanto ele não chega lá, ele não pode ser ele. Ele não pode ser ele pro Polifemo, ele não pode ser ele pro feácio, ele não pode ser ele quando ele chega em Ítaca. Ele tem que se esconder até ele se revelar, não é isso? Isso aqui tem tudo a ver com a Odisseia, tudo a ver com a Odisseia, com a própria ideia de Odisseia, de uma jornada do Odisseu. Tem tudo a ver com a hospitalidade, então tem tudo a ver também com o tema da identidade, né? Porque ele parece que só vai voltar a ser ele mesmo quando ele retornar, quando ele fechar o arco narrativo dele e voltar para Ítaca, né, cara? Tem algumas coisas… dá uma olhada aí, ô Marcos, a última coisa que o Arura mandou, ele mandou provavelmente um emoji, mas aqui no StreamYard não dá para saber o que que é, porque aparece só um… não aparece aqui. Enfim, deve ser uma cara… diz que é uma carinha rosa tomando chá, é, é pela descrição, mas não dá para saber como que é, né? Tem que ir lá entrar para ver. Enfim. Ah, deixa eu ver aqui. Por parte do ciclope tem também uma fala curiosa, porque o ciclope disse que tinha uma profecia. O ciclope já sabia quem é que ia ferrar com ele, né? O ciclope fala que ele sabia que ia ser um tal de Odisseu que ia deixar ele cego, mas ele sempre esperava um cara do mesmo tamanho dele. Porque o ciclope… lembra o ciclope, o que que acontece lá? Eu não sei se vocês leram aí, logo que o ciclope chega ali, eles discutem um pouco, o ciclope come dois caras, ele pega o cara na mão e devora dois caras e aí ele dorme. Depois ele acorda outra vez, come… ele come mais dois, ele come seis caras no total, ele come de dois em dois. Cara, você comeu uma pessoa… o ciclope era muito grande, e como ele sabia que ia ser um cara, né, pô, o Ulisses, o herói lá de Troia, tal, que ia cegar ele, ele imaginava — e ele fala isso, né? — ó, eu imaginava que seria um cara tão forte quanto eu, tão grande quanto eu, né, um cara imponente, poderoso. E ele chega a zombar do Odisseu, né, ele chega a zombar dele dizendo que eu nunca imaginaria que seria um cara tão insignificante quanto aquele que apareceu por lá. Então, enfim, de qualquer forma, assim, enquanto o Odisseu está nesse trajeto para casa, ele realmente não é grande coisa, esse que é o ponto, né? Ele nem sequer consegue ser quem ele é, pelo menos quem ele é nas histórias, né? Veja, nem do ponto de vista do Polifemo. Inclusive, quando ele está lá com a Calipso, e veja o tempo que ele perdeu lá, mesmo ele sendo, como eu falei, esse cara dos mil ardis aí.
O Ciclope: Onde a Hospitalidade se Torna um Banquete de Sangueda