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Só Uma Breve Soneca

Foi tudo muito rápido: mal receberam o alerta e os capangas já estavam no quintal. Quando o sensor acusou, saíram pela garagem derrubando o portão. A arma comprada anos antes só foi lembrada tarde demais. Pela primeira vez, passaram pelo bairro sem admirar as buganvílias que tingiam as fachadas no condomínio fechado. 

Isso é mesmo real? Júlia pressionou os olhos e retomou o fôlego; Jaime enxergou de canto de olho sua expressão e teve um calafrio; sensação de culpa.

O Barão, que havia sido preso pelas denúncias de abuso sexual e cárcere privado, havia encontrado, à sua maneira, uma forma de sair. Ele nunca estivera ausente: mesmo preso, sua sombra sempre pairou sobre eles; um fantasma sorrateiro, rindo entre as cortinas, murmurando avisos e ameaças. E, ainda antes de sair da cadeia, fora informado de que Jaime entregaria à polícia os documentos contábeis que certamente o incriminariam outra vez.

A perseguição foi intensa; as ladeiras exageradas do Santa Teresa impuseram uma única rota. Júlia só pensava na filha no ventre; Jaime dividia os pensamentos entre ela e a fuga; uma pontada de angústia atravessou o coração. Se tivesse sido mais rápido; se tivesse planejado melhor. Cada solavanco, um aviso. Enquanto o carro serpenteava pelas ruas estreitas, continuavam em sua cola os lacaios enviados pelo espectro implacável que os assombrava.

O disparo dado para cima mandava o casal parar. Júlia cobriu a cabeça com os braços.

— Segura firme!

A curva fechada fez o estômago de Júlia revirar. O medo a sufocava, mas estava lúcida: agora era diferente; tinha Jaime, tinha a bebê. Tinha uma chance.

Por dez anos, Barão havia sido seu dono e levado sua juventude, sua inocência. “Não vai levar mais nada” era o mantra a mantinha firme.

Num movimento brusco, esfolou a lateral do carro em um canteiro de dálias. O toque suave no braço da amada tentou amenizar; não estava sozinha. Quando sentiu na mão a cicatriz no pulso, lembrou-se das muitas pelo corpo. Memórias invadiram as mentes dos dois: não a mesma lembrança, mas a mesma dor, cada um carregando sua parte: ela, as marcas; ele, a culpa de tê-la trazido para aquele inferno.

Muito tempo havia passado desde que Jaime tentara entender o peso do passado de Júlia, dos tempos em que ela olhava pela janela da mansão nas manhãs de primavera como único consolo. Um consolo, porém, que não podia aplacar o desprezo por aquele homem que, pelas agressões, ela acreditava ter-lhe tomado a chance da maternidade.

Júlia levou a mão ao ventre e olhou para Jaime. As coisas mudaram desde que ele apareceu, trazendo uma esperança que estava perdida. Comprada, usada e, por fim, liberta, se surpreendeu quando o teste deu positivo, numa mistura de alívio e temor. Helena estava vindo. Calma, minha estrelinha. Depois da violência e dos remédios forçados, a gravidez era um verdadeiro milagre; e o Barão, um presságio sombrio às margens daquela felicidade. E o carro em disparada.

Cada vez mais longe de casa, não conheciam bem aquelas vielas. Latas de lixo se empilhavam, num monumento à decadência. As janelas quebradas das casas pareciam olhos vazios observando a caçada em um silêncio cúmplice.

O carro de trás derrapou. Jaime aproveitou para entrar numa rua qualquer. Motor e luzes desligados. Ficaram em silêncio total; apenas suas respirações ofegantes quebravam a regra. O ronco do motor se aproximou e passou direto pela entrada do beco. Deu certo. Júlia esvaziou os pulmões. Jaime tocou sua mão; o gesto simples carregava promessas. No ventre, um chute suave.

Júlia tomou a mão de Jaime e a colocou sobre sua barriga. Ele disse:

— Ela tem um futuro lindo, Ju.

— A vida que não tivemos…

O passado ainda os perseguia, e aquela era uma promessa pela qual valia a pena lutar. 

Farois famintos os encontraram. Jaime só teve tempo de ligar o carro: os para-choques se chocaram. Lutou para manter o controle, com as mãos suadas retomando o volante.

— Será que isso nunca vai acabar? 

— A gente vai sair dessa! — ele gritou.

Júlia segurava o cinto de segurança já com os nós dos dedos brancos, e com dores no pescoço de olhar para trás.

— Eles não vão desistir! 

