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Tudo Cumprido

Outra vez, você neste cubículo. De Botucatu a Miami; uma vitória. Apertando botões e sorrindo pra estranhos. Como se sente?

Pare de fazer isso toda hora; a gravata está como estava desde que você colocou.

Hmm. Não quer me olhar? É. Você fazia isso enquanto eu estava viva.

Olha, gente chamando. Esperando o quê? Hora do espetáculo, amor!

Três de uma vez, hein?

Silvio: Mornin’.

Ué! Sorrisinho, serviçal!

Silvio: Morning. Seventh floor, please. 

Antônio: Calma; meu joelho.

Cíntia: Eu disse. Se tivesse trazido a cadeira de rodas…

Antônio: Até parece!

Ela deve ser filha desse de bengala. Olhe para eles: uma família de riquinhos. O velho com sua arrogância, a filha dos mimos e…

Silvio: Could you get a chair for him?

Esse deve ser… o namoradinho?

Antônio: Não preciso de cadeira.

Cíntia: Mas, pai…

Antônio: E não o envolva nisso. O coitado não está entendendo nada.

Oh, ironia! Você finge que eu não existo, e você não existe pra eles!

Augusto: Pode ser aquela cadeira?

Olha a cara do velho,  descobrindo que você fala português.

Silvio: Brasileiro? Maravilha! Meu nome é Silvio.

Augusto: Prazer. Prontinho. Ai! Meu dedo…

Cuidado, amor.

Silvio: Cortou o dedo, amigo?

Augusto: Uma perna de trás tá lascada. É essa esquerda.

Silvio: Machucou, hein?

O simpaticão é gato.

Cíntia: Pai, que seja quando for usar o elevador, mas você precisa se sentar.

Antônio: Não me trate igual ao estrupício do Antenor, o frouxo. Imagine a cara dele quando souber da celebração pelas parcerias.

É, mas sentou, né? Um arrogante como você era. Lembra, Augusto? O psicólogo que sabia tudo.

Silvio: Pode deixar a cadeira no elevador? Por causa da comemoração, vamos subir e descer, subir e descer, e ele precisa se sentar o quanto puder.

Augusto: Feito.

Sorria, amore!

Cíntia: Vou ficar no andar sete, mas eles vão pro terraço.

Ele viu você apertando o sete, dondoca.

Augusto: Chegamos.

Silvio: Por falar nisso, será que pode nos ajudar durante o dia? Eu faço medicina, não pego no pesado. Nem começamos e estou morrendo!

Antônio: Uma vergonha. É outro Antenor na vida.

Augusto: No almoço, vou buscar uns exames; voltando, estarei à disposição.

E esse silêncio? Parece que o tempo não passa. Ah, vocês chegaram.

Augusto: Terraço, senhores.

Silvio: Estou pensando. Vou descer pra ver uma coisa.

Antônio: Faça o que quiser. Vou indo.

Antipatia em pessoa! Chuta essa bengala dele!

Olha, estão chamando no sete. Deve ser a madamezinha.

Silvio: Cara, não via a hora de encontrar alguém que falasse português pra desabafar!

Virou psicólogo de elevador? Decadência, Augusto. Pelo menos, no Brasil tinha um consultório.

Silvio: Meu pai fez sociedade com ele, mas vim pra cá fingindo interesse nos negócios porque estou namorando a filha do Sr. Antônio há oito meses. É o amor da minha vida, entende? Mas ela não contou a ele sobre o namoro, em todo esse tempo. 

Augusto: O nervosismo é por isso?

Silvio: Em partes. Espere.

O que é que ele…

Olha! Por essa, nem você esperava: anel de noivado!

Silvio: Vou pedir a mão dela em casamento. Quero aproveitar que estamos em Miami e fazer algo que ela nunca se esqueça.

É um romântico! Comigo, você nunca foi, Augusto.

Silvio: Pegue. O que acha?

Augusto:  Não entendo dessas coisas, mas… poxa!

Amor, se liga! A porta!

Cíntia: Oi! Euzinha, outra vez.

Augusto:  Opa…!

Silvio: Cuidado, amigo!

Augusto:  Me assustei com a porta abrindo e…

Cíntia: Se machucou?

Augusto: Não, não.

Cíntia: Não precisa se levantar, eu aperto.

Que é isso? Está mantendo as mãos embaixo pra ela não ver o anel? Boa ideia. E coube com perfeição na lasca da cadeira. Cuidado com o dedinho.

Augusto: Térreo.

Cíntia: Puxa, esqueci meu celular no quarto.

Silvio: Cíntia, é que… Tá. Conto com você, amigo. Vou indo.

Olha a cara do menino! Como vai devolver o anel a ele?

Silvio: Te espero, meu bem.

Uma gracinha, esses dois!

Augusto: Sétimo?

Cíntia: Isso.

Pare de olhar a cadeira, benzinho. Está ficando na cara.

Augusto: Terraço chamando. Será o seu pai?

