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OLHE PARA MIM

O que pedia este desafio?

Escreva um conto (de 1000 a 2000 palavras) que tenha um protagonista cuja visão do mundo muda radicalmente depois de uma experiência que nunca é explicitamente descrita.

Três homens entraram no saguão da luxosa hospedaria. Lustres brilhando, moças de vestidos ainda mais reluzentes e adornos que pagariam o soldo solar de uma centúria. Uma música suave embalava a experiência.

Lugares reservados longe do palco. Sem problemas. A noite convidava a comida boa e, quem sabe, o calor de uma donzela.

— Eu tenho uma convicção — disse Kosir, sondando o recinto. — Não voltarei para a pousada sozinho hoje.

— Não mesmo — Dwar, um homenzarrão com uma enorme cicatriz da têmpora à boca, concordou. — Voltaremos juntos. Você, provavelmente, desmaiado de bêbado e eu terei de te carregar outra vez.

Sentaram-se. A música ambiente deu lugar a palmas extremamente educadas. Uma moça de cabelos negros corridos e um longo vestido vermelho subiu no palco. Com um sorriso largo e estalar de dedos deu início à sua apresentação. Os instrumentos acompanharam.

Ao fim da primeira canção, palmas mais efusivas. Nada tabernal.

Outra canção, e mais outra. Na altura da terceira, as pessoas já conversavam entre si. Kosir e Dwar também. Lugan, por outro lado, não conseguiu desviar seus olhos da moça.

Por isso, voltaram na outra noite. E quando Kosir e Dwar perceberam que não lograriam êxito na sedução das moças ricas, Lugan voltou sozinho, tantas vezes quanto fossem necessárias para parecer um perseguidor.

Já era fim de noite no saguão da hospedaria. Quase todas as mesas abandonadas. O som melancólico do violino colocava um ponto final nas apresentações.

Assim que a moça desceu do palco e foi na direção de Lugan, a percussão voltou furiosa, dentro do peito do rapaz.

— Posso? — ela sorriu.

— Pode o quê? Sentar? C-claro. No meu lugar? — levantou-se, batendo a mão no copo e derramando o pouco do que restava do destilado mais barato que conseguiu comprar.

A moça deu risada. Bom sinal?

— Não, moço! — O sorriso maravilhoso continuava lá. — Posso me sentar com você?

— Ah, sim. Pode. — puxou a cadeira para ela e voltou para seu lugar.

Ficaram em silêncio por alguns instantes. Lugan buscou um, dentre os milhares de assuntos que preparou para a ocasião. Tudo que encontrou foram dedos tamborilando a mesa e murmúrios da última canção.

— Eu te vi — disse ela com voz firme.

Ele ergueu as sobrancelhas, tentando captar o sentido no que ouvira.

— Eu te vi, desde a primeira vez que entrou. — ela insistiu.

Lugan gaguejou. Viu um copeiro passando e o chamou com um assovio. Rude demais para o ambiente. Não importava. Bebeu de uma só vez o que o homem colocou no copo. Depois de fazer careta e sacudir a cabeça, ele a encarou.

— Eu também te vi, desde a primeira vez que entrei — finalmente falou, virando-se de vez para ela.

— É claro, eu sou a atração principal daqui — o sorriso voltou.

— Seria minha atração em qualquer cenário.

— Qualquer cenário?

— Qualquer um.

A moça enrubesceu e pegou uma tábua de cardápio da mesa. Depois olhou para ele e se levantou. Contornou a mesa, colocou a mão no ombro de Lugan e suspirou.

— Uma boa noite! — ela se inclinou num gesto polido. — Aprecie nosso cardápio.

E saiu, apressada.

Lugan girou o corpo, vasculhando o saguão por qualquer explicação.

“Apreciar o cardápio? Eu não posso pagar por nada disso aqui.”

Quando pegou a tábua, sentiu que tinha algo embaixo: uma chave, com uma plaqueta de ferro gravado com o número de um quarto e a localização de uma pousada.

O lugar fazia sua pousada militar parecer um chiqueiro. Uma construção larga e alta, feita de pedras recortadas e madeira clara. O quinto e último andar foi onde encontrou o quarto cinquenta e cinco vazio.

Tudo estava muito arrumado, como se ainda esperasse um hóspede. A grossa mala de couro no chão era a única exceção. Lugan decidiu investigar mais, mas na breve inspeção, não encontrou mais nada que indicasse que alguém esteve ali.

A porta se abriu no momento em que ele encarava a mala, decidindo se deveria abri-la.

A moça entrou. Ainda com o mesmo vestido, mas despojada de qualquer sorriso.

— Quer me dizer o que está acontecendo?

Ela passou por ele e se sentou na cama. Com tapinhas no colchão, convidou-o a fazer o mesmo.

— Você é um soldado, não é?

— O que me denunciou?

Ela o avaliou de cima a baixo.

— Tudo. Eu não disse que te vi?

Lugan inclinou-se para trás, cruzando os braços.

— Eu sei que me viu, mas não é o que eu perguntei. E você não respondeu o que está acontecendo.

— Sempre sonhou em ser soldado?

