A Gênese da Fúria

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A GÊNESE DA FÚRIA

Lucas Rosalem

No início, a exatidão dos pensamentos de Nuhah, a fonte de vida, já havia equacionado todas as hipóteses, tornando previsível a ele o andamento de tudo; seu nobre desejo de compartilhar a existência o fez criar seres distintos, muitos deles com poder de julgamento e livres da inclinação para bem ou mal.

Dentre os seres criados logo após o Desdobramento do Tempo, os Acsï foram os primeiros a terem o motivo de sua existência justificado por Nuhah. Eram seres formidáveis, com sua essência formada de submissão, sagacidade, disposição e grande inteligência, e cada acsi havia sido provido de virtudes singulares.

Muito se fez, e o desígnio ilimitado das habitações dos Acsï estava concluído. Todavia, a criação seguiu seu curso revelando aos poucos um propósito especial: uma nova determinação, de composição inteiramente diferente, que não refletia a luz da habitação dos Acsï, os quais pairavam deslumbrados de olhos fitados nela. Essa nova dimensão se expandia imensamente enquanto um de seus domínios ganhava os olhares atentos de cada acsi, pois incontáveis novas espécies passaram a surgir ali, no lugar que foi chamado de Fonte Azul.

Todas as criaturas possuíam capacidade de se reproduzir. Contudo, enquanto a muitas delas a exercessem por puro instinto, outras precisavam descobri-la. Ora, desde o início, a alguns a capacidade não foi recomendada e a muitos tampouco revelada.

Fonte Azul depressa se desenvolvia. Os Acsï não viram objeção nos olhos de Nuhah e adentraram o lugar. Se encantavam com cada nova raça originada, estudando curiosos seus comportamentos, e muito se surpreenderam com o gênero mais complexo de toda Fonte Azul, a única feita conforme a semelhança de Nuhah. Eram também os únicos que coparticipavam da essência das duas moradas; seres frágeis e espetaculares. Contudo, logo no início, uma decisão dessa raça fez com que a morte entrasse em seus domínios, longe das habitações dos Acsï e, ainda assim, colocando toda sua hoste em atividade, a mando de Nuhah.

Incessantemente, os Acsï levavam mensagens a eles e os ensinavam sobre cultivo de plantas e uso dos recursos minerais dentre outras coisas, voltando sempre às suas habitações, não se contaminando por muito tempo com os seus costumes. Ficavam encantados com seu esforço, mas notavam claramente que a mortalidade criara tendências em suas ações. De tanto observá-los pelo fato de terem a capacidade de gerar novos semelhantes também coparticipantes das duas moradas, os Acsï notaram também que eles não pensavam na reprodução como as outras criaturas; eles passaram a chamá-los de teokosa, pois aqueles geravam filhos para si. A isso, observavam em silêncio e sem se permitirem ser enxergados, aproveitando que sua luz original não era refletida nessas determinações.

O poder de se multiplicar era algo que nunca fora revelado aos Acsï, mas deles muitos foram seduzidos aos poucos por aquele desejo que os teokosa demonstravam. Eles passaram a permanecer junto a eles por cada vez mais tempo, sendo influenciados pelo seu pendor instintivo e destrutivo.

Era costumeiro a um acsi observar atentamente e julgar o que fazer, qual fosse o assunto, mas já não podiam arbitrar livres de inclinações, como antes, tamanha era a influência da convivência com a outra raça. Porém, isso, não percebiam. E não se sabe ao certo quando isso aconteceu.

Os teokosa haviam se perdido em sua busca por satisfação e autonomia. Querendo sempre mais, ousaram seduzir os Acsï. Nuhah observava atentamente, mas, desde o princípio, quando não se pronunciava, sabiam que estavam livres para agir sem medo – livres, porém, sob o custo da decisão. Houve então, pela primeira vez, uma assembleia entre eles que decidiria sobre algo que Nuhah não se manifestara, chamada de Kamakoe.

Starox, o acsi mais curioso e que mais procedia sem reflexão, propôs que convinha habitar com as filhas dos teokosa e com elas gerar filhos e filhas mais próximos da perfeição para aquela raça. Muitos ficaram revoltados, expelindo sentimentos que só os teokosa tinham até então, causando a primeira batalha, lembrada como Laqauszi, pois nunca antes houvera uma batalha entre eles.

A disputa foi terrível e triste. Ao final, o pensamento de poder salvar o futuro dos teokosa misturando suas essências levou alguns dos acsï a romperem com os demais e decidirem ceder em favor dos teokosa.

Starox desceu até Fonte Azul e, no mesmo dia tomou para si uma descendente de Jauz, o primeiro dentre os teokosa que se perdeu e havia sido amaldiçoado por Nuhah séculos antes. Os outros acsï tiveram nojo de Starox e esqueceram seu nome. Eles passaram a chamá-lo apenas de Kamah-tu-Manta, pois foi o primeiro acsi que decepcionou.

