O último a entrar no elevador foi Miguel. Segurava uma caixa de papelão que ocupava metade do espaço de seus braços. Ao apertar o botão do vigésimo andar, percebeu que alguém já o havia feito. Recuou dois passos, encostando-se no espelho. O elevador iniciou sua subida.
— Bom dia.
Ninguém respondeu. Seu uniforme laranja de entregador contrastava com os ternos cinza e azuis que preenchiam o cubículo; a exceção era Rita, a funcionária da limpeza, que apertou o carrinho contra a parede para liberar alguns centímetros extras. A executiva de cabelos curtos olhou fixamente para os números que ascendiam no painel. O homem mais velho com pasta de couro ajustou os óculos, como se aquele gesto fosse sua resposta. Daniel, o jovem executivo de terno azul-marinho impecável, manteve o olhar no celular.
Miguel mordeu o lábio inferior. A caixa pesava. O silêncio pesava mais.
O elevador estremeceu ao passar pelo décimo andar. Os cinco ocupantes balançaram, num movimento quase imperceptível que, por um segundo, os sincronizou.
Daniel desbloqueou o celular pela terceira vez em menos de um minuto. A mensagem no WhatsApp seguia sem resposta: “Precisamos conversar sobre o relatório da Ásia. Urgente.”
Compôs uma nova mensagem: “Se não receber resposta até meio-dia, levo o assunto para o Conselho.” Apagou antes de enviar. Reescreveu: “Por favor, confirme recebimento.” Apagou. Bloqueou o celular.
Rita observou o movimento nervoso daquelas mãos pelo reflexo na porta. Já havia limpado seu escritório diversas vezes. Conhecia suas manias: xícara sempre à direita do laptop, notas adesivas alinhadas na borda da mesa, lixeira esvaziada três vezes ao dia. Mas naquela manhã, encontrara algo diferente: um porta-retrato virado para baixo e uma mancha de café no carpete que ele tentara limpar sozinho.
Rita ajustou as luvas de borracha em seus punhos. Estavam úmidas por dentro, desconfortáveis. Tocou o terço no bolso do uniforme.
Marcos, o homem de meia-idade com a pasta de couro, tentou se movimentar no elevador apertado. Seu ombro roçou no blazer da executiva.
— Desculpe.
Afastou-se no susto, ajustando a gravata pela segunda vez.
Laura, a executiva de saia lápis, respondeu com um aceno de cabeça. Segurava a alça da bolsa com força suficiente para deixar os nós dos dedos esbranquiçados. Quando o elevador passou pelo décimo segundo andar, seus olhos se fixaram na porta. A porta se abriu, mas não desceu. Marcos a olhou de soslaio.
O elevador seguiu. As luzes fluorescentes revelavam detalhes que todos prefeririam esconder: a mancha de café na manga de Marcos, o botão descosturado no blazer de Laura, o rasguinho na calça do uniforme de Miguel.
“Merda”. Miguel murmurou quando a caixa escorregou alguns centímetros.
Décimo quinto andar. O elevador estremeceu novamente. A caixa escorregou das mãos de Miguel. Daniel, num movimento reflexo, estendeu as mãos para ajudar. A caixa caiu no chão com um som abafado. Algo dentro quebrou.
— Eu ajudo. — Daniel se abaixou, tocando a caixa.
— Não precisa — Miguel puxou a caixa para si. — Está tudo bem.
— Tem certeza? Parece que quebrou.
— Depois eu vejo. Obrigado.
No meio do caminho entre o décimo quinto e o décimo sexto andar, o elevador parou.
As luzes falharam, deixando-os na penumbra por três segundos. Quando as luzes voltaram, ninguém havia se movido. Laura foi a primeira a reagir:
— Ótimo — revirou os olhos, tirando o celular da bolsa. — Sem sinal. Alguém pode chamar ajuda?
Daniel verificou seu celular: sem sinal também.
Marcos respondeu:
— Vou apertar o botão de emergência.
Seu dedo pairou sobre o botão vermelho por alguns segundos antes de pressioná-lo. Com o toque, nada aconteceu. Nenhum som, nenhuma luz. Pressionou novamente, mais forte. Silêncio.
— Fantástico — Laura encostou-se na parede. — Exatamente o que eu precisava hoje.
O espaço parecia diminuir a cada segundo.
Rita soltou o carrinho de limpeza, que ficou encostado na parede. Tirou um lenço do bolso e enxugou a testa com discrição.
— Não vai demorar — sua voz era baixa. — Eles sempre consertam rápido.
— “Eles” quem? — Laura perguntou, sem olhar para Rita.
— A manutenção — Rita abaixou os olhos. — Aconteceu semana passada também.
— E quanto tempo demorou? — Daniel perguntou.
— Quarenta minutos.
— Puts! — Daniel consultou o relógio. — Tenho uma reunião em vinte.
