Com beneplácito do seu olhar, eu aceitei ser sua presa, assumindo pretensões de ser o caçador. Fitando meus olhos em sua face, perdi-me, mas me encontrei em seus lábios, cujas curvas sinuosas me deixaram sem freio.
Embora não saiba, você me tem; toda minha vida e personalidade, assim, engendraram-se para deleitar sua pessoa. Meus pensamentos, atenção – oh céus! – e minha alma são seus, Camile.
Eu, como senhor dos caprichos ínfimos e escravo dos sumos, evitava as pessoas que se faziam presentes no jantar de Natal, cuja função de coadjuvante era fundamental para o personagem principal da minha única, insignificante, desprezível e culpada vida: você, Camile.
Sentado à mesa, ignorando o prato principal, alimentei-me com o néctar da melodia Pour Que Tu M’aimes Encore, enquanto olhava sua pessoa no palco da minha queda, que se apresentava por intermédio dos ventos – traziam seu perfume que cortava os meus sentidos e as minhas razões.
Seu vestido, como uma ciclorama, abria-se para a contemplação do seu corpo que se sustentava por meio das minhas respirações e lasciva, mostrando ao anfiteatro da vida o quão nocivo o desejo é para um homem que decide tê-lo como sua morada.
Sob a tortura do silêncio que ouvia minhas confissões, saí da mesa trépido, folheando minhas parcas falas nessa cena de vexame. Não sabia onde ficava o centro do palco; em ato contínuo, Eloa, com o roteiro maledicente à mão, dirigiu-me a palavra:
Alfredo, meu querido! Lembra da Angela, minha amiga de infância? — esbravejou Eloa.
— Ela, hoje, mora no interior do Brasil — comentando sem conceder-lhe a oportunidade de fala. — Sua filha, recém aprovada em medicina, irá passar alguns dias conosco, em nosso abençoado lar; quero lhe apresentá-la — falou Eloa, dirigindo Alfredo pelos braços.
Saindo do canto do palco caliginoso e, por conseguinte, dirigindo-se ao centro deste, com Eloa o guiando, rememorando a conduta materna, foi-se atuar com demonstrações calamitosas, no tablado do amor, a fim de denunciar a fraqueza dos grandes homens: o desejo.
Eloa o levou à Camile. Esta, como que trocando de cena, fitou-o com os olhos de expiação e lhe estendeu a mão, a qual carregava a boca em direção à sua face.
Alfredo, como um alazão, recuou, reprimindo Camile. No meio do palco, com os combustíveis necessários na mente, lançou chamas de baixo calão — queimando como vagabunda ou La intrusa —, deixando-a taciturna e atemorizada, saindo pelos fundos do teatro, que queimava pelas chamas da perdição.
Como o personagem de Gaston Leroux, colocando o emplastro nas feridas do coração, saiu do palco enquanto se esquivava das chamas e foi esbravejar sua ópera na aresta deste, a fim de que suas lágrimas — que são as usinas hidrelétricas da energia do seu coração — não caíssem sobre o incêndio.
Com a iluminação se apagando e o esvaziamento do anfiteatro de sua queda, um homem — de vestes longas e escuras —, inerte, rente à porta de saída, com um caderno na mão, iniciando uma anotação, olhou o personagem mau desta peça da vida e saiu, deixando uma folha no chão, com os seguintes escritos:
Quando o homem, por pretensões de grandeza, decide ser o autor e diretor de sua vida, uma única peça é apresentada ao palco: a tragédia. Esta realizará o roteiro, o qual muitas vezes é feito de sangue e miséria, e o guiará para sua queda, levando-o a ser o personagem mau de sua ínfima-gloriosa peça. Ninguém, com perfeitas condições mentais, pode escrever, exceto com muita lágrima e dor, qual peça ou atuação fará sobre os palcos da vida.
Alfredo tentou ser freelancer da sua vida; com a dualidade da emoção de sua alma — amor e desejo —, pegou a caneta com tinta de sangue e tatuou — não por linhas tortas — a sua posição de vilão a fim de continuar amar Eloa, sua esposa, e a desejar Camile, que agora é cultivada em sonhos lascivos enquanto ele diz “eu te amo” para aquela.
Eloa preencherá a vida de Alfredo à medida que ele a cultiva e a descobre; Camile será a dor de uma ferida não cicatrizada do coração, o qual chorará e jorrará sangue, maculando o seu silêncio — ouvinte de sua queda.
Enquanto o local se esvaziava, todas as pessoas pisoteavam a carta, como um tapete, marcando suas entrelinhas com as pegadas de todos que passaram pelo anfiteatro da queda; Alfredo, por outro lado, não a leu.
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4 avaliações encontradas.