Um grupo de quatro dos líderes acsï, com seus subordinados, seguiu Kamah-tu-Manta, e as filhas dos teokosa conceberam deles. Esse grupo foi chamado Rohä e passou a viver com o povo, constituindo o reino de Okike, ao qual prometeu um rei à sua imagem.

Kamah-tu-Manta foi o primeiro a ter seu filho gerado. A criatura foi chamada Ezul e era diferente de todas as outras, por dentro e por fora. Seus cabelos e unhas cresciam mais rápido que o comum, pois sua essência era semelhante à de seu pai. A cor da sua pele era quase tão escura como a de sua mãe, mas parecia emitir parte do brilho de seu pai, que não acompanhou todo seu desenvolvimento, mas de tempo em tempo regressava de suas voltas em torno de Fonte Azul em auxílio dos teokosa, como fazia desde os primeiros tempos.

A criatura gerada cresceu muito em estatura, passando até mesmo seu pai, se mostrando um grande e poderoso guerreiro; tornou-se rei de Okike, cumprindo a promessa de Starox. Ele atribuiu o posto de Supremo Dazah do reino a Qaca, que se destacava pela habilidade de interação e alteração no meio sutil.

Ezul tinha seu espírito tão mais ambicioso que os teokosa, que tomou mulheres para si intentando criar um exército originado de seu próprio sangue; assim Rohä e seus filhos saíram um a um de Okike, formando novos reinos dalém de Doavuz, que são as grandes montanhas a sudeste do portal. Lá, eles puderam governar a seu modo.

A fama de Ezul e seu exército com o tempo se estendeu por toda Fonte Azul. Quanto mais conquistas, mais sua fúria potencializava. Ele estava descontrolado e sua fama se estendeu por todo o continente.

Sua maldade assombrou por longos dias todos os reinos que se estabeleceram desde Doavuz até Kêabuzi, que eram os limites de suas praias ao Sul. Mas as águas não assustavam a Fúria, que ordenou seu povo a desenvolver grandes barcos, pois queria desbravar com mais rapidez o que quer que estivesse no alcance do acesso pelo braço principal daquelas águas, que pareciam não ter fim.

Contudo, do outro lado havia o reino Mafug, ainda puro, que bem antes disso já dominava as águas e por vezes chegou muito perto por Kêabuzi enxergando ao longe o reino e as conquistas de Ezul. Esse povo viu reinos conhecidos sendo subjugados e por vezes escravizados ou até extintos mediante as investidas do exército de Okike, que agora chegava cada vez mais perto. Apressadamente passaram a planejar uma armadilha.

Naquele tempo, o indomável Akêohã, o Grande Senhor dos Mares, interagia de bom grado com os mafugumï, que depressa conseguiram sua ajuda contra Ezul e seu exército.

Tempo se passou e parte das tropas de Ezul, dispostas a dominar o que estivesse ao longo do caminho, avançaram prepotentes pela extensão das águas e no meio de seu trajeto foram surpreendidos um a um pelos ataques de Akêohã, que, se agarrando por toda extensão de cada barco, puxava para dentros das águas e em segundos soltava, mas voltavam apenas destroços e sangue. Os ataques eram muito sutis, notavam-se só os gritos dos tripulantes tragados. Acostumados à ofensiva, se depararam em uma situação de emboscada onde todos, com exceção de Ezul, perderam completamente seu vigor e sua fúria habitual, sucumbindo facilmente aos ataques dos mafugumï que logo começaram, tanto pelas águas quanto pelas encostas; foi um massacre.

Enquanto sua tropa era esmagada, Ezul se jogou nas águas e nadou em direção à margem, ficando à espreita. Enquanto assistia ao longe, sua ira aumentava sobremaneira, quando não pode se segurar e gritou altissonante:

– Quem é o maldito que me afronta? Ordeno que me enfrente agora! – seu grito ecoou com violência e como se sentissem sua ira impregnada no eco, por um momento os mafugumï foram dominados pelo medo e pararam instantaneamente esperando a reação de Akêohã, o qual se ergueu das águas indo a ele.

Uma batalha feroz que jamais seria esquecida se iniciou. De um lado, o rei de Okike, príncipe dos Acsï, o mais poderoso dos que já caminharam sobre Fonte Azul, de outro, a mais poderosa criatura que surgira em todo o vasto território das profundezas, cuja origem dizia-se para ser sempre um mistério.

Ezul nunca encontrara criatura mais poderosa do que si, mas entendera imediatamente que ninguém de Fonte Azul poderia fatalmente contra Akêohã. Só lhe restava fugir. Assim, Ezul correu para longe das águas enquanto concebia um pensamento: dos teokosa e Acsï fui concebido assim; que será de outra criatura gerada desta fera e um acsi?

Seu bizarro plano estava traçado. Mas essa já é outra história.

 

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