Miguel colocou a caixa no chão, cuidadosamente.
— Acho que estamos todos no mesmo barco agora.
Laura deu uma risada curta, sem humor.
— Dificilmente no mesmo barco.
O comentário secou o ar. Miguel olhou para seus próprios sapatos gastos, depois para os sapatos italianos de Daniel, para os scarpin de Laura, os sapatos sociais surrados de Marcos, os tênis brancos de Rita.
— Só quis dizer que estamos presos juntos — Miguel deu de ombros.
Tautologia a essa hora. Marcos afrouxou a gravata. Os dedos pareciam estar tremendo.
— Está ficando quente aqui.
Tirou um lenço do bolso e enxugou a testa. Suas mãos tremiam visivelmente agora.
— Você está bem? — Rita perguntou, dando um passo em sua direção.
— Estou ótimo. Só não gosto muito de espaços fechados.
— Claustrofobia? — Daniel perguntou.
— Não, não — Marcos dobrou o lenço meticulosamente. — Só… prefiro quando as coisas estão como deveriam.
Laura revirou os olhos outra vez.
— Quem não prefere?
Tautologia minha.
Dez minutos se passaram em silêncio. O ar ficava cada vez mais pesado. Rita abriu o carrinho de limpeza e tirou uma garrafa de água.
— Alguém quer?
Laura olhou para a garrafa com transparente desconfiança.
— Não, obrigada.
Daniel hesitou, depois estendeu a mão.
— Eu aceito, se não se importar.
Bebeu um gole pequeno e devolveu a garrafa.
— Obrigado.
— De nada.
Rita sorriu, um sorriso tímido que rapidamente escondeu.
Miguel olhou para a caixa no chão. Um líquido escuro começava a vazar de um dos cantos.
— Droga.
Abaixou-se, tentando conter o vazamento com as mãos.
— O que é isso? — Daniel deu um passo para trás.
— Vinho. Deve ter molhado todo o resto na caixa.
Miguel tentou conter o perímetro do líquido no chão com o calçado.
— Era um presente de aniversário para minha esposa.
Rita voltou a abrir o carrinho de limpeza, tirando um pano.
— Aqui, use isso.
Miguel aceitou e tentou conter o vazamento. O líquido escuro manchou suas mãos, seu uniforme, o piso do elevador. Daniel recuou o máximo que o pequeno espaço permitia.
— Cuidado com meus sapatos, por favor.
Sua voz saiu mais aguda que o normal.
Miguel parou de tentar limpar. Olhou devagar para cima, encarando Daniel.
— Seus sapatos?
— Não quis dizer… — Daniel meneou a cabeça. — É que são de camurça e…
— E custaram o que? Metade do meu salário mensal? — Miguel não levantou a voz, mas cada palavra saiu carregada de peso.
Um silêncio desconfortável preencheu o elevador. Laura olhou para o teto, como se estudasse algo fascinante nas luminárias.
Miguel mesmo foi quem quebrou o silêncio:
— Desculpe. Não é um bom dia.
— Para ninguém — Rita ofereceu outro pano.
Daniel olhou para o relógio novamente. Desbloqueou o celular, ainda sem sinal. A mensagem não enviada ainda brilhava na tela: “Se não receber resposta até meio-dia, levo o assunto para o Conselho.” Miguel viu.
— Posso perguntar uma coisa? — Miguel de repente olhou para Daniel. — Você sempre ameaça seus colegas desse jeito?
Daniel levantou os olhos do celular, surpreso.
— Como?
— Sua mensagem — Miguel apontou para o celular. — O reflexo no espelho deixa ler. Você sempre resolve as coisas ameaçando levar para o conselho?
Daniel bloqueou o celular rapidamente, enfiando-o no bolso.
— Não é da sua conta.
— Verdade, não é — Miguel deu de ombros. — Só me fez pensar no cara que demitiu meu irmão mês passado. Mesma técnica.
Daniel ajustou a gravata, um gesto espelhando o tique de Marcos.
— Você não sabe nada.
— Sei que tem alguém tremendo de medo do outro lado dessa mensagem — Miguel dobrou o pano manchado de vinho. — Como meu irmão tremeu quando foi chamado na sala de recursos humanos.
— Miguel… — Rita colocou a mão no braço do entregador. — Por favor.
Laura, que até então observava a cena em silêncio, soltou uma risada curta.
— Ele tem alguma razão, sabia?
Todos se viraram para ela.
— Sobre o medo — Laura continuou. — Vocês não fazem ideia do que é trabalhar neste lugar.
Olhou diretamente para Daniel e continuou.
— Do que é ter que sorrir quando o CFO faz piadas sobre suas pernas na frente de toda diretoria. Ou fingir que não viu o e-mail “acidental” com planos para te substituir.
Laura abriu a bolsa, tirando um batom. Aplicou meticulosamente, usando o espelho do elevador.
