O cheiro fétido do formol queima a garganta antes dos olhos. O ar frio do necrotério arrepia a pele exposta do braço. Pesa mais que o seu primeiro dia de trabalho.
Você olha para o braço esquerdo.
Ele termina no punho.
Faz vinte anos desde o acidente.
Ainda procura a mão quando acorda. Tenta arrumar o rosto ou pegar o copo de leite.
Desde o começo da epidemia, as manchas eram o primeiro sinal conhecido. Ninguém sabia se a doença passava pelo toque, pelo sangue ou pela água. Mas o necrotério era o único lugar onde ainda podia conservar sua mãe.
Ao seu lado, o corpo dela permanece amarrado por algumas cintas. Prendera o corpo às cintas porque, nas últimas horas, ela começara a se mexer.
O peito se move de vez em quando, como se o corpo tivesse esquecido de parar. Ainda acredita que ela pode durar mais.
Injeta à mãe o último frasco de conservante. Mas um tecido se descola e a aparência roxa não melhora. Angustia-se.
— Mãe… mãe… — a voz sai com intensidade.
Nada acontece.
Cai de joelhos e olha o teto.
Primeiro, lembra-se dos momentos bons com sua mãe e chora intensamente, mas logo pensa: poderia ter feito mais.
Sua voz é a única no necrotério. Nada mais se ouve.
Poderia tê-la levado para jantar. Ido mais vezes ao parque. Comprado o chocolate preferido dela. Vocês não fizeram aquela viagem para Trancoso. Poderia tê-la levado a um restaurante de frutos do mar ou ao Coco Bambu.
Agora é tarde.
Aos poucos, os ombros relaxam.
Adormece ali mesmo.
Um espasmo o desperta.
Então ouve um gemido de voz rouca.
É assustador. Por isso se afasta.
Está tudo escuro e você não se atreve a caminhar nem a ligar o interruptor. Sequer sabe onde é seguro tocar. Está vestido, mas seus braços e a cabeça estão à mostra.
O cheiro de formol e morte dá náuseas.
Ela parece dizer:
— Filho…
— Mãe… lembra de mim?
Ela olha para o teto.
— Filho…
— Sou eu.
Ela continua olhando para o teto.
— Filho…
Temendo machucar o corpo já deteriorado, tira as cintas. Então o corpo se levanta.
Desiste e se afasta, desconfortável. Pede para ela parar.
A voz dela é rouca e oscila. A sua sai triste.
Ela passa por você, sem tocá-lo. Por um instante, custa a reconhecer sua mãe. Caminha em direção a um lugar que parece não conhecer.
Procura, no necrotério, a porta de uma casa que já não existe.
Toca a parede devagar.
Espera.
Depois segue andando como se esperasse uma porta.
Não se atreve a se mexer, apenas olha o corpo quase nu. Aprendeu a reconhecer a contaminação pelas manchas que surgem na pele. Ainda não sabe se basta tocar um infectado para adoecer. Então, com o seu corpo desajeitado, permanece ali mesmo.
Por um momento estende a mão em direção a mãe, mas não a toca de fato.
Ao amanhecer, já consegue enxergar as superfícies com a luz do sol. Percebe que um dos dedos dela se desprendeu durante a noite. Sua mãe está junto à parede, chamando por um filho incapaz de reconhecer.
O dedo está escurecido e alguns vermes se movem sobre ele.
Desvia os olhos.
Olha para a mão amputada, depois olha o dedo.
Então toma uma decisão estranha, nascida do apego. Vai até os armários e procura uma garrafa de formol. As que encontra estão vazias. Ao lado delas, há um jaleco sujo.
O conservante não é suficiente. Por isso, decide ir ao mercado buscar mais. Conhecia os riscos de sair, mas conhecia também o destino dos corpos deixados sem conservação.
Sai do necrotério e, no caminho, andando cabisbaixo, vê sua vizinha. Rosiane vaga no meio da rua, sem um braço. Os ombros estão apodrecidos e cobertos de sal. Um dos olhos se desprendeu e permanece junto à sarjeta; pedaços escuros do abdômen marcam o caminho por onde passa.
Uma mangueira está ligada, despejando água, mas ninguém se atreve a beber.
O vento empurra cabelos, unhas e pequenos pedaços de pele pela calçada.
Há um pé sobre a faixa de pedestres.
Ninguém se atreve a tocar.
O marido dela está sentado na frente da casa, com olheiras, tomando o que parece ser café preto e segurando um saco de sal novo, pronto para ser jogado.
Ao lado dele, um corpo coberto de sal é comido por vermes. A princípio, você não o reconhece. Então vê a pequena presilha azul no cabelo. O corpo tenta se levantar, então o homem atira mais sal.
Troca olhares com o homem, mas nenhum dos dois se atreve a cumprimentar o outro.
Não é um bom dia.
Anda mais um pouco e vê a mesma cena outras vezes.
Lembra-se de que, quando perdeu a mão, seu pai dizia:
— Pior que morrer é viver faltando pedaço.
No mercado não há caixa. Há apenas uma pessoa usando roupa totalmente vedada, máscara fechada e um macacão plástico. Um cartaz escrito à mão diz: “Não aceitamos cartão. Só dinheiro.”
Senta-se.
Fica olhando o jeans desbotado e o homem de máscara coloca uma lata de batatas à sua frente.
— O senhor precisa de algum item? — pergunta o homem.
— Eu acho que…
Olha para as batatas.
Come outra.
— Faz quanto tempo que o senhor está aí?
— Nã… Não sei.
Só percebe que está com fome depois da terceira batata. Come outra. Depois outra. A luz que entra pela porta já mudou quando finalmente se levanta.
Pega um galão de formol, sal, lanternas e um macacão azul.
Entrega algumas notas amassadas.
— Quer algo mais?
— Talvez eu devesse levar alguma coisa pra minha m…
O homem espera.
Olha para as batatas.
— Ela não come. O corpo está…
O homem não responde.
— O corpo!
Volta ao necrotério com cuidado para não se contaminar.
Leva uma lanterna para iluminar a rua sob a luz da lua.
No caminho de volta, um morto tropeça em sua direção. Você se afasta e verifica os pés e pernas. Não há manchas nem sangue sobre a pele. Verifica as próprias mãos. Não houve toque.
Mais à frente, sua vizinha Rosiane agora está sem uma perna e se arrasta pelo chão. Rosiane já havia lhe pedido açúcar tantas vezes; você conhecia o som da voz dela antes mesmo de abrir a porta.
O marido está ao lado dela, contaminado, com a carne apodrecendo. Os olhos cheios de pus. Ele permanece ali, ao lado dela. Ainda tem sal nas mãos.
Ignora a cena e desce para o necrotério.
Ela está parada em um canto.
Lá embaixo, pensa em abraçá-la.
Não se aproxima.
— Filho…
Quase se aproxima e segura as lágrimas.
Então olha para as mãos dela.
Respira fundo.
Com luvas, despeja formol.
Depois atira sal. O tremor dos músculos diminui.
Então cobre-lhe o corpo.
Respira fundo e quase sorri.
— Agora sim… Você sempre foi bonita.
O corpo resmunga alguma coisa.
— Tá tudo bem agora, mãe. Ninguém vai tirar mais nenhum pedaço de você.
Algo se desprende sob o macacão.
Era outro dedo.
Você não tem permissão para enviar avaliações.
Nenhuma avaliação encontrada.