No grito de Júlia, o pavor tomava conta da voz. A sombra sinistra do Barão era quase palpável.

Jaime tinha olhos fixos na estrada, mas sentia o peso de tudo o que não conseguia dizer.

Quando um brilho intenso vindo no sentido oposto o cegou por um instante, o carro patinou, desenhando uma serpente no asfalto. Ambos os carros bateram; a haste de metal do pedal atravessou o calcanhar de jaime. Vidros, ferro distorcido, cheiro de gasolina. Escuridão.

Um dos espectros do Barão se aproximou do carro com a cabeça sangrando. Moradores saíram de imediato para confirmar o que ouviram. O incidente não venceu a sombra que fugiu, mas deixou um rastro cruel.

Júlia ficou desorientada. O vestido florido estava sujo, esfolado, manchado de vermelho. Apressou-se a pôr as mãos sobre o ventre e não sentiu Helena. Não sentiu nada. A constatação precipitou-a numa dor que parecia arrancar-lhe a alma. Contorcia-se no asfalto enquanto o sangue escorria pelas pernas. Uma mão firmou-se na barriga, a outra arranhava o chão esfolando as unhas, tentando segurar a realidade que lhe escapava. Quando Jaime voltou a si, Júlia tremia, delirante, com um olhar de desolação que ele jamais esqueceria.

Naquele dia, o sonho acabou.

Júlia acordou horas depois no hospital. Não havia lágrimas, apenas um… vazio. Depois que o médico falou, todas as vozes cessaram. O transe em que voltaram para casa permaneceu por vários dias.

Na primeira noite, não dormiram; houve só exaustão. Pela manhã, Júlia fez seu único murmúrio: “por que, meu Deus?”, olhando para o nada. Jaime emudeceu e apenas segurou sua mão, tão perdido quanto ela; e era só o segundo dia. Dormiram o pior sono de suas vidas, enquanto nem a chuva ousou exprimir seu pesar na janela do quarto — enviara seu vento de rude sopro.

No quarto ao lado, o berço vazio; suas paredes permaneceriam geladas, sem conhecer o som do riso infantil; e a pelúcia, intocada pelos dedinhos. Cada canto trazia a lembrança da vida que não viria. Enquanto Jaime não podia sequer olhar para a porta do quarto preparado para Helena, Júlia mal saiu de lá nos primeiros dias. A vida de Jaime voltou a não ter enredo; a de Júlia, um novo cativeiro para os olhos inchados.

Jaime sabia que não suportaria sair de casa para sentir os olhares carregados de pena e uma curiosidade. Na casa, se multiplicavam os vultos. A atenção policial manteve algum tempo os capangas apenas vigiando, mas os documentos continuavam continuavam na casa, e o Barão não desistiria. Mas, por ora, havia mais o que temer dentro de casa do que fora dela.

A saudade, incontestável, vestia a casa de cinza e esmagava os dias contra a parede. O balançar das cortinas da sala, delicadamente bordadas esperando a nova fase, parecia sem propósito. Para toda parte que seolhasse, havia fantasmas que não podiam ser afugentados. Outrora cheia de expectativas, a casa havia se transformado em um mausoléu.

Se, por um lado, ficar em casa parecia inviável, por outro, permanecer parecia insuportável.

No sexto dia, Jaime se pôs a lavar a louça acumulada, depois que Júlia se trancou no quarto. Sozinho, ele já esfregava aquela caneca como se fosse o teste mais importante da vida quando encontrou uma mancha determinada a não sair. Com os olhos cada vez mais abertos — eu preciso limpar isso —, a pressão da esponja aumentou, aumentou e aumentou até o movimento perder o compasso e a caneca escapar, se despedaçando e molhando o piso. No quarto, Júlia tapou os ouvidos. Outras gotas mais se juntaram ao chão da cozinha.

Foi uma só a vez que Júlia pegou Jaime, de olhar opaco, encarando a gaveta do revólver. E uma só a vez que Jaime viu Júlia, de gestos nervosos, segurando com mãos trêmulas a corda comprada para o balanço jamais feito. Cada palavra não dita se acumulava nos seus ombros.

Da esperança, só sua ausência; e excessivos detalhes das expectativas findas.

Os fantasmas se multiplicaram; a sensação da presença do Barão sufocava o pouco de vida que restava.

As paredes carregavam ecos de conversas não terminadas e inquirições não feitas. O piano não mostrava mais seu sorriso; compunha o ambiente funesto. A música deu lugar ao chiado de uma rádio aleatória, na tentativa de que as notícias, quaisquer que fossem, afastassem a sensação de perseguição à penumbra.

