Menu fechado

Aqueles que sobraram

O que pedia este desafio?

Escreva um conto (de 1000 a 2000 palavras) com o NARRADOR em segunda pessoa. Não é a conjugação que precisa ser em segunda pessoa ("tu" em lugar de "você"), mas o narrador; ou seja, ele deve se referir diretamente aos atos do narratário.

 

O cheiro fétido do formol queima a garganta antes dos olhos. O ar frio do necrotério arrepia a pele exposta do braço. Pesa mais que o seu primeiro dia de trabalho.

Você olha para o braço esquerdo.

Ele termina no punho.

Faz vinte anos desde o acidente.

Ainda procura a mão quando acorda. Tenta arrumar o rosto ou pegar o copo de leite.

Desde o começo da epidemia, as manchas eram o primeiro sinal conhecido. Ninguém sabia se a doença passava pelo toque, pelo sangue ou pela água. Mas o necrotério era o único lugar onde ainda podia conservar sua mãe.

Ao seu lado, o corpo dela permanece amarrado por algumas cintas. Prendera o corpo às cintas porque, nas últimas horas, ela começara a se mexer.

O peito se move de vez em quando, como se o corpo tivesse esquecido de parar. Ainda acredita que ela pode durar mais.

Injeta à mãe o último frasco de conservante. Mas um tecido se descola e a aparência roxa não melhora. Angustia-se.

— Mãe… mãe… — a voz sai com intensidade.

Nada acontece.

Cai de joelhos e olha o teto.

Primeiro, lembra-se dos momentos bons com sua mãe e chora intensamente, mas logo pensa: poderia ter feito mais.

Sua voz é a única no necrotério. Nada mais se ouve.

Poderia tê-la levado para jantar. Ido mais vezes ao parque. Comprado o chocolate preferido dela. Vocês não fizeram aquela viagem para Trancoso. Poderia tê-la levado a um restaurante de frutos do mar ou ao Coco Bambu.

Agora é tarde.

Aos poucos, os ombros relaxam.

Adormece ali mesmo.

 

Um espasmo o desperta.

Então ouve um gemido de voz rouca.

É assustador. Por isso se afasta.

Está tudo escuro e você não se atreve a caminhar nem a ligar o interruptor. Sequer sabe onde é seguro tocar. Está vestido, mas seus braços e a cabeça estão à mostra.

O cheiro de formol e morte dá náuseas.

Ela parece dizer:

— Filho…

— Mãe… lembra de mim?

Ela olha para o teto.

— Filho…

— Sou eu.

Ela continua olhando para o teto.

— Filho…

Temendo machucar o corpo já deteriorado, tira as cintas. Então o corpo se levanta.

Desiste e se afasta, desconfortável. Pede para ela parar.

A voz dela é rouca e oscila. A sua sai triste.

Ela passa por você, sem tocá-lo. Por um instante, custa a reconhecer sua mãe. Caminha em direção a um lugar que parece não conhecer.

Procura, no necrotério, a porta de uma casa que já não existe.

Toca a parede devagar.

Espera.

Depois segue andando como se esperasse uma porta.

Não se atreve a se mexer, apenas olha o corpo quase nu. Aprendeu a reconhecer a contaminação pelas manchas que surgem na pele. Ainda não sabe se basta tocar um infectado para adoecer. Então, com o seu corpo desajeitado, permanece ali mesmo.

Por um momento estende a mão em direção a mãe, mas não a toca de fato.

Ao amanhecer, já consegue enxergar as superfícies com a luz do sol. Percebe que um dos dedos dela se desprendeu durante a noite. Sua mãe está junto à parede, chamando por um filho incapaz de reconhecer.

O dedo está escurecido e alguns vermes se movem sobre ele.

Desvia os olhos.

Olha para a mão amputada, depois olha o dedo.

Então toma uma decisão estranha, nascida do apego. Vai até os armários e procura uma garrafa de formol. As que encontra estão vazias. Ao lado delas, há um jaleco sujo.

