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O LADO ESCURO DO BRANCO

 Era um dezembro quente quando a noite reivindicou seu posto mais uma vez e, em um lugar afastado da afastada cidade, havia uma casa. 

 Exótica, silenciosa, não passava despercebida, quase um personagem. Dava para sentir uma força estranha e inexplicável fluir dela.

 O vento atravessava as grandes janelas ogivais e fazia as cortinas de linho fino bailarem em um efeito romântico.

Eu sou um homem infeliz, não tenho o dom para a felicidade. Na verdade, nunca tive. Disse Bento, o proprietário da grande casa, entrando em seu quarto com as roupas sujas de terra até os cabelos. 

 Por trás dele, em uma das paredes laterais de um vermelho bordel (toda a casa tinha essa cor), quadros espalhados como de Emily Brontë, Anton Chigurh, Alex DeLarge, Hans Landa, Oscar Wilde, Dostoiévski, Lecter, Norman Bates e entre outros. 

 Se destacava um conjunto de medalhas dos anos consecutivos que foi campeão de natação. 

 Havia espelhos por toda parte, não somente no quarto do senhor Blanche, mas em toda casa, nas paredes e tetos. 

 Móveis, abajures e outros componentes eram revestidos de um material exótico, bege claro, fazendo contraste com o ambiente. 

– Eu não sou uma tecla de piano e nem mesmo um problema matemático. Eu sou eu e minhas circunstâncias. Por hoje basta, vou me banhar. 

 Bento Blanche colocou em sua vitrola a Nona Sinfonia de Beethoven e entrou no banheiro. 

 

 Enquanto enxugava os longos cabelos e pensava o quanto queria mandar aquela gente de jaleco branco para o quinto dos infernos, não estava escrito. De repente, seus pensamentos começaram a ficar mais altos: 

– Espelho, espelho meu, existe alguém mais bonito, atraente e inteligente do que eu? Frisou um olhar de desdém no espelho e continuou: 

– Eu sou o mais inteligente, o mais bonito, o mais notavelmente incrível que todos à minha volta. Isso eles não entendem. 

 Sentou em sua poltrona com as pernas cruzadas, roupão pendendo para os lados e com a kapala apoiada na perna e cheia de leite. Tomou um gole só e disse: Isso sim é bebida, bebida de homem… leite de macho. 

 Sua mente inquieta continuou: 

– Tenho um terrível amor-próprio, e somente os céus são testemunhas do quanto eu odeio me sentir ofendido. Somente o meu me importa. 

 Dentro daquele coração existiam coisas que ainda não estavam muito bem esclarecidas, como um quarto escuro com sua lâmpada quebrada, cheio de entulhos acumulados durante anos e anos. 

 A consciência divagava entre devaneios e a realidade.

– Não somente os céus são testemunhas – pausou para um riso -, eu também sou!

 O anfitrião se sobressaltou em um pulo da poltrona com aquela outra voz e deixou a kapala cair. 

– Aliás, também sou testemunha de cada instante que você respirou e de tudo o que já fez.

– Como entrou em minha casa, criatura do inferno? 

– Não entrei, sempre estive aqui.

– Quem é você? E que papo de louco é este?

– Desculpe a minha falta de educação, deixe eu me apresentar: Benício.

– Benício do quê? 

– Benício é a única informação que lhe importa. Disse o menino de oito anos, que trajava roupas verdes e pés imundos, como de um andarilho sem calçados. 

– O que você quer? 

– Eu não quero nada. Somente elogiar a sua casa tão bonita que parece um santuário. Vejo que é um homem culto. Tem livros excepcionais em sua biblioteca, O Morro dos Ventos Uivantes, Canções da Inocência e da Experiência, O Retrato de Dorian Gray, Memórias do Subsolo. Porém, reparei em um livro mais do que especial, O Duplo, ali em sua cabeceira, está lendo ele? 

 Como alguém que esqueceu de falar algo, Benício acrescentou: 

– Ah, não posso esquecer de citar seus móveis. 

– O que tem meus móveis? 

– São tão exóticos, tem um tom praticamente vivo neles, ou morto – pausou para um riso irônico -, uma cor de pele. 

 Neste momento, Bento entendeu onde o menino desejava chegar, e retrucou em deboche: 

– Obrigado pelo elogio, meu caro. Quer que eu lhe ensine como adquirir bom gosto, e como construir um palácio como este? Será útil para você e, assim, irá crescer diferente dos demais. 

– Não, muito obrigado, estou satisfeito. Eu sei muito mais do que você imagina. Mas será que os outros também sabem? 

– Como assim? Que outros? Bento respondeu intrigado. 

– Sobre como adquirir este gosto cultural tão refinado e, principalmente, este gosto peculiar pela decoração. Este estilo de móveis e luminárias que, acredito, ninguém mais possui. E não posso deixar de citar, seria um crime se eu não fizesse isso: que gosto musical você tem, é difícil encontrar quem goste de Beethoven hoje em dia. A Nona Sinfonia é minha música favorita. 