A partir de um certo ponto, não havia mais comunicação entre os dois e o desconforto das assombrações internas da casa suplantou o temor do que havia lá fora. Júlia se perguntava mil vezes “por que comigo?”. Teve ódio do livro preto em destaque na estante; colocou-o no canto quase inacessível. Lembrou-se da vizinha que, semanas antes, perdera o filho atropelado por um bêbado; um menino feito, cheio de sonhos. Mas a minha filha não teve nem chance; nem pôde tentar

Jaime não aguentava mais, precisava superar e só não sabia como. Não se importava mais se estava sendo vigiado e seguido, e nunca mais deixou de andar armado. Vagava todos os dias no mesmo horário perdido em algum canto da cidade sem avisar aonde ia. Júlia sentia-se largada, cercada apenas pelo som dos próprios passos e uma angústia crescente.

E numa dessas noites que Júlia finalmente rompeu o silêncio. 

*****

Ao sair pela porta para esperar o retorno de Jaime, Júlia ouve um som vindo dos fundos. À luz da lua, ela se aproxima com sutileza e vê Jaime agachado ao lado de um buraco no canto do jardim, tentando posicionar uma lápide.

— O que é isso?

Jaime se assusta e deixa a lápide tombar.

— Não é nada, eu só…  — o olhar é de tristeza.

— Eu não quero isso aqui — ela resmunga de olhos fechados.

— Eu preciso fazer isso, meu bem.

Júlia se deixa explodir e empurra o ombro de Jaime.

— Júlia, eu só…

Jaime não consegue completar a frase. Olha para baixo, em direção à placa caída. Júlia volta a falar:

— Um pedaço de pedra não vai trazer a nossa filha de volta!

Enquanto Jaime se abaixa para tocar a lápide, Júlia continua:

— Isso só vai fazer com que a ausência dela seja mais forte!

Jaime abraça forte a lápide suja. A boca tremente se abre:

— Não é um pedaço de pedra. É um sinal de que ela foi real, de que ela foi importante.

— Mas ela não está aqui!

— Se não fizermos isso, quem vai se lembrar? — Jaime aperta os dentes e os olhos. — Quem vai saber o que perdemos? Se não fizermos isso, daqui um tempo só nós saberemos.

Júlia cai de joelhos no chão e Jaime solta a placa. Ela esmurra o chão e o murmúrio sai rasgando do peito:

— Isso dói demais, Jaime! Eu não aguento mais!

Júlia leva a mão instintivamente ao ventre e sente uma leve ardência na marca que jamais sumirá.

Silêncio.

Ele a toca no queixo.

— Amor, a lápide é só…

— Ela devia estar aqui!

— E nós ainda estamos aqui, meu bem. Nós ainda estamos. Eu só… eu só quero que, de alguma forma, ela possa ser lembrada.

— Eu sei. Mas por que você não me disse? Por que não me chamou?

— Eu achei que você… eu… me desculpe!

Júlia olha mais uma vez para a placa, deitada sob a roseira que projeta a sombra de uma rosa sobre o nome em baixo relevo. Eles se abraçam.

*****

Quando Jaime e Júlia puderam aceitar o luto em voz alta e expor a dor um para o outro, a agonia brotou dos olhos e regou o túmulo vazio; uma oração muda pela criança que nunca conheceram. A dor pôde ocupar o lugar certo. 

Júlia suspirou, afundada na poltrona da sala até adormecer. Acordou com uma sensação sobre o que devia fazer. Foi até a estante buscar respostas. Agora, daria uma chance ao que Jaime tanto insistia, algo mais poético que a poesia; algo tão antigo e tão implacável que só podia ser confiável. Pegou o livro velho do canto da estante. Foram três horas lendo sem parar, indo de uma parte a outra, guiada por uma destra invisível.

Entre leituras pesadas e reflexões inexperientes, cada pouco parecia um passo importante. E numa noite, Júlia sonhou; um sonho na medida do seu alcance.

Encontrava-se em um campo sem fim. À sua frente, alguém de aparência etérea e fantasmagórica se aproximou. Não era intimidante. A jovem, por inteira resplandecente, usava uma coroa de louros. E conversaram.

Enquanto Júlia sonhava, algo acontecia fora da casa.

A pancada da porta contra a parede a fez despertar. Naquele momento, Jaime entrava seguido de um homem feroz, conhecido de Júlia. Assim que os dois chegaram na sala, entrou também o Barão. Júlia correu até lá e, de olhos arregalados. Antes que o pavor a tomasse por completo, Jaime se aproximou.