Cíntia: Pode ser. Ele devia descansar. Os médicos recomendaram repouso pro joelho, mas ele nunca obedece. 

Xi, olha a cara de tristeza da moça.

Augusto: Está preocupada?

Cíntia: Estou preocupada que ele não aceite meu namoro com Sílvio.

Vai ser psicólogo de novo? Como naqueles tempos!

Augusto: Chegamos.

Cíntia: Obrigada.

Lembre-se dos exames. Eles importam; esse velho e seus dramas, não.

Augusto: Não me importo com eles… o velho e a filha.

Ok. Como você era comigo; deve se lembrar.

Isso, abaixa a cabeça. Doi, né?

O que está fazendo? A cadeira não é pra você. Ah, o anel. Mas deixa isso na lasca, porque…

Augusto: Cala a boca, desgraça!

Nossa… ok.

A porta, amor.

Antônio: O que houve?

Augusto: Perdão. Sente-se, senhor.

Você vai ver. Ouça. Hmmm!

Antônio: E esse barulho? Essa cadeira está rangendo e é desse lado. O que tem… espera… 

Augusto: Senhor, cuidado com a lasca…

Antônio: Em que lugar você machucou o dedo?

Riiing!

Salvo pelo gongo!

Antônio: Celular me deixa sem paciência. Vejamos. Ah, maldito! Antenor, outra vez. Nunca vai produzir um leite como o meu, esse… 

Augusto: Não estou entendendo, senhor.

Antônio: Concorremos há décadas no ramo dos laticínios.

Augusto: Térreo.

E se foi.

Olha o tom, hein? Nem se despediram.

Augusto: Vou buscar os exames e almoçar.

Você sabe que sua ex ficará esperando no elevador.

*****

Voltou, meu amor? Viu, lembra de…

Augusto: Por favor, dê um tempo.

É que… 

Augusto: Terraço.

Quer silêncio, ok. O que se esperaria? Pois se vire.

Antônio: Oi, rapaz. Vou me sentar. Ah, para o sétimo.

Está me olhando por quê? A cadeira era o assunto, você esqueceu de tirar o anel. Mas se vire.

Antônio: E pensar que eu ia ter uma dupla de sertanejo com ele.

O que foi? Não sei com quem ele está falando. De psicólogo, você pulou pra psiquiatra!

Augusto: Senhor?

Antônio: Minha filha… Ela… Certeza que é o rapaz; Sílvio, filho do Cardoso. Esse moleque pensa que…

Augusto: Sétimo andar.

Antônio: Ah, deixa isso fechar. É que eu… Nós discutimos no almoço; eu e a Cíntia.

Esse velhote precisa de uma… hmmm!

Antônio: Essa cadeira range pra valer, hein?

Tem sorte. Não consigo derrubá-lo.

Augusto: Senhor Antônio, se me permite. Sílvio parece ser um… Olha, ele ama sua filha.

Antônio: E o que você sabe?

Augusto: Conversamos e ele mencionou…

Antônio: Ele o quê? Da minha filha cuido eu, rapaz.

Augusto: Com todo respeito, senhor: precisa de empatia, sensibilidade…

Tá querendo perder o emprego, Augusto?

Antônio: Acha que sou um insensível? Vou te contar. Pode deixar o elevador fechar. 

Essa vai ser daquelas!

*****

Antônio: Nos falamos, rapaz.

Meu amor, é que… Você parece… Seu olhar… Você nunca fica nesse estado. Tá, deixa. Não precisa responder.  

Se quiser chorar ao fechar da porta, ninguém vai olhar.

*****

Antônio: Oi, outra vez. Segura, o Silvio vem vindo. Ele que vai descer.

Amor, limpe os olhos.

E, olha, o anel sumiu. Será que ele...

Antônio: O Antenor ligou. Aquele… Ele quer propor um acordo. A essa altura! Isso me dá um nervoso.

Augusto: O concorrente, sei.

Antônio: Nasci na Serra da Mantiqueira. O pai dele morava no terreno ao lado. Meu pai tinha três vacas e um pedaço de terra. As coisas mudaram e exportamos leite para seis países. 

O velhote está de outro jeito, não?

Augusto: Está.

Antônio: Oi?

Augusto: Perdão. Eu falo com meus pensamentos, às vezes.

Antônio: Seus pensamentos, né? Te entendo.

Entende? Hmmm. Ele não usa aliança. Reparou? Será que a esposa dele… 

Augusto: Aquilo que me disse…

Antônio: Faz a gente pensar, né? Dá perspectiva.

Olha o Silvio vindo, segurando aquilo tudo. Pra quem cursa medicina, hein?

Antônio: Vou indo.

Silvio: Oi, Augusto.

Augusto: Sétimo andar?

Não esqueça de contar o que aconteceu com o anel.

Silvio: Não, vamos pôr isso no saguão. E puxa, que ansiedade! A Cíntia vai falar com ele. Estava esperando eu sair. Vai contar, acredita?

Augusto: Vou aproveitar que está com esse humor. 