O conservante não é suficiente. Por isso, decide ir ao mercado buscar mais. Conhecia os riscos de sair, mas conhecia também o destino dos corpos deixados sem conservação.

Sai do necrotério e, no caminho, andando cabisbaixo, vê sua vizinha. Rosiane vaga no meio da rua, sem um braço. Os ombros estão apodrecidos e cobertos de sal. Um dos olhos se desprendeu e permanece junto à sarjeta; pedaços escuros do abdômen marcam o caminho por onde passa.

Uma mangueira está ligada, despejando água, mas ninguém se atreve a beber.

O vento empurra cabelos, unhas e pequenos pedaços de pele pela calçada.

Há um pé sobre a faixa de pedestres.

Ninguém se atreve a tocar.

O marido dela está sentado na frente da casa, com olheiras, tomando o que parece ser café preto e segurando um saco de sal novo, pronto para ser jogado.

Ao lado dele, um corpo coberto de sal é comido por vermes. A princípio, você não o reconhece. Então vê a pequena presilha azul no cabelo. O corpo tenta se levantar, então o homem atira mais sal.

Troca olhares com o homem, mas nenhum dos dois se atreve a cumprimentar o outro.

Não é um bom dia.

Anda mais um pouco e vê a mesma cena outras vezes.

Lembra-se de que, quando perdeu a mão, seu pai dizia:

— Pior que morrer é viver faltando pedaço.

 

No mercado não há caixa. Há apenas uma pessoa usando roupa totalmente vedada, máscara fechada e um macacão plástico. Um cartaz escrito à mão diz: “Não aceitamos cartão. Só dinheiro.”

Senta-se.

Fica olhando o jeans desbotado e o homem de máscara coloca uma lata de batatas à sua frente.

— O senhor precisa de algum item? — pergunta o homem.

— Eu acho que…

Olha para as batatas.

Come outra.

— Faz quanto tempo que o senhor está aí?

— Nã… Não sei.

Só percebe que está com fome depois da terceira batata. Come outra. Depois outra. A luz que entra pela porta já mudou quando finalmente se levanta.

Pega um galão de formol, sal, lanternas e um macacão azul.

Entrega algumas notas amassadas.

— Quer algo mais?

— Talvez eu devesse levar alguma coisa pra minha m…

O homem espera.

Olha para as batatas.

— Ela não come. O corpo está…

O homem não responde.

— O corpo!

 

Volta ao necrotério com cuidado para não se contaminar.

Leva uma lanterna para iluminar a rua sob a luz da lua.

No caminho de volta, um morto tropeça em sua direção. Você se afasta e verifica os pés e pernas. Não há manchas nem sangue sobre a pele. Verifica as próprias mãos. Não houve toque.

 

Mais à frente, sua vizinha Rosiane agora está sem uma perna e se arrasta pelo chão. Rosiane já havia lhe pedido açúcar tantas vezes; você conhecia o som da voz dela antes mesmo de abrir a porta.

O marido está ao lado dela, contaminado, com a carne apodrecendo. Os olhos cheios de pus. Ele permanece ali, ao lado dela. Ainda tem sal nas mãos.

 

Ignora a cena e desce para o necrotério.

Ela está parada em um canto.

Lá embaixo, pensa em abraçá-la.

Não se aproxima.

— Filho…

Quase se aproxima e segura as lágrimas.

Então olha para as mãos dela.

Respira fundo.

Com luvas, despeja formol.

Depois atira sal. O tremor dos músculos diminui.

Então cobre-lhe o corpo.

Respira fundo e quase sorri.

— Agora sim… Você sempre foi bonita.

O corpo resmunga alguma coisa.

— Tá tudo bem agora, mãe. Ninguém vai tirar mais nenhum pedaço de você.

Algo se desprende sob o macacão.

Era outro dedo.

 

 

 

Você não tem permissão para enviar avaliações.

Nenhuma avaliação encontrada.