— Se eu semp… escuta, você não está me respondendo! — disse, ficando de pé, fechando a cara.

— Eu queria ser escritora — ela pegou o travesseiro da cama e o abraçou. — Não cantora. Eu canto porque ninguém vai ler o que eu quero contar. Arrumei uma maneira…

— Não seja tola! — Lugan esbravejou, sacudindo o punho diante de si — você é uma cantora incrível. A melhor que eu já vi.

— Ouvi dizer que você também é um soldado incrível. Salvou aquele moreno e o grandão mais vezes que eles sabem contar. Tão talentoso quanto o sargento Aruz, é o que dizem.

— Que besteira! Eu não sou… espera, como conhece o sargento Aruz e quem te falou sobre mim? — Lugan apontou o dedo para ela. — É uma terrasseca espiã?

Ela gargalhou e ficou de pé. Depois foi até a janela, puxou a cortina só o suficiente para espiar do lado de fora:

— Eu preciso sair daqui — seus dedos apertaram a cortina. — Quero que você me leve.

Lugan sentiu o corpo enrijecido. Seus olhos passearam da mala à moça, e da moça à porta. Enquanto ele decidia onde pousar os pensamentos, a moça se levantou e foi até ele, com passos delicados, mas queixo erguido.

— Se eu ficar, terei que arcar com uma vida que nunca quis.

— Escuta, moça…

— Luji. Eu me chamo Luji.

— Certo, Luji. Veja bem…

— Não vai dizer o seu nome?

Ele hesitou, estudando-a.

— Tenho certeza que você já sabe.

— Sim, eu sei — ela respondeu, torcendo a barra do vestido.

— Como eu ia dizendo, acho que você me confundiu. Talvez, de todos os soldados, eu seja o último que faria algo fora do meu dever. Eu sinto muito.

Luji andou de volta para a cama, e antes de se sentar, girou sobre os calcanhares e disse:

— Seu dever não é proteger as pessoas de Tabastre? Desse reino? — Sentou-se na cama bruscamente — Eu sou uma cidadã em perigo!

— Qual é o perigo? Talvez, se você for mais clara… — disse Lugan, se aproximando.

— Para o seu bem, basta saber que eu preciso sair daqui. Hoje, agora, de preferência.

— Então, procure outra pessoa.

Lugan se dirigiu para a porta, demorando-se mais do que alguém decidido.

— Espere! — a voz de Luji ganhou contornos de desespero.

Lugan parou, mas não se virou, mantendo a mão na maçaneta.

— Olhe para mim, Lugan.

Ele olhou por sobre o ombro. O sangue lhe fugiu do rosto. O coração galopava.

Ordens de captura foram dadas, cartazes fixados. Um soldado, até então considerado leal e disciplinado, tornou-se inimigo da nação. O sequestro da cantora Luji, noiva do General Ruf, colocou a cabeça do homem a prêmio.

Tudo ficou pior quando Lugan revidou. Dentre os sobreviventes, soldados mutilados testemunharam: ele não quer diálogo.

No quartel de Tabastre, o assunto ecoava.

— Não faz o menor sentido. — contestou Kosir, lendo as últimas notícias no jornal Tabastreno.

— É claro que não. — Dwar concordou imediatamente, lendo a mesma notícia no seu exemplar.

— Faz, sim — Fsei, o soldado designado para repor Lugan, replicou-lhes — Vocês não podem ver, pois estão com pensamento nublado pela emoção. Ele se apaixonou. Vocês mesmos disseram que ele invernou naquele saguão onde a viram pela primeira vez. A paixão pode ensandecer.

Kosir deu um soco na mesa do refeitório e se levantou:

— O tenente Lugan estava sempre se apaixonando. Você não o conhece. Para que isso fosse suficiente para ele trair tudo que acreditou e defendeu é um salto muito grande. Tem coisa aí!

Fsei limitou-se a encarar Kosir.

Dwar rompeu a tensão:

— Tenente Fsei, sabemos que é difícil acreditar e que o senhor está aqui para nos vigiar. Nós também gostaríamos de entender. Se soubéssemos que ele só endoidou ficaríamos contentes em dar um fim nele. Mas servimos com ele por tempo demais para saber que não pode ser só uma paixão.

Ainda voltado para Kosir, Fsei lhe respondeu:

— Então, estão dizendo que o sequestro da senhorita Luji pode ser justificado? E se vocês o encontrassem? Se uniriam a ele? — um sorriso discreto se desenhou.

Kosir socou o ar:

— Você não o faria se soubesse que o motivo do tenente Lugan é justo? Então você é o inimigo, e não ele! — outro soco na mesa.

Fsei desviou os olhos para o jornal.

Ficaram em silêncio por um tempo e Kosir se sentou.

— Então, — disse Fsei com o dedo pousado nas últimas notícias sobre o renegado tenente — por que ele não procurou a corregedoria?

Kosir e Dwar se entreolharam. Kosir saiu em direção à porta. Dwar o acompanhou. Antes que abandonassem o refeitório, Fsei gritou:

— É o que vamos descobrir, soldados! É o que vamos descobrir.

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