— Está tudo bem. Ele já vai embora.

O Barão não se aguentou em sua arrogância.

— Viu só? Não finja que você não tem mais nada a perder. Você ainda…

— Você matou a minha filha! — Jaime não se conteve.

O outro sujeito apertou seu braço e o lançou ao sofá.

— Como é? Eu matei? Você matou a sua filha. E foi consequência de tentar me ferrar.

Jaime levou um segundo para processar o que ouviu. Diante de si, um homem. Apenas um homem. Levou a mão à parte interna do casaco.

O Barão continuou:

— E não faz diferença! Me traga logo os… 

Pela primeira vez na vida, sentiu-se o homem que sempre quis ser. Jaime assumiu o controle. O capanga ao lado era… nada: a bala indiferente o acertou enquanto a outra mão de Jaime erguia-se para agarrar a garganta do Barão. Jaime saboreou por alguns segundos antes de dizer:

— O que foi que você disse?

A boca do cano tocava a barriga; o Barão não ousava se mexer. Mesmo assustado e com a traqueia quase torcida, não pôde deixar de olhar para o ponto de onde veio a voz:

— Você está errado! — gritou Júlia.

Uma década ao lado de Júlia e o Barão não reconhecia aquele olhar. Não estava chorando, nem assustada. E Jaime cresceu com a reação da esposa; o olhar fixo fulminava aquele à sua frente. O tiro acertou o joelho do Barão, que caiu gritando. Sim, você está errado, seu verme. A minha filha não é insigni…

— Estou falando com você, Jaime.

Confuso, Jaime só pôde dizer:

— Ele merece!

— Você também está errado sobre a nossa filha. Ela não é só uma memória. E se você quer voltar a viver, precisa entender isso.

— Do que você está falando, Júlia? Isso não é hora!

— Se os mortos não ressuscitam, comamos e bebamos, que amanhã morreremos. Não é isso? Você queria que eu lesse. Eu li.

Jaime baixou a arma; virou-se para o Barão:

— Vá embora daqui, agora.

O Barão saiu rastejando sobre seu ventre, derrotado, sem olhar o fiel empregado imóvel no chão.

Júlia continuou.

— A Helena não sofreu. E ela ainda existe. Ela só… nunca despertou — a voz tomou um tom delicado e sublime. — Quando ela entrou naquele corpinho que ainda se formava, estava dormindo. Dormindo. Tudo que ela conheceu foi sonho. Você não precisa se preocupar com ela, nem por ela. Ela só sonhou. Helena nem sabia que tinha nome.

As pernas amoleceram. Jaime soltou o peso num dos joelhos em cima do sofá. Os olhos incharam. 

— Só uma soneca. E nesse sono, seu espírito se foi. Porque Deus não a enviou à Terra pra sofrer. Não, não. Foi uma alma especial, Jaime. A Helena é especial. Ela não veio pra ficar, nem nós viemos. Ela teve um sonho rápido e Ele a quis de volta, e ela voltou.

— Como… quem te disse isso?

— O que fizeram foi terrível. Mas não pra ela. Ela não viu, sabe? Do mesmo jeito que ela desceu, ela se elevou acima da Terra. Passou pela atmosfera, pelas estrelas no céu e entrou em uma luz tão brilhante que, pela primeira vez, ela acordou. Quando ela despertou, já estava envolvida em amor. Nós nem sabemos o que é isso, não é? Amor puro. Mas ela, sim. Claro que sim. Ela nunca fez mal a ninguém, nem conheceu essa maldade. Ela não foi enviada pra nascer aqui. Não é muita felicidade?

— A vida que…

— Que nós não tivemos.

Jaime ergueu o rosto aos céus.

— E nós já sentimos tanta falta!

— Sim, mas ela não está sozinha. Está em casa. Há gente lá com ela. Eles a amam. E quando Deus beijou sua testa, quando Ele disse o nome dela, ela cresceu. É o que eu acho. Num piscar de olhos, ela se tornou completa, terminada, sem passar por isso aqui tudo. Recebeu o corpo como teria sido no melhor dia dela na Terra. A idade perfeita. O auge dela. 

Jaime desabou.

— Vão contar pra ela sobre o papai aqui na Terra. E sobre a mamãe, que um dia também estará lá. Então ela já está feliz. Vai ficar ainda mais. Será pura alegria por toda a eternidade. Em partes, não é isso que o Céu significa? Não mansões, nem rios de diamantes, nuvens de algodão ou asas de anjos. Seremos amados. E não estaremos sozinhos. É por isso que suportamos tudo isso nesta grande e triste rocha azul. Não estaremos mais sozinhos.

