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Avaliação enviada em 02/09/2026

Vamos lá.
Antes de tudo, uma observação: é a primeira vez que vou avaliar um conto por aqui.
Não irei realizar críticas, mas tudo aquilo que identifiquei ao longo da narrativa.

* O título do conto já nos dá pistas do tema central: O falecido não era o homem incompleto, mas, cada um dos amigos.

É um conto existencialista.
Um conto do ser ou não ser. Do dilema da existência: entre a coragem de enfrentar o grande desafio do conhecer a si mesmo e a covardia da fuga de si mesmo, da fuga da dura realidade e da verdade.

* “Aquele no caixão foi o único que nunca partiu; não tentou fugir pra cidade grande, um cargo melhor, uma mulher alheia.

“Não foi ninguém”; pensamento unânime.

Viúva e filhos discordariam.”

– Esta introdução nos apresenta o contraste que reverbera em todo o texto:

O homem simples, que aceitou a realidade e encontrou sentido e beleza no ordinário, era o único que sabia quem era, sem tentar fugir para o mundo na tentativa de fugir de si mesmo. Os seus amigos que encontraram o mundo na perda de si mesmos, eram os perdidos, incompletos, como crianças que se perdem pela estrada sem saber o caminho de volta para casa.

* Acho interessante a forma como cada personagem foi criado e desenvolvido. Neste texto, cada ação, cada fala, cada objeto, têm um propósito específico, nada foi colocado nele de forma aleatória. Tudo tem sincronia e foi pensado como um problema matemático.

Cada personagem aqui representa em esteriótipos uma ideia que o autor buscou desenvolver e defender. A totalidade da narrativa é praticamente uma tese defendida, e, ao meu ver, foi feito muito bem. Por exemplo:

– Isaac, o homem do ordinário, simples e cristão, representa aquele que chegou ao conhecimento de si mesmo e, por isso, aceitou a realidade e a verdade como são.

– Pimentel, o empresário, representa o sucesso e a estabilidade financeira, colocando em jogo todo o tempo de uma vida inteira.

– Rafael, o músico, representa encontrar o sentido da vida na arte, no belo, no estético.

– Noam, o acadêmico, representa o intelecto, a ciência e a filosofia. Explicar toda a Realidade apenas por meio da razão.

– Theo, o boêmio, representa buscar refúgios no hedonismo.

* Quero destacar, também, como a cidade ganha vida, um sentido quase humano. Aqui ela é colocada como um personagem:

“No carro de Pimentel, saíram pela cidade, que os recebeu como se nunca tivessem partido”.

Vejam, neste trecho, quando é citado que todos foram no carro de Pimentel é para destacar a superioridade dele sobre os demais, não que realmente fosse, mas pela perspectiva material e do próprio olhar do Pimentel.

* A citação da música Extra Extra, do grupo Katsbarnea, serve como Easter Egg para fortalecer uma ideia: tentar ganhar o mundo na subtração da própria alma (e aqui alma, também, serve para se referir a identidade, ao eu, ego). No caso dos amigos do falecido, até chegaram conquistar o mundo, cada um a sua maneira, mas, há um questionamento que faço: Como perderiam algo que eles não tinham ?

* No trecho em que cita uma lembrança de Rafael, de uma confissão sua ao amigo falecido: “Quero fugir daqui e tocar em cada canto do mundo”, e recebe a resposta de Isaac: “Seria bem legal ver você na TV. Você vai estar lá longe”, e o que vem em seguida, na fala do falecido, pode ser considerada a frase que define muito bem a ideia central de toda narrativa: “Você pode fugir de tudo, menos de você”.

* E para finalizar, quero destacar duas coisas:

– A primeira está no fato de Isaac ter chutado o chão e ter arrancado a tampa do dedão, e, por consequência, ter ficado uma mancha, um rastro do ocorrido.
Aqui é o momento que tudo muda na vida dos cinco amigos, serve como um divisor de águas. A partir disso, as coisas não seriam as mesmas.
Este é aquele momento que cada um de nós busca para tentar entender qual foi o fato bruto que desaguou, talvez, um destino que não sonhamos para nós. Este é um dos maiores dilemas humanos.
A partir daqui, ninguém mais era o mesmo, e algo tinha se perdido no meio do caminho: ou a inocência ou a alegria de ser viver ou a beleza do ordinário ou até mesmo pessoas que amamos e amigos que são mais chegados que irmãos. Pode ser um ou pode ser tudo ao mesmo tempo, que é bem mais dolorido.
O sangue que Isaac deixou no asfalto serve como marcação para a divisa entre o mundo da inocência e o mundo da experiência. E este mesmo sangue, também, é representado para enfatizar a morte do grupo, da amizade e de bons tempos que não nunca mais voltarão.

– Segunda e última está no fato que Isaac representava o fio que ligava todo o grupo, os cinco amigos, pois foi a partir da sua partida que cada um começou a partir. Foi naquele último grande encontro que se iniciou a dispersão dos caçadores de sentido e significado.
O conto, então, fecha com a transformação de cada um, a princípio, enfatizando a seguinte ideia: “É melhor ir a um velório do que a um banquete”.

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