Silvio: Do que precisa?

Augusto: Pode olhar uma coisa pra mim?

Conta do anel.

Que são esses papéis, amor?

Ah, ok. 

Silvio: Vejamos isso.

O botão, meu querido. Aperta. 

Vou sair pra ver a conversa entre pai e filha. Isso vai ser, oh! E conta do anel.

*****

Augusto: Obrigado. E chegamos. 

Silvio: Disponha! E seja de quem for, lamento.

Voltei, amor. O que houve? Porque esse olhar de… desolação? O que ele disse? 

Meu Deus…

Ok, já apertou o bastante esses botões; vai dar uns 5 minutos.

Você precisa de silêncio, né?

*****

Respira. Deve ser ele chamando no térreo.

Fala comigo, amor.

Silvio: Augusto do céu! Cara, o velho aceitou o namoro! Não falei com ele, mas puts! Ah, preciso do anel! Onde está?

Amor, vai ter que contar que sumiu.

Gente… ele vai quebrar essa cadeira.

Silvio: Mas que diabos? Tem que estar…

Augusto: Silvio, é que...

Estão chamando no sétimo. É ela.

Desse jeito ele vai… Quebrou mesmo, vixi. Avisa que sacudir não adianta.

Que desespero é esse? A porta, amor.

Cíntia: Silvio?

Deixa, deixa saírem. Eles que se entendam. Isso, aperta. Deixa eles. Conversa comigo.

*****

Sabe, Augusto, você sai e eu fico no elevador não pra te infernizar, como você pensa. Queria que você mudasse, mas nunca quis que a sua vida fosse um inferno. Por isso, não te sigo.

O painel acendeu. Terraço.

Augusto: Me perdoa.

Não, você é que precisa me perdoar, por tudo. Ninguém nunca achou que fosse sua culpa pra valer. O freio falhou, podia ter sido com você.

Augusto: Não quero viver desse jeito.

Limpa o rosto, viu? E olha a porta.

Augusto: Oi, Seu Antônio.

Antônio: Liberei o casal. Você precisava ver o rapaz! Todo atrapalhado, com o olhão, oh! 

Augusto: E essa caixa?

Antônio: Esta foi a primeira embalagem que usamos quando começamos a expandir. É um símbolo. No discurso da celebração, tomarei um gole. Um brinde ao sucesso! E vai começar em minutos. Vamos pegar o casal? No sétimo.

Vocês chegaram.

Cíntia: Pai, toma um gole pra ver se não azedou.

Antônio: Se fosse do Antenor, aquele… É um efeminado! Um covarde. Esse leite é outros quinhentos! Mas vamos ver. Segura o copo, Silvio.

Constrangedor. Abre pra ele.

Antônio: Obrigado.

Com um golão desses, parece…

Antônio: Isso, sim, é leite de macho!

Gente, olha a cara do Silvio. 

Cíntia: Pai!

Antônio: O quê? Ah! Ah! Ah!

Espere um momento. Augusto, veja o bolso dele! Vou usar a minha… Hmmm!

Antônio: E esse barulho?

Cíntia: Caiu do seu bolso. Parece… um anel, Silvio? Anel de…

Silvio: Noivado. Deixa, eu pego.

Não é que funcionou?

Silvio: Cíntia Mendonça, me daria a honra de se casar comigo?

Não acredito!

Cíntia: Adoraria!

Antônio se emocionou, gente!

Cíntia: Pai, eu…

Antônio: Tem a minha bênção, querida. E devo agradecer ao Augusto, que me deu perspectiva. Deus te abençoe, amigo.

Silvio: Obrigado, Augusto!

Augusto: Que é isso, gente…

Você corou, amor.

Xi, celular, bem no ápice da coisa!

Antônio: É o Antenor. 

Climão.

Antônio: Estive pensando. Vou atendê-lo. 

Cíntia: Outra mudança, pai?

Antônio: Vou indo. Encontro vocês no saguão.

Acho que você está segurando vela.

Silvio: Imagina, amor, as praias de Cancún. Águas como cristais, o sol se pondo no horizonte…

E se foram.

O que vai fazer, Augusto?

Augusto: Prefiro o Brasil que esses lugares, sabe? Nossa casa em Ubatuba, lembra? A varanda com vista para o mar, o jardim que você cuidava. O quarto da Bianca que nunca terminamos…

Ué, mas não era você que…

Augusto: Chega de fugir. Não quero gastar o tempo que resta com estrangeiros e elevadores. Vou voltar ao Brasil. Encarar seus pais, assumir minhas responsabilidades, cuidar da nossa filha enquanto puder. 

E que dia está pensando em… Está tirando o quepe por quê?

Augusto: Querida…

Dia de alegria! Significa que sua ex terminou. Está liberado de mim. Tudo cumprido.

Augusto: Você está liberada de mim.

Vá ver a Bianca! Viva sua vida. Amo vocês!

Augusto: Nem descer, nem subir. Escolho o Brasil.

 

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