 Bento interrompeu: 

– A minha também. Você estava me espionando? Como entrou aqui? 

– Eu já disse: Eu sempre estive. 

– Saia da minha casa agora. 

– Daqui não saio, daqui ninguém me tira.

 E quando Bento tentou alterar a voz mais uma vez, Benício interrompeu tranquilamente: 

– Calma, não precisa ficar tão ofendido assim, isso não combina com você. Qual é o nome mesmo? Gentleman? Não é isso o que você é? 

 O copo de Bento transbordou e com sabor de ódio agarrou a kapala e arremessou contra o menino, acertando um dos espelhos. 

 Não satisfeito, correu em direção ao garoto, mas tudo o que conseguiu acertar foi a testa contra o espelho. Caiu e apagou. 

 

 Por volta das 3h da madrugada, acordou, um tanto desconexo e letárgico. 

 Começou a andar descalço sob os cacos enquanto falava: 

– Há tanta beleza no mundo que, às vezes, me sinto sobrecarregado. Os meus ombros até pesam. Acho que esta é a razão pela qual me sinto tão cansado neste exato momento. Olha, os meus pés cheios de sangue, isso não é bonito? – e começou a rir como uma criança acha graça de qualquer brincadeira boba – Isso é tão poético. O vermelho é a minha cor favorita . Ah, há tanta beleza na morte. Enquanto os outros a repudiam e a temem, eu a idolatro e a venero. Por isso fiz questão de deixar minha casa repleta dela. 

– Oi, Benício falou de forma seca. 

– Olha só, o garotinho teimoso ainda por aqui, dentro de meu território.

– Como eu disse: Daqui não saio, daqui ninguém me tira. 

 Bento pegou a kapala do chão, serviu leite e perguntou ao garotinho: – Você quer leite de macho? Este aqui é meu espinafre, é meu cabelo de Sansão. 

 Após tomar tudo, outra vez, em um só gole, arremessou contra outro espelho, tendo em seguida um surto de gargalhadas. 

 Foi lentamente até a sua vitrola, colocou a Nona Sinfonia e ficou se encarando através do teto espelhado. 

 À medida que a música acabava, ele repetia, repetia e repetia. Entre saltos e giros dançava compulsivamente como um danseur. Cada chão, cada cômodo, era o seu palco. Cada quadro, cada livro e discos espalhados por toda casa, era sua plateia. 

 Sem explicações, porque o homem não é uma tecla de piano e nem um problema matemático, o anfitrião se apresentava em seu espetáculo, quebrava espelho por espelho com livro por livro. 

 

 O cantar e voar dos pássaros eram sinais de que a noite tinha voado também. A manhã havia acabado de se apresentar na pequena cidade de Campo Plano.

 Enquanto Bento saia com a sua kapala firme entre as mãos e cheia de leite, a fumaça alaranjada tomava cada vez mais rápido a exótica moradia. 

– Eu me ofendo com facilidade e odeio ser contrariado. Eu iria até o céu e inferno para acabar com a raça de quem ficar em meu caminho.

 Era nítido que o senhor Blanche, como era majoritariamente conhecido, mesclava entre o real e devaneios, e as pessoas que presenciaram tal cena, sentiam um misto de sentimentos, como medo e estranheza.

– O que estão olhando, gente fedida? Seus porcos, ratos, eu esmagaria cada um apenas com uma única pisada. Saiam da minha frente, não me toquem, eu sou refinado demais para ser tocado por vocês.

 Em seguida teve outra crise de risos, e continuou a falar com um olhar asqueroso e de repulsa: 

– Por isso que a única coisa a qual me prestei fazer com seres humanos e pelos seres humanos, foi praticamente um favor a humanidade, a esta raça tão ignóbil e baixa: ilustrar meus tapetes, móveis e abajures. Somente para isto servem. 

 Mas ninguém estava entendendo nada do que estava acontecendo. Para os presentes era apenas um homem que surtou, com palavras sem sentido e uma casa pegando fogo ao fundo. 

 Mas quando Bento avistou o menino no ajuntamento, saiu correndo até a falésia que ficava a metros dali. 

 Mais uma vez, ele avistou o garoto que se aproximou. 

– O que você quer?

– Eu não quero nada. Respondeu Benício. 

– Por que não vai embora, peste? 

– É como eu sempre digo: Daqui não saio, daqui ninguém me tira.

 Diante do precipício, Bento olhou adiante e contemplou todo o mar com uma desconfiada serenidade. 

– Você quer leite? Isso sim é bebida de homem, leite de macho. Você vai precisar para crescer forte e único assim como eu. 

 E entre a realidade e devaneios, as asas que Deus deu à Bento, se ergueram de par em par. As suas últimas palavras foram uma quadra que ele recitou: 

 “Eu sonhava poder voar 

 Deus ouviu minha oração 

 Me ensinou imaginar 

 Serei rei com Tritão”

 Então, a cabeça do anfitrião se ergueu ao céu e o seu corpo foi ao mar. 

 

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