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O sabor amargo da rotina

Adão trabalha em uma indústria de laticínios há 10 anos. Profissional experiente, levava o trabalho de forma rigorosa. Os anos já lhe haviam levado as forças; ultimamente, arrastava-se pelos corredores dos tonéis gigantes de leite.

Naquela manhã, levantou-se com o peso do mundo nas costas e, sentado à mesa, dizia:

— Maria, não sei como vamos fazer daqui em diante, não tenho mais forças para trabalhar.

— Pra tudo se dá um jeito, Adão. Pede umas férias, vá ao médico, faça uns exames e veja o que ele diz. Quem sabe você já pode se encostar?

— Não acredito nisso não, muié. Mas deixa, vou embora porque já tô atrasado.

Maria o acompanhou até a porta e, preocupada, o observou caminhar em passos lentos até desaparecer no fim da rua. Sabia que seu esposo era um homem correto e não conseguia imaginá-lo sem trabalhar; com certeza, poderia enlouquecer.

O dia seguiu na mesma rotina para Adão: ajuste de máquina, revisão de cronograma, almoço, descanso de meia hora, mais revisão de máquina, problema na caldeira. Nada fora do ritmo de 10 anos. Fim do expediente, uma passada no bar da esquina pra tomar aquela dose que lhe dava força pra chegar em casa e terminar o dia, mas não antes de trocar dois dedos de prosa com o senhor Antônio, proprietário do boteco.

— Seu Antônio, já disse que o Goiás não é time de ganhar campeonato, pois só tem perna de pau!

— Olha aqui, moço, vou pôr uma placa aí na entrada dizendo: Proibido Vilanovense com o nome Adão. Aí quero ver se tem coragem de entrar.

— E você acha que uma placa dessa me deixa incomodado, é? Com ou sem placa, não vai mudar a situação do seu timinho não.

Todos os dias Adão fazia questão de perturbar o botequeiro, só pra voltar pra casa rindo das respostas dele e ter o que contar para Maria, enquanto ela terminava de preparar o jantar.

Os dias correram e em uma sexta-feira, véspera de um feriado prolongado o qual o senhor Adão se preparava para uma pescaria com os amigos do bairro, aproveitando que a esposa visitaria a mãe no interior, naquele fim de semana.

Nesse dia, ao chegar ao laticínio, sentiu uma leve tontura, mas, apoiando-se na parede do banheiro, respirou fundo e continuou sua jornada, crendo tratar-se apenas de uma leve vertigem.

Após o intervalo do almoço, foi chamado ao escritório, e rapidamente se apresentou ao gerente de produção:

— Algum problema, senhor?

— Sim, houve uma quebra de funcionários é preciso que fique até as 10h. Pode ser? — perguntou em um tom de ultimato.

— Uai, poder não posso não, mas se não houver outro jeito…

— Pois então, estamos combinados.

Adão saiu do escritório desolado. O peso da autoridade venceu sua vontade, já que não impôs limites, aceitando ser esmagado pela máquina da pirâmide social. Caminhou de volta a seu posto com uma revolta que não cabia no peito, a qual foi alimentada pelos comentários de costume que faziam os funcionários.

— Você viu, Carla? O chefe já partiu pro seu retiro.

— Claro, né? Quem pode, pode; e quem não pode, se sacode — soltou Geralda, no velho ditado.

— Eu conheço a casa de retiro que ele tem, logo ali em Aragoiânia. A casa é enorme, com uma represa que possui uma criação de peixe de dar inveja a qualquer um.

— Mas, Carla, me diga, não foi sua sobrinha que passou um fim de semana com o chefe nesse lugar? — Geralda se recordou do comentário de algum tempo atrás.

— Ah, sim, é verdade! Ela disse que nunca havia visto tanta fartura e beleza como naquele…

— Mais trabalho e menos lorota! Estão aqui para trabalhar! — interrompeu a voz ríspida do encarregado.

O ódio de Adão aumentou com as histórias que ouviu. Queria largar tudo aquilo, ir para casa, pegar a tralha de pesca e seguir seu destino que planejava, já há vários dias. Sua mente descarregava insultos do mais baixo teor em silêncio, em seu íntimo. Mas se lembrava das contas que nunca tinham fim, do sonho do carro zero — que fora abafado pelas obrigações financeiras de sua vida — e de ter largado a escola tão cedo.