Um vento entrou suave; o céu, pintado de laranja e rosa, trouxe sensação de paz. Júlia tomou a mão de Jaime.

— Ela está feliz. Nós a amamos e isso nunca mudará.

Jaime sorriu e a puxou para mais perto.

— E eu a verei todos os dias quando olhar para você, até que a encontremos.

O cadáver ao chão não mentia: a vida não estava resolvida. Mas a página já podia ser virada; não em rendição, nem superação, só uma aceitação serena.

Os dias que se seguiram foram marcados por uma quietude peculiar. Não havia mais medo das palavras ou palavras presas na garganta, tampouco a necessidade do muito falar para o silêncio esconder. E Júlia pôde reorganizar o quarto: as roupinhas foram dobradas com cuidado e guardadas; a memória, preservada. Enfim, o breve descanso.

Os fantasmas foram embora.

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Enredo Execução Escrita Estilo Desafio

Avaliação enviada em 10/08/2026

O plot não é dos melhores do autor. Estamos acompanhando o recorte de uma história que, isoladamente, nos contam tão pouco do que está acontecendo, que in medias res parece não funcionar. Não nos importamos com o personagem, com a fuga, nem o que isso significa. Nos sensibilizamos, no decorrer da narrativa, com a situação de uma moça que pareceu sofrer abuso e cárcere por um antagonista tido pela pior pessoa possível. Quando esse antagonisa aparece, ele é bem bosta. E, como se não bastasse, a decisão de deixá-lo sair foi extremamente anticlimático. Também não entendemos, durante o conto todo, porque eles voltam para a mesma casa. Porque os capangas não mataram Jaime e Julia. E, no final, compreendemos que ele queria alguns documentos. Sendo assim, precisamos reler o início como o momento em que ele soube que eles estavam naquela casa, e então temos a fuga. Mas, porque o Barão demorou tanto a aparecer para cobrar os documentos, após o acidente? Deu tempo do cara “enterrar” a filha (aliás, um conflito muito bem exposto entre o casal). Se o Barão não se importava com aquele sofrimento, ele podia ter aparecido e cobrado os documentos no outro dia, após o acidente.
Enfim, o conto é gigante também, do Antigo Testamento do Universo Anthares.
Não é dos melhores trabalhos do autor.

A escolha da casa assombrada, no luto, dá o aspecto fantasmagórico de forma bem forçada. Mas tá aí.

Frases bem elaboradas colaboram na imersão. Mas alguns diálogos são levemente forçados. Não parecem naturais. Explicam demais, ou são doutrinários demais.

Quanto a escrita, precisa de uma pequenina revisão. Acentos faltando, concordância numeral, falta de espaçamento, erro de regência, falta de travessão em uma fala.

Alguns pontos que podem demandar mais atenção:

* A arma comprada anos antes só foi lembrada tarde demais.
• Excelente que a menção esteja no início, mostrando planejamento do autor. Se ela não fosse usada para qualquer propósito, seria uma informação quase inútil.
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* E enquanto o carro serpenteava pelas ruas estreitas, o espectro implacável que já os assombrava por anos enviara seus lacaios.
• Senti um estranhamento na escolha da disposição da frase, principalmente quanto ao tempo. Enquanto X acontecia, Y aconteceu antes do que aconteceu. Eu reconstruiria. Talvez:
“…, os lacaios, enviados pelo espectro que os assombrava por anos, os perseguiam.
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* seu passados
• seu passado
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* Memórias invadiram a mente dos dois.

Muito tempo havia passado desde que Jaime tentara entender a sensação de Júlia sobre seu passados, nos tempos em que olhava pela janela da mansão nas manhãs de primavera como único consolo. A luz banhava o extenso jardim com sua serenidade ilusória, incapaz de aplacar o desprezo por aquele homem que, pelas agressões, ela acreditava ter lhe tomado a chance da maternidade.
• Não parece crível que a mesma memória, tão específica, tenha invadido a mente dos dois com o toque dele na cicatriz no pulso dela.
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* — Se os mortos não ressuscitam, comamos e bebamos, que amanhã morreremos!
• Falei em live, na época, e sustento o que disse. Não parece, em nenhuma hipótese, algo que alguém diria naquela situação. Soa forçado, conveniente.

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Enredo Execução Escrita Estilo Desafio

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