Plot Execução Escrita Estilo Desafio
Gostei da ideia do enredo, mas acho que sua execução pecou um pouco, ficando até meio chato ou talvez confuso. Passei um tempo lendo e depois relendo, inicialmente estava mais para uma descrição do que para um conto completo, por assim dizer.
Também estou confuso em relação ao desafio propriamente dito, é sobre amar a esposa? Ou desejar outra mulher? É platônico? Por isso dei uma nota neutra.
No geral está interessante, porém acho que faltou algo, parece que faltou sal.
Plot Execução Escrita Estilo Desafio
Muito confuso. No começo, parecia uma declaração de amor e não um conto. Algumas frases depois, parecia a história de um teatro pegando fogo. Porém, no final, mostrou ser o drama de uma vida de fachada.
Plot Execução Escrita Estilo Desafio
Vou comentar enquanto leio.
O primeiro parágrafo é muito bom e está impecável.
Troquei uma pela outra:
– é sua / são seus
– minhas confissões – / minhas confissões,
– mal / mau
Bons 3 primeiros parágrafos.
Cortei:
– bem como
“no palco da minha queda”, muito legal!
Quarto parágrafo bom demais. haha me lembrei agora do nosso primeiro bom frasista.
“em ato contínuo” kkk aqui ficou legal, mas é cacoete seu, hein?
Tirei o primeiro travessão da linha “Alfredo, meu querido”
O parágrafo “Saindo do canto…” tem uma oração muuuuito longa.
Pus ponto depois de: “Eloa o levou à Camile”; “reprimindo Camile”;
Ficou zoada essa metáfora aqui kkk: “que são as usinas hidrelétricas da energia do seu coração”
“freelancer” também ficou meio desconectado
BORA LÁ:
Plot: Gostei bastante. O conto é sobre um cara casado que entra em contato com uma moça nova e linda através da própria esposa. Ele fica doido por ela, mas luta pra não estragar o casamento.
Escrita: Tinha algumas coisas, poucas, zoadas que eu mexi (sujeitas a contestação). No geral, o texto está muito bom, muito acima da média.
Execução: Ao contrário do Luciano, achei boa a construção do protagonista e senti falta de mais coisas sobre a esposa e a moça. O ambiente é descrito só pela sensação poética, o que eu gostei demais.
Estilo: Muitas frases boas; descrições poéticas substituindo descrições literais; estruturas frasais com uma pegada própria, que eu gostei (apesar de alguns vacilos com travessões e vírgulas).
Desafio: É um conto sobre amor, mas não do protagonista pela moça (isso é paixão), e sim pela esposa. Apesar do caráter dele ser duvidoso, ele se esforçou pra suprimir o… bem… o… tesão. É.
Plot Execução Escrita Estilo Desafio
Uma história que não anda.
Todo o conto está restrito a uma única cena.
Excesso de metáforas, principalmente a metáfora teatral, que está entretecida em todo o conto.
Essas comparações excessivas não deixam o conto andar. Se, inicialmente, dão um tom misterioso, interessante, depois, acabam deixando a leitura cansativa. Tão cansativa (pra mim) quanto ler um poema, que muito diz na cabeça do autor, mas para quem ler, são só rimas sem sentido de uma história que não aproveitou seu potencial.
Não há vida ou distinção na personalidade de outro que não o narrador personagem. Sabemos apenas que ele é casado com uma e deseja a outra, mas, aparentemente, luta contra isso. Não fica certo se ele o faz por moralidade. O certo é que o papo de destino abre interpretação para um possível casamento arranjado.
Dá a entender que Camile também o deseja, e investe. Agora… não sei como isso faz sentido. Ela é filha da amiga da esposa. Ela se interessou por ele quando? A diferença de idade deve ser enorme, portanto, torna o motivo por puro interesse ou improvável.
Em tempo, quanto à escrita, há alguns travessões que podiam ser substituídos por vírgulas e algumas vírgulas por travessões:
#Alfredo, meu querido! — Lembra da Angela, minha amiga de infância? — Esbravejou Eloa.
CORREÇÃO: Alfredo, meu querido,* lembra da Angela, minha amiga de infância? — perguntou* Eloa. (não vejo motivo para usar esbravejar* aqui)
#— Ela, hoje, mora no interior do Brasil, respondendo sem conceder-lhe a oportunidade de fala. — Sua filha, recém aprovada em medicina, irá passar alguns dias conosco, em nosso abençoado lar; quero lhe apresentá-la, falou Eloa dirigindo Alfredo pelos braços.
CORREÇÃO: — Ela, hoje, mora no interior do Brasil, –* respondeu*sem conceder-lhe a oportunidade de fala. — Sua filha, recém aprovada em medicina, irá passar alguns dias conosco, em nosso abençoado lar; quero lhe apresentá-la. –* Falou Eloa dirigindo Alfredo pelos braços.