Estou relendo Harry Potter. É um estilo de texto que remete muito a peça teatral. As apresentações imagéticas dos personagens levam duas a três frases no máximo e constantemente a cena se mantém fluida com múltiplas dinâmicas acontecendo em diferentes planos.
É a mesma pegada da gravação de Game of Thrones que já comentei quando falei sobre algum livro de ficção este ano, mas não lembro mais qual. Os personagens falam pouco, mas a construção da cena diz muito.
J.K. Rowling parece criar as próximas cenas para evidenciar uma tese central durante toda a narrativa. Sem diálogo expositivo. Toda a abertura é numa vibe “era uma vez”, imagino um chapeleiro maluco nos contando sobre os Dursley.
Caracterização dos Personagens
Os personagens são propositalmente rasos, nisso ela é brilhante. Cada personagem só tem um ou dois marcos físicos que reiteram um ponto central: Harry vem de uma família não tradicional, o cabelo dele nunca fica reto. Dumbledore tem olhos penetrantes. E com muito pouco ela consegue atribuir mais peso à evolução da obra. É realmente um livro bem fechadinho. Todos os tempos de humor. Tudo é fluido.
Pela primeira vez percebi uma piada sobre a vizinha que cuidava do Harry no livro 01. Ela amava gatos e Harry achava chato ter que ver as fotos de todos os gatos que ela já teve na vida a tarde inteira, quando os Dursley o deixavam com ela. Aí um dia essa velha tropeçou num dos seus gatos, quebrou a perna e parou de gostar de gatos.
Toda a narrativa é cheia desses pontos inusitados que a J.K. vai abrindo e fechando para segurar a atenção do leitor.
Técnica Narrativa
Honestamente, não é muito diferente de um standup de drag queens: ela escreve num influxo de pensamento superficial, simples, e vai concatenando as ações da trama central com duas a três dinâmicas bobinhas (Dumbledore separa os docinhos que grudaram para não ter que responder uma pergunta, uma coruja ferida bate as asas como resposta a algo de duas cenas atrás) aí vai tudo acontecendo simultaneamente e a leitura simplesmente flui. Acho esse nível de entretenimento leve bem genial.
O mais brilhante é que em nenhum momento é dito que Dumbledore está desgrudando as balas para evitar dar uma resposta. Mas fica evidente para o leitor. Sendo que essa velha desgraçada só atira as ações no texto e tudo ganha sentido aos olhos do leitor.
Se EU fosse escrever esse pequeno detalhe seriam duas linhas extras justificando a correlação entre cutucar um objeto e não querer responder. O que remove todo o impacto emocional do texto. Enfim, não ficou bilionária à toa.
Comparação com Tolkien
Sinto que enquanto Tolkien escrevia para construir um universo virtual que ele compartilhava com seus filhos, a J.K. escrevia mais centrada na experiência do leitor do que no que acontece com o herói. Não é à toa que tanto gamer acha HP chatão. E a lógica do universo é bem fraca.
Não é um modelo de narrativa criado para ser replicado num cenário virtual. É só um instrumento para atingir emocionalmente o leitor com horas de diversão e aventura. É uma parada que não se propõe a construir heróis, só utiliza o arco do herói para comover.
Estrutura em Beats
Estou de cara com essa releitura de Harry Potter, acho que a última vez que li uma dessas obras era lá por 2010. E tem muito para analisar aqui.
A menor unidade narrativa no livro 01 é menor do que eu me lembrava. O impacto emocional não é desenvolvido por capítulos. São diversas cenas com crescente impacto emocional, não deve ter 600 palavras aí na cena inteira do primeiro triângulo ao segundo círculo.
O discurso inteiro é oral, me remete a dois grandes gêneros: ler historinhas de dragões para crianças de 8 a 10 anos na biblioteca e peças dramáticas gregas (por essa pegada de caracterização mínima, rápida, evolução dinâmica do texto). E aí tem o terceiro elemento muito prevalente na obra que é o uso de anedotas (por vezes ridículas) em planos secundários e terciários para manter o leitor interessado.
Diria inclusive que a única diferença entre uma fanfic estourada de fórum virtual e um livro de ficção explodido no mercado é a qualidade da gestão do impacto emocional e a coesão entre as anedotas secundárias e terciárias que sustentam o ritmo do texto.
Economia Descritiva
Estou muito surpreso com o quão poucas linhas a J.K. gasta para apresentar cenários e pessoas: Hogwarts inteira ela só fala que é um castelo com várias torres que se torna progressivamente maior à medida que os alunos do primeiro ano navegam até a porta; Dumbledore tem uma linha e meia; a plataforma 9¾ nem uma linha inteira recebeu.
Surpreendentemente o componente em que ela mais gastou linhas para descrever em todo o livro até agora foi o troll solto no banheiro feminino.
Descoberta sobre a Estrutura em Beats
Antes dessa releitura já compreendia as narrativas de ficção como um conjunto ordenado de menores unidades de cenas. E também já tinha uma noção geral de que cada cena precisa gerar um impacto emocional positivo no leitor (no sentido de: entreter, comover com impacto, mas simultaneamente o deixar mais curioso para saber como o livro termina).
Tinha a visão de que em um livro aí de 25 capítulos, teríamos 25 cenas de profundo impacto emocional. Mas não, Harry Potter a cada meia página A4 tem uma cena que passa por esse processo de início, meio e fim destinado a causar impacto. É como uma grande toalha rendilhada composta por um conjunto de imagens de renda previamente elaborados com cuidado individual.
Por uma via é muito mais descomplicado porque não é um texto descritivo (e nem se propõe a ser), as cenas não são elaboradas, frequentemente as “anedotas” (essas histórias secundárias e terciárias que ela cria para manter o leitor interessado) parecem ser a primeira coisa na qual ela pensou. Não é uma construção que se propõe a ser polida ou canônica, como Tolkien que criava subgrupos étnicos com linguagem própria, alfabeto, variação linguística.
Mas por outra via, é complicado porque ainda que a história final seja simples e direta, cada capítulo é um conjunto de ao menos 8 a 12 cenas individuais que foram lapidadas até que elas efetivamente funcionassem no leitor.
Na prática isso provavelmente vai significar que vou deixar de pensar nos capítulos como um documento e abri-los em 5 a 8 documentos diferentes, para editar cena a cena até que cada uma também tenha, sabe? esse dedo na ferida. Essa capacidade de fazer o leitor sentir algo.
A Descoberta dos Beats
Li Save the Cat! em novembro de 2024, e reli Pedra Filosofal agora em maio de 2025. E naturalmente identifiquei que a estrutura de roteiro em HP é segmentada por sequências de beats de 400 a 600 palavras no total. Isso é muito louco, porque pensava em escrita num nível sei lá de órgãos e acabo de descobrir que existe o nível organizacional de tecidos e outro menor ainda em células.
Ainda não faço ideia de como utilizar essa estrutura em beats para escrever. Mas quero descobrir.
O curso do Sanderson é todinho sobre planejamento textual em beats, vou ter que reestudar as bases e tentar colocar isso em prática. Estou afim de voltar a leitura de HP para página um e separar todo o livro cena a cena para dissecar a organização dos beats.
Aplicação Prática
Peguei meu melhor capítulo, atirei no ChatGPT e pedi para ele segmentar o texto em beats, me explicar a que se destina cada beat e depois modificar a escrita para atingir o resultado esperado.
Causa um estranhamento, mas realmente o texto fica mais vivo. Só exige re-aprendizado sobre escrita. É como estar acostumado a pintar quadros em folha A4 e subitamente precisar se adaptar a fazer um retrato equivalente num post-it, com a menor perda de significado possível.
Reavaliação do Primeiro Capítulo
Reli este ano. E, cara, agora que já sabemos a história toda, diga para mim: o primeiro capítulo é ou não é incrível? A forma como termina me emocionou, a forma como apresenta o mundo visto por um trouxa. Como ele já constrói uma afeição pelo menino que sobreviveu. Tudo é simples, direto e incrível ao mesmo tempo. Delicinha de ler.
