Neste trecho de análise literária, o autor discute a carga emocional e o peso trágico da obra clássica *A Revolução dos Bichos*, de George Orwell, focando especialmente no destino dos animais e na figura do cavalo Sansão.
E pensa o seguinte: imagina que você está diante das portas do paraíso, com um portão fechado e uma fechadura. Você está com uma chave na mão, só que não sabe o que é uma chave nem o que é uma fechadura; não sabe que é só enfiar e girar para abrir. E aí você pega nas barras do portão e fala: "Me deixa entrar, que aqui fora está frio, aqui fora está horrível, me deixa". E você chora, mas não tem ninguém. Você vê do outro lado ali todos os campos verdejantes, você vê, sei lá, os tigres abraçando as pessoas, aquela coisa que o nome chama de Jeová, que é muito bonito, muito lindo no papel. É sério, é lindo, aquilo é maravilhoso. E aí você fica: "Não me deixa entrar também?", sabe? E você não entende.
O que me deixou tocado ali, velho, é que não só eles são ignorantes do que acontece com eles, mas eles são ignorantes da própria ignorância. Eles não conseguem entender; por isso que eles perguntam como é que isso foi acontecer. E a Murta tem esse momento elegíaco, esse momento sublime, velho, e você fica tocado, porque eles estão literalmente olhando para aquele campo verdejante, que é cheio de possibilidades, uma terra fértil onde tudo podia dar certo, tinha tudo para dar certo. E por que as coisas estão dando errado? Porque todo dia tem animais devorando animais, porque a gente passa fome, porque a gente está com frio, porque dá tudo errado, sabe? E eles não conseguem entender.
E eles cantam em grupo chorando, cara. E eu juro para vocês, eu estava lendo em francês aqui e comecei a chorar, velho. Eu não conseguia, cara; eu estava lendo assim e falei: "Puta que pariu", e comecei a chorar. E aí, o que me deu raiva, velho? Me deu uma raiva gostosa de sentir, não uma raiva contra a obra — acho que está muito bem escrito o que eles estão cantando ali. Eles estão cantando, relinchando e fazendo barulho de animal, e aí vêm os cães latindo e rosnando, e eles param. E aí eu parei assim, com lágrima no olho, e falei: "Filhos da puta, cara, eu quase ranquei a página. Desgraçados, cara!" Você fica com uma raiva, com um negócio assim, você vai: "Caraca, velho", e fica com aquilo na cabeça.
Os outros animais, principalmente o Sansão, têm sempre uma grande dificuldade de verbalizar aquilo que sentem. Isso é muito interessante: eles não entendem os próprios pensamentos. Cara, o Sansão, olha que interessante, velho: ele tem a vontade de aprender, só que ele não consegue. Ou seja, ele aprende A, B, C e D — aprende quatro letras. Aí ele fala: "Vou aprender o resto". Aí ele aprende E, F, G, H, e esquece o A, B, C, D. Ele pensa: "Caraca, não posso esquecer!", aí ele volta para o A, B, C, D. E o que ele fica fazendo? Ele fica desenhando na terra com o casco: "A, B, C, D… A, B, C, D". E ele está acima da média, hein? Ah, ele está acima da média, só que ele é impossibilitado de conseguir entender mais. Ele fica "A, B, C, D… A, B, C, D" infinitamente. E outros que conseguem entender não conseguem entender tão bem assim.
E, cara, o Sansão — olha a parada —, ele consegue tudo o que ele quer, mais ou menos. Calma. É que é o seguinte: ele decide desde o início que vai ser o instrumento da revolução. "Eu sou a espada, eu sou o cavalo de trabalho da revolução. Eu quero receber ordens, segui-las e trabalhar até a morte pela revolução." Ele recebe exatamente isso, essencialmente é isso. Só que o trabalho que botam em cima dele não é para o fim que ele está pensando, e a morte que ele sofre pela revolução também não é pelo que ele está pensando. Ou seja, fazem dele gato e sapato, fazem dele otário; ele trabalha loucamente, historicamente, até o fim da vida. E, no fim, sabe o que eles fazem, velho? Eles mandam ele para o que seria — segundo o tradutor de francês — um equineiro, alguém que pega um cavalo morto ou morrendo (ou se já estiver morto, ele só destripa o animal) para vender a carne e o couro, entendeu? E sabe para onde vai esse dinheiro? Para comprar uísque para os porquinhos, porque eles ficaram loucos por bebida alcoólica.
Ah, pô, mas você descreveu muito mal a cena. Essa é a cena mais importante, terrível. Sim, é uma cena cruel, porque ele está lá no canto, doente — ele se machucou na batalha, teve um ferimento que infeccionou, e fica uns três dias ali de repouso —, e falta um mês para ele se aposentar. Falta um mês para ele poder se aposentar e conseguir as coisas de que precisa, e ele continua trabalhando. Fica um mês ali e tal, aí falam que vão chamar a ambulância, mandar para o veterinário, porque é o melhor jeito.