Às 18h seria o intervalo e a troca de funcionários. Ele aproveitou para dar um pulo no boteco do senhor Antônio, que, ao vê-lo, exclamou:

— Parece que o Vilanovense está de cara amarrada.

— Me dá uma dose — respondeu ele, sem dar assunto.

O senhor Antônio percebeu que o amigo não estava para conversa e se dirigiu para a pia, dando prosseguimento à limpeza do bar, que na verdade insistia sempre em permanecer um caos. Em silêncio, pagou e voltou ao trabalho, com sua revolta crescente na mente.

Já eram quase 22h quando Adão subiu as escadas que davam acesso à visão panorâmica do laticínio. Os tonéis estavam fechados, com exceção de um. Adão se dirigiu até a plataforma que dava acesso, com a intenção de lacrá-lo, mas, ao chegar no exato local, sentiu a tontura novamente e, dessa vez, ela o derrubou.

Maria se preparava para dormir após um dia prazeroso que tivera com sua mãe. Sentiu uma dor no peito, como se algo tivesse sido arrancado de seu ser. Olhou o relógio de pulso, que marcava 21h45, suspirou fundo e sentou-se à cadeira de balanço na área dos fundos da casa, permaneceu ali observando o céu límpido daquela noite estrelada.

Na capital, a terça-feira amanheceu com sua correria contínua: trânsito movimentado, pais deixam seus filhos na escola. Maria, chegando em casa, estranhou encontrar as tralhas no canto, como se não tivessem sido usadas naquele fim de semana; a casa estava exatamente como a deixara. Não encontrou o marido.

— Deve ter desistido da pesca — comentou ela, colocando a bolsa sobre a mesa.

— Mas o que ele fez, então? Tudo está exatamente como deixei. Estranho. Nada fora do lugar… Será que ele…? Ah, não sei, melhor esquecer isso. À noite ele volta e relata o fim de semana, como sempre.

Dito isso, ela continuou sua rotina diária.

Na fábrica, a rotina era certa, todos iam e vinham em suas funções, mas algo estava errado. Um lote de leite embalado parecia ter uma tonalidade diferente. O encarregado foi avisado para verificar a caldeira, que podia estar com problema.

Devagar e sem vontade, ele seguiu até a respectiva fonte do problema. Verificou a temperatura e todos os procedimentos que deveria; aparentemente, estava normal. Foi quando ouviu um dos funcionários gritar do alto:

— Senhor, corre, vem aqui ver isso! — ele dizia, enquanto se benzia repetidamente.

O encarregado subiu sem pressa e, do alto, ao ver a cena, perdeu as forças nas pernas, mas teve fôlego suficiente para dar a ordem alta e clara:

— Chamem a polícia!

Não demorou muito para a viatura estacionar na calçada da frente do laticínio.O sargento William, imponente, desceu e se dirigiu à recepção, onde se encontrava uma pequena multidão apavorada.

— Permaneçam todos calmos! O que houve realmente aqui?_Ele deu a ordem, tentando amenizar a situação e entender o ocorrido.

Estava um caos, todos falavam ao mesmo tempo, sem haver condições de entendimento do caso. Impaciente, o parceiro de William gritou:

— Silêncio!!!

Todos se entreolharam e o silêncio se fez presente enquanto o caminho era aberto para a passagem do gerente geral, que veio receber a polícia.

— Bom dia, sargento William — ele disse firme e sério, estendendo a mão enquanto seu olhar fixava a identificação no peito dele. — Meu nome é Edgar, me sigam, por favor, vocês precisam ver, porque será melhor do que explicar.

No caminho, os policiais notaram os funcionários nos cantos, cochichando, e a fábrica totalmente parada, com o som ao fundo das caldeiras de leite. Um rapaz trouxe ao policial um pacote de leite e, entregando-o, se afastou depois de perceber o olhar penetrante de Edgar. O sargento olhou cuidadosamente, percebendo a coloração incomum do produto. A caminhada era longa, mas, enfim, no alto da plataforma, ele entendeu tudo, exclamando:

— Isso, sim, é leite de macho! Fechem a área! A partir de agora, aqui é uma cena de crime.

O sargento disse, já acionando o rádio, solicitando reforço e a polícia científica no local. Enquanto isso, o corpo de Adão boiava na caldei

ra, se decompondo na imensa quantidade de leite.

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