Mas de fato é bizarro o nível da maestria e especialmente mais chocante porque sobra desempregado papudinho com barba por fazer falando que Harry Potter é mal escrito baseado no fato de utilizar uma construção de universo subjetiva ao invés de um recurso mais objetivo.
A minha diversão este mês vai ser segmentar a Pedra Filosofal cena a cena e escrever flashcards comentando como a J.K. dispõe os dados que dispõe e qual o efeito final disso.
Depois que você vê os padrões que ela segue é impossível não ver. Fico me perguntando como nunca me toquei antes. Isso sem falar que estou me coçando para escrever uns 10 capítulos nesse modelo para ver se pego o jeito.
A Ferramenta Rube Goldberg-Rowling
Na minha opinião J.K. constantemente constrói plots secundários e terciários análogos àquele tipo de máquina para reter a atenção do leitor. Escolhi chamar isso de ferramenta Rube Goldberg-Rowling, ainda que seja usado por inúmeros escritores. A Era do Gelo usa aquele rato estranho lá correndo atrás de uma noz.
Reflexão sobre Romantasy
Desde novembro de 2024 estou falando sobre a podridão que é Quarta Asa e tudo o que obras como essa sinalizam sobre o padrão de consumo do leitor médio de fantasia. Acabei de esbarrar num post do Reddit sobre uma escritora de ficção com romance que teve sua obra destruída pela crítica porque acidentalmente caiu nesse nicho de leitoras de romantasy. Que esperam um formato muito específico de ficção medieval com dragões e magia, porém com mulheres modernas sexualmente libertas e muita cena hot.
Pelo que entendi ela escreveu um romance num cenário de fantasia seguindo padrões dos anos 90/2000 e/ou com personagens que retratam a mentalidade do século em que estão situados. E o grosso do público leitor de hoje ficou horrorizado. Porque justamente a maior parte das leitoras de fantasia hoje são adolescentes e jovens adultas brancas apaixonadas por mulheres fortes e sexo explícito.
Isso está tão prevalente que os escritores de fantasia estão precisando adaptar toda a campanha de marketing dos seus livros para não dar a entender que a obra em questão se destina a ser a bendita da romantasy.
Descoberta sobre Contos de Fada
Vocês sabiam que os contos de fada (fairy tales) passaram por um resgate cultural durante a era vitoriana? É por isso que existem tantas referências a esse período na literatura inglesa de fantasia.
Só mais um lembrete diário de que a academia é falha e que quem tem interesse por um campo precisa fazer literalmente todo o trabalho já que a maior parte dos professores pesquisadores só se importam com seus projetos individuais de pesquisa.
Estava passando os olhos por obras fantásticas de sucesso e ao ler o book blurb de The Girl Who Circumnavigated Fairyland in a Ship of Her Own Making vi que Neil Gaiman tinha publicado uma review positiva sobre essa obra, e baseado no comentário dele descobri essa informação.
Meu Deus, acabei de me tocar que o primeiro capítulo do meu próprio livro começa descrevendo uma casa vitoriana. Que ódio. Literalmente primeiro parágrafo do primeiro capítulo. E não fazia ideia de que havia existido todo um movimento de resgate cultural à fantasia nesse período. Só adicionei de forma subconsciente porque achei que a estética me remetia ao gênero literário.
Continuação da Análise
Sigo lendo a saga Harry Potter, só vou ter o tempo para fazer aquela análise sistemática e sintetizar um modus operandi baseado no padrão de escrita dessa véia sem vergonha da Rowling depois das provas da segunda semana de dezembro.
Agora estou naquela cena em que os meninos dopam os capangas do Draco para usar a poção polissuco e perguntar para o Draco se ele é o herdeiro secreto de Slytherin. Se me lembro corretamente, li esse livro entre 12 e 13 anos e gostei muito do começo com o carro voador e da segunda metade, quando a ação fica melhor. Esse núcleo inteiro de ficar fazendo a poção no banheiro por meses e investigando o Draco já achava paia como leitor amador lá nos anos 2000. Mas posso estar errado, às vezes a gente consolida memórias mais recentes, se esquece das primeiras impressões e acaba projetando.
Minhas impressões iniciais sobre o padrão de escrita se mantêm, existem algumas poucas cenas que são maiores do que as outras (papo de ao invés de 350 palavras, subir assim para, forçando a barra, 550). Nada parece ter mudado no estilo de escrita.
Tomei um baque na descrição da cena dos capangas comendo um muffin com poção sonífora e desmaiando, porque é literalmente:
— Nossa, Harry, o quão burros eles podem ser?
Os dois capangas saíram mais tarde do salão porque comeram terceiras e quartas repetições da ceia de natal. Ao perceber os muffins flutuando, eles os engoliram em uma mordida.
E sem mudar suas expressões faciais, caíram ao chão inconscientes.
Desafio da Escrita Cênica
Particularmente acho que estou em uma competência boa como escritor para produzir textos dissertativos. O que não sei como fazer é isso: partir das questões e construir cenas impactantes com discurso direto que retratem as discussões de forma direta. Chegar nesse lúdico de posicionar pessoas em lugar com poucas falas e dizer muito.
Curti muito esse comentário, ele retrata bem minha frustração em não conseguir dirigir uma cena de livro frente a uma das melhores cenas do cinema:
“Take care, little Sammie”
The delivery of that line had so many layers to it. Fondness of the successful man he’s become, sentimentality of the young man he was, and sadness that this is almost certainly the last time they’ll see him alive. He will be reunited with friends and family, while they’re doomed to walk among the living. It’s honestly really tragic.
Ryan Coogler really did make one of the best films of 2025.
Planejamento da J.K. Rowling
Estava revendo aquela tabela em que a J.K. Rowling reorganizou à mão os principais eventos em A Ordem da Fênix. Olha que interessante como ela planeja a trama.
Se formos pensar em desenvolver uma ferramenta prática que seja replicável para sistematizar os processos de planejamento e edição em escrita criativa partindo da estrutura em Harry Potter, olha o que sabemos sobre como ela se organizou ao menos uma vez, por evidência.
As colunas foram: número de capítulo + mês do ano + título + enredo central no capítulo. Ponto, isso por si já é uma tabela de conteúdo programático que pode ser útil para maior parte dos projetos de pré-escrita.
Aí no caso específico pelo que falam no Reddit parece que ela estava tentando otimizar a ordem dos acontecimentos entre os capítulos (tipo, retirar uma discussão que está estranha no capítulo 17 e trazer para o 14).
Aí para isso ela abre outras colunas, por eixo: o mistério de Hagrid (que estava cuidando do meio-irmão gigante); a dualidade sentimental de Harry por Cho Chang vs Ginny; as visões de Harry da sala da profecia; as tensões na armada de Dumbledore: relacionamento de Tonks e Lupin; a tentativa de assassinato do pai do Ron (tudo que ocorre com os membros da armada na mente da J.K. estava no mesmo eixo, ao planejar a obra); os moleques lá fazendo o coletivo de resistência para ter aulas práticas em defesa contra a arte das trevas; como Harry descobre sobre as memórias de Snape e sobre seu pai.
Minha impressão até o momento é que ela define o básico, como todo escritor e aí utiliza essas tabelas para abrir os eixos narrativos paralelos e vai organizando como os eventos serão encaixados ao longo dos capítulos.
Book Brief
Acho seguro afirmar que essa tabela evidencia elementos que a J.K. Rowling (direta ou subconscientemente) inseriu em um book brief. Não sei se vocês já escreveram um: é um documento em que você pode colocar a síntese de dados que deseja transmitir ao leitor ao longo do seu projeto de escrita.
Primeiro você começa preenchendo o esboço de coisas como: título, resumo, book blurb (aquele textinho da contracapa que sintetiza basicamente a estratégia de marketing, o nicho, o público alvo).
E aí depois disso, você segmenta o roteiro, o que pode ser feito de inúmeras formas. Pelo visto a J.K. tinha cenas muito específicas em mente. E aí ela deixava para elaborar as cenas intermediárias durante seu processo de escrita (?).
O book brief nunca realmente retrata o livro, é só uma ferramenta que a gente preenche para tentar consolidar uma visão mais específica da obra final.