A sequência é assim: o Sansão era aquele cara fortão, animado, cheio de energia, que dava o sangue pela causa. Aí, no final do livro, já idoso — passaram-se dois anos —, ele é um cavalinho velho. Eles vejam que ele está com a anca meio mole e tal, mas pensam: "Quando chegar a grama nova, o capim crescer bonitinho, ele vai comer e vai melhorar". Mas eles olham, ele come o capim e o aspecto dele continua meio caidão. E ele faz força para levar as pedras, parecendo que é só a força de vontade dele que segura as pedras. E aí, em um momento lá, alguém vem correndo — não lembro quem é, ah, o melhor amigo do Sansão é o Benjamin! Isso mesmo, o Benjamin. Foi a primeira vez que ele trotou na vida, né? A primeira vez que o Benjamin trotou foi essa, para avisar que o amigo estava ruim. O Benjamin também já é um idoso, o Matusalém. E ele, no limite da idade, correndo lá, foi avisar: "Ó, o Sansão está mal".
Eles vão lá ver, tem um filetinho de sangue na boca: "O que foi, Sansão?". Ele fala: "Acho que é meu pulmão, não sei quê", mas diz que está tranquilo: "Já vou me aposentar mesmo, pelo menos juntei um monte de pedra". Falta um mês para se aposentar, e ele está aliviado, falando: "Não, não tem problema não, mais uns dias aí já me aposento". Ele está feliz assim, fala: "Não, fiz o meu papel, juntei um monte de pedra para vocês continuarem o moinho". E os outros dizem: "Daqui a pouco você aposenta também para o Benjamin te fazer companhia", uma companhia boa, né, velho?
Aí, beleza, começam a dar remédio para ele durante uns dias, e ele fica deitado lá. É a Murta que passa remédio nele ali na parte infeccionada por causa da Batalha do Moinho, quando explodiu tudo. Ele foi para matar, ele mata, mas nessa sequência ele não está se recuperando, porque o Napoleão não está nem aí para isso. Aí, de repente, o Benjamin vem de novo avisar que ele está sendo levado. Chega todo mundo para ver, e o Benjamin diz: "Seus idiotas, não é ambulância! Está escrito ali o nome do equineiro". Eles vão atrás correndo, gritando: "Sansão, Sansão, se liberta! Se liberta!". E aí que é triste: o idoso olha lá pela janelinha, vê que há algum perigo — ele não sabe o que é, mas sente o perigo — e começa a bater os cascos. E o narrador fala que ele está fraquinho, fraco, velho; antes ele podia quebrar aquela carroça toda sem nenhuma dificuldade, mas agora não consegue mais. A carroça vai embora.
Aí vem o Garganta falar que não, gente, é que a carroça foi comprada de um equineiro, mas o veterinário comprou dele e esqueceu de apagar o nome escrito. E o Benjamin fica olhando para ele com uma cara de "eu vou te matar, velho", embora não faça nada. Só que o Sansão morre na ida mesmo; ele tem um ataque cardíaco e morre ali no caminho. Mas ninguém fica sabendo na hora; eles veem que ele para de se debater, parece que ele se entregou, e ele vai embora. Depois o Garganta vem inventar que ele morreu lá, que viu os últimos suspiros dele. O Garganta mente descaradamente, que filho da puta, velho! Ele vira e diz: "Não, ele me disse assim: 'O importante é o moinho e o nosso grande camarada Napoleão'". Basicamente é isso: obedeçam ao Napoleão até o fim e lutem para construir o moinho pela revolução. Ele inventa as últimas palavras do Sansão.
Eles usam o Sansão até o fim, velho. Caraca, eles fazem o Sansão de otário até o fim. Isso é muito desgraçado. E o Sansão, paralelamente, conseguiu o que queria: morrer pela revolução — ou melhor, trabalhar por ela até morrer, seguindo o que os porcos queriam, porque ele achava que os porquinhos queriam o melhor. Só tinha esse pequeno problema, né, cara? E aí é triste, velho, porque ele morreu, e metade da causa da tragédia dele foi ele mesmo. Ele é um personagem de fato trágico. Só que a *hubris* dele — que é o que chamamos de erro trágico — é uma coisa que ele comete no início: a primeira decisão dele de trabalhar até a morte pela revolução, ou melhor, de seguir o que os porcos disserem para ele seguir. Esse é o grande erro dele, lá no início; ali já começou a tragédia dele, e o que estamos vendo depois são apenas as consequências disso.
E aí é triste, porque ele é um cara bem-intencionado, mas está cometendo um erro. No caso dele não é um crime, ele não está cometendo um crime, mas está cometendo um erro terrível. E o Benjamin fica cada vez mais fechado, velho. O Benjamin sobrevive a tudo, mas ele também é ferido, porque o que atingiu o Benjamin foi perder o Sansão. Tudo já estava ruim, mas perder o Sansão foi o golpe final que o feriu, cara. Nem ele sai ileso. Ninguém sai ileso dali, velho. Cara, é sinistro. Sinistro.