— Eu deveria estar no décimo segundo andar agora. Pedindo demissão. Mas não tive coragem de apertar o botão quando passamos por lá.
O elevador permaneceu em silêncio. Laura sorriu, um sorriso que não alcançava os olhos.
— Então sim, estamos todos no mesmo barco. O barco do medo.
Marcos encostou-se na parede, escorregando alguns centímetros. Sua respiração ficou mais pesada.
— Preciso sair daqui.
Rita deu um passo em sua direção.
— Respire fundo. Vai passar.
— Você não entende — Marcos desabotoou o colarinho da camisa. — Tenho uma apresentação. O relatório está todo errado. Manipulei os números.
O silêncio que seguiu foi denso, quase palpável.
— Por quê? — Daniel perguntou.
Marcos olhou para o chão, para o vinho derramado que agora manchava seus sapatos de camurça.
— Porque me mandaram. E porque tenho três filhos na faculdade.
Puxou a pasta para mais perto do peito, como um escudo. Seguiu:
— Vinte e sete anos nesta empresa. Nunca fiz nada errado. Até hoje.
Miguel olhou para a caixa arruinada no chão.
— Minha esposa faz aniversário hoje. Dez anos de casados.
Apontou para a mancha de vinho. Respirou, desabafou:
— Era um Cabernet 2015. O mesmo que bebemos no nosso primeiro encontro.
Rita se sentou no chão do elevador, as costas apoiadas na parede.
— Meu filho está no hospital — a voz saiu como um sussurro. — Pneumonia. Segundo dia consecutivo de turno dobrado para pagar os remédios.
Daniel olhou para todos, um por um. Desbloqueou o celular, olhou para a mensagem não enviada. Deletou-a. Digitou outra: “Preciso conversar pessoalmente. Não me sinto bem com o que está acontecendo.” Guardou o celular novamente, sabendo que a mensagem não seria enviada por enquanto.
O elevador estremeceu. As luzes piscaram novamente. Quando voltaram, Laura estava sentada ao lado de Rita.
— Qual é o nome do seu filho? — perguntou, a voz mais suave agora.
— Pedro. Tem sete anos.
— Minha irmã é médica — Laura tirou o celular da bolsa. — Quando sairmos daqui, vou pedir que ela dê uma olhada nele.
Rita não respondeu, mas seus olhos ficaram marejados. Confirmou com a cabeça.
Miguel sentou-se também, formando um semicírculo com as duas mulheres.
— Quando sairmos daqui, vou buscar outro vinho — sorriu, um sorriso genuíno. — Não será o mesmo, mas vai ter a mesma história para contar.
Marcos, ainda de pé, respirava com mais calma agora.
— Vou cancelar a apresentação. Dizer que estou doente.
Olhou para Daniel:
— Você trabalha no departamento financeiro, não é? Te vi algumas vezes nas reuniões.
Daniel assentiu.
— Departamento de investimentos asiáticos.
— Quando sairmos… — Marcos hesitou. — Posso te mostrar os números reais? Preciso de ajuda para consertar isso.
Daniel olhou para seu relógio, depois para Marcos.
— Tenho um horário livre após o almoço.
Sentou-se ao lado de Miguel, completando o círculo no chão do elevador. Olhou para cima, para as luzes fluorescentes.
— Estamos sendo ouvidos agora?
— Talvez — Rita deu de ombros. — Ou talvez estejamos apenas ouvindo uns aos outros pela primeira vez.
O elevador estremeceu novamente. Desta vez, moveu-se lentamente para cima. As luzes no painel se acenderam, mostrando que haviam chegado ao décimo sexto andar.
Antes que as portas se abrissem, Laura levantou-se depressa.
— Posso pedir um favor? — olhou para todos. — Quando as portas abrirem, podemos esperar um momento antes de sair? Só um momento.
Ninguém questionou. Quando as portas se abriram, revelando um corredor vazio e bem iluminado, e os cinco permaneceram sentados no chão do elevador, em círculo. O vinho derramado havia secado, deixando uma mancha escura entre eles.
Um minuto inteiro se passou antes que alguém se movesse. Foi Rita quem finalmente levantou, ajudando Laura a se levantar em seguida.
— Décimo segundo andar? — perguntou.
Laura assentiu, apertando o botão.
— Décimo segundo andar.
Quando as portas se fecharam outra vez, todos estavam de pé. O elevador desceu, carregando cinco pessoas um pouquinho diferentes.
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Plot Execução Escrita Estilo
Conto bem escrito, correta execução, estilo, etc. Mas fiquei com a impressão de ser mais próximo de uma cena, do que de um conto. Parece que é um pedaço de algo maior, não um “mero” conto. Quase uma introdução de um conto que “começaria” após a última linha, talvez acompanhando os personagens em sua “nova” vida. Por isso dei